Blog do jornal CineSemana

Postagens na categoria ‘Teatro’

As estranhezas de um cinéfilo no teatro

Por Alberto Buenoche

Para os fãs mais fervorosos de cinema, aqueles que elegeram a sétima arte como meio preferencial de diversão, cada visita ao teatro significa explorar um mundo totalmente à parte. Não é que o cinéfilo não possa se identificar com literatura, arte, música e com o próprio teatro. Pelo contrário. Quem frequenta as salas de exibição também costuma estar aberto aos outros tipos de arte e entretenimento. Mas a troca da tela que reflete uma imagem pela imensa caixa que é o palco gera estranhezas de ordem muitas vezes inimaginável.

A primeira delas diz respeito ao tempo. Ao contrário do cinema, o que o espectador vê em uma apresentação teatral é sempre a primeira e única tentativa, por mais ensaiada que tenha sido. Mais do que isso, o momento entre aquilo que é encenado e o que é assistido coincide completamente. Há um caráter imediato.

A segunda e principal estranheza que um cinéfilo tem de enfrentar quando vai ao teatro é, a meu ver, a co-presença. Mais marcante do que atuação e observação se darem simultaneamente, é o fato de atores e espectadores dividirem um mesmo espaço físico. Isso permite uma troca muito rica entre quem está sobre o palco e quem está na plateia. Dependendo da proximidade do palco, é possível até mesmo sentir cheiros (como o de um incenso aceso em cena), trocar um olhar com o ator e ver minúcias só perceptíveis porque não há o enquadramento próprio do cinema dirigindo o olhar de quem vê. O resultado é que nenhum detalhe escapa.

Estas duas características principais são responsáveis por potencializar as qualidades de uma apresentação, fazer de cada uma delas um espetáculo singular. Algo único, que, quando muito bem executado, causa tal impressão que é capaz de morar ainda na lembrança do espectador e povoar seu imaginário para sempre. Por outro lado, qualquer passo em falso será imediatamente sentido pelo público. E o mais perigoso: o ator que eventualmente for flagrado em desalinho sempre saberá que o foi, já que a comunicação entre quem está no palco e quem permanece fora dele é incessante, ainda que muitas vezes silenciosa.

Isso acaba gerando um desconforto próprio do teatro: o constrangimento. Não é que não existam filmes constrangedoramente ruins: há aos milhares. Mas a reação de um espectador diante de um filme ruim nunca vai além do desagrado ou do incômodo, por pior que ele seja. Em uma peça, diante dos próprios atores, o desagrado muitas vezes se transforma em puro constrangimento, talvez pela compaixão por aquela pessoa que está tentando e simplesmente não consegue, por aquele ator que almeja um objetivo que não pode atingir. E tudo se intensifica à medida que as partes sabem que não há opção senão ir adiante, até o final, custe o que custar, mesmo que rumo ao fracasso.

Foi mais ou menos o que presenciei na peça Senhora dos Afogados, escrita por Nelson Rodrigues e dirigida por Zé Henrique de Paula, que fez parte da programação do 16º Porto Alegre Em Cena. Apesar de todas as qualidades da montagem, nada é capaz de sustentar 11 números musicais de atores que, em sua maioria, simplesmente não sabem cantar. E testemunhar, simultaneamente e no mesmo local, olho no olho, um ator tentando vencer um solo musical sem ter sequer chances de empreender tal tarefa, gera tal angústia que faz ter saudades das inúmeras tentativas de takes de filmagem, das possibilidades de edição e de toda gama de truques de pós-produção que o cinema tem.

Artigo publicado no jornal CineSemana nº 97

McG vai levar musical Spring Awakening para a telona

McG, o infame diretor de As Panteras: Detonando e que terá sua grande chance de reabilitação em O Exterminador do Futuro: A Salvação, que estreia por aqui no dia 5 de junho, foi o escolhido para levar à telona a adaptação do musical de grande sucesso na Broadway e vencedor de 8 Tony Award Spring Awakening.

O musical, cheio de canções abordando temas como masturbação, estupro, aborto e suicídio, é baseado na peça de Frank Wedekind, de 1891, que retrata um grupo de adolescentes alemães que, vivendo no final do século XVIII, estão em plena descoberta da sexualidade.

Não há informações a respeito da peça ser vertida para o cinema na forma também de musical, e tampouco se sabe do interesse de algum grande estúdio em financiar o projeto.

CineSemana apoia a adaptação do musical (que é mesmo ótimo) para a telona, mas lamenta muito que McG tenha conseguido a direção.

Júlio Conte entre o palco e a psicanálise

Júlio Conte, autor de várias peças gaúchas (Foto: Divulgação)

Júlio Conte, autor de várias peças gaúchas (Foto: Divulgação)

O entrevistado da 66ª edição do CineSemana é Júlio Conte, autor e diretor de Bailei na Curva, obra de maior destaque do teatro gaúcho do todos os tempos. Natural de Caxias do Sul, Júlio formou-se em Direção Teatral em 1984 e, um ano depois, em Medicina. Ao longo de sua trajetória no mundo das artes cênicas, ele já recebeu diversos prêmios Açorianos.

Além de dirigir e escrever peças, Júlio é também ator, professor de teatro e psicanalista. Nesta entrevista, ele conta por que Bailei continua lotando plateias após 25 anos em cartaz, como sua formação médica interfere na vida pessoal e no trabalho com o teatro e como está sendo sua nova experiência mediando uma peça de improvisos. Confira aqui a íntegra.

A que você atribui o grande sucesso da peça Bailei da Curva, que está a 25 anos em cartaz?
O sucesso do Bailei é porque ele conta uma história do Brasil divertida e importante. Ele possibilitou ao longo dos anos uma série de releituras porque trabalha em cima da própria identidade do povo brasileiro, de um pedaço da história que já foi bem obscuro, mas agora já está mais clarificado. O Bailei é de 1983 e a democracia só voltou em 1985. Então o Bailei é a última peça ou a primeira peça sobre a ditadura ainda em vigência da ditadura. Em 83 quando estreou, nós estávamos vivendo ainda sob o regime de exceção. Então isso é uma coisa muito importante porque ela criou um espaço novo dentro da cultura, em que se começou a discutir essas coisas, a ditadura, o estado de exceção em pleno estado de exceção, em plena ditadura.

O tema da ditadura é, ainda hoje, retratado constantemente pelas artes. Na sua opinião, o que mantém o interesse do público pelo tema 25 anos depois da abertura?
No caso do Bailei na Curva é porque, além de falar da ditadura, falar de uma história do Brasil que marca uma identidade de um povo, conta também a história de costumes, uma história de pessoas, por isso ele ganha uma certa universalidade. Não é só falar da ditadura pela ditadura, é falar sim sobre os costumes da época, os hábitos, do tipo de roupa que se vestia, do jeito que se falava, de gíria, do tipo de ingenuidade que se tinha, um tipo de ousadia. Fala da alma do brasileiro em um determinado momento. De certa forma, reverencia também os anos 60, os anos 70, o Flower Power, o movimento hippie. Ela é uma peça que fala de esperança. Essa é a grande perda que a gente teve a partir do pós-modernismo, onde o teatro, o cinema e a televisão, todos passam a ter uma característica de salve-se quem puder. Ali no Bailei é uma saída coletiva, a busca. Eu acho que é o último suspiro da modernidade no teatro, porque ali fala de uma expectativa de uma saída coletiva.

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Mil estudantes são esperados amanhã para os Concertos Banrisul para Juventude

Os Concertos Banrisul para Juventude voltam ao palco do Theatro São Pedro amanhã, dia 23, às 10h e às 15h, em duas apresentações para cerca de mil alunos de escolas de Porto Alegre e arredores. Mais de 47,5 mil crianças e adolescentes já assistiram ao espetáculo, uma parceria do banco com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro.

Criançada erudita (Foto: Ivan de Andrade/Divulgação)

Criançada erudita (Foto: Ivan de Andrade/Divulgação)

Um dos motivos do sucesso do projeto, que está comemorando oito anos, é a interatividade promovida entre a orquestra e o público, construída a partir do texto escrito por Luis Fernando Verissimo. Para contar a história de clássicos mundiais como Bach, Mozart e Vivaldi e de brasileiros como Villa-Lobos, Chico Buarque e Tom Jobim, o maestro Carlos Borges Cunha contracena com o ator Sérgio Etchuirri, que interpreta um cômico candidato à músico e conduz a platéia a descobrir, como funciona uma orquestra.

Gastronomia sob os holofotes

No CineSemana de hoje, mostramos alguns dos chefs de cozinha que ganharam fama ao apresentar programas de televisão (e agora, até, espetáculos de teatro) e comentamos alguns sites de gourmands que publicam receitas e críticas de restaurantes. A matéria pode ser lida no pdf disponível para download no menu à esquerda.

Um dos blogs gastronômicos mais antigos no sul do País é o Garfada, que avalia muitos restaurantes em Porto Alegre e também testa algumas receitas. Ainda em Porto Alegre, o Destemperados não apenas comenta diversos restaurantes da capital gaúcha como classifica-os como opção para happy hour, grupos de amigos, namorados, etc.. Na mesma linha, o Serviço de Mesa publica algumas receitas e avalia restaurantes de Porto Alegre e região metropolitana. Os três sites são ótimas maneiras de conhecer os restaurantes mais legais da cidade.

Quem mora em Blumenau – ou apenas quem pretende ir à Oktoberfest – vai achar boas dicas no site dos Desbravadores da Oktober, que experimentaram ano passado todas as cervejas e todos os petiscos que a festa alemã oferece e já estão se preparando para a edição 2008. Já no Tramas Culinárias, se encontra um tanto de Joinville, um pouco de outras cidades catarinenses e até dicas de São Paulo. Vale uma olhada para quem for viajar por Santa Catarina.

Mais voltados a receitas, o site de Rafael Reinehr trata de gastronomia toda segunda-feira, enquanto o Batuque na Cozinha publica receitas de tudo que é tipo de prato.

A moda da culinária também tem seu espaço na televisão. Continue lendo »

A nova versão do “maior espetáculo da Terra”

Fui ontem assistir ao Alegría, do Cirque du Soleil, e tanta badalação em torno do evento não é em vão.

Figurinos impecáveis, banda (excelente banda) tocando ao vivo, organização irreparável. Espetáculo belíssimo.

Nenhum número deixa a desejar, nem mesmo os tradicionais palhaços, que tanta gente não aprecia (alguns até têm medo).

E os caras sabem como ganhar dinheiro de verdade: além dos ingressos caríssimos, muita gente acabou gastando vários reais extras na enorme loja que vende artigos com a marca do circo. Pra se ter uma noção, camisetas simplezinhas saíam por uns R$ 70 e um adereço para a cabeça, com duas ou três plumas, por R$ 130.

Na copa, uma pipoca grande custava R$ 13, e uma lata de refrigerante, R$ 4.

A questão me parece a seguinte: quando o espetáculo e todos os serviços que o envolvem estão de acordo ou mesmo superam a expectativa do público (neste caso, uma expectativa altíssima), ninguém se importa em pagar por ele.

“A falta de memória do brasileiro é que nos mantém em cartaz”: entrevista com Nico Nicolaiewsky

Tangos e Tragédias

Juntos desde 1984, a dupla Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky segue arrasando pelos palcos do mundo. Kraunus Sang, com seu violino delirante, e o maestro Plestkaya, com seu acordeom de efeitos fantásticos – como são mais conhecidos os dois maiores artistas da Sbornia –, já se apresentaram nos mais importantes teatros do Brasil e países como Argentina, Equador, Colômbia, Espanha e Portugal, sendo visto por mais de um milhão de pessoas. Depois de 23 anos em cartaz com o espetáculo Tangos e Tragédias, a dupla está lançando seu primeiro DVD, fruto de um show ao ar livre para 20 mil pessoas realizado na Praça da Matriz, em Porto Alegre. Enquanto se preparava para estrear a 21ª temporada consecutiva no Theatro São Pedro, na capital gaúcha, Nicolaiewsky, em alguns momentos encarnando o maestro Pletskaya, deu a seguinte entrevista ao CineSemana:

Tangos e Tragédias é uma mistura de interpretação e música. Qual a origem de vocês, a música ou o teatro?
Nossa origem é a música. Tanto eu quanto o Hique começamos trabalhando como músicos. Eu tocava numa banda chamada Saracura e ele tinha uma dupla, que se chamava Hique e Sabrito.

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