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Por Eduardo Menezes
Eu não sei nada sobre cinema. Mas não se irrite comigo, vou provar que posso ser útil.
Mesmo pertencendo a uma casta diferente, tenho consciência da importância de um espaço especializado como este, e não faria dele palco para bradar aos quatro cantos o meu desconforto com a sétima arte. Principalmente porque esse desconforto não existe.
Sou um simples ignorante no tema, do tipo que não consegue viver a cultura cinematográfica como um todo por ser terrivelmente ruim com fisionomias e nomes. Gosto e vou ao cinema com freqüência, mas dificilmente saberia elencar os diretores e roteiristas dos filmes que assisto. No máximo, posso dizer como antipatizo com o Nicolas Cage – aquela implicância gratuita que só quem não tem nada a perder pode divulgar, sem preocupações maiores com argumentação.
Assim sendo, toda a responsabilidade na hora da escolha de um filme recai sobre fatores tidos como secundários por muitos, mas que são meus cães guia na cegueira que sinto numa fila de cinema, antes mesmo das luzes apagarem. E o meu melhor amigo nesta hora é o cartaz.
Entendo que muitos os colecionem e tenham como peças de estimação, mas para mim é apenas uma ferramenta. Logo, encaro ela com seriedade, e cobro que ela represente de fato o que estou prestes a assistir. E os senhores que me desculpem, mas nessa arte eu que sou especialista.
Alguns filmes têm cartazes tão inadequados que sequer deveriam ser assistidos. Xeque-Mate (2006), por exemplo, tem um cartaz que tenta simplificar um roteiro cheio de suspense e viravoltas em um filme de tiroteio “à la” Bruce Willis. Tanto que é o próprio que aparece empunhando duas armas no centro do banner, sendo que nem protagonista é. Nesse assalto ao bom senso, quem perde mais é Josh Hartnett, colocado em segundo plano.
Entendo a razão mercadológica, e que um filme com armas e Bruce Willis tem mais apelo, mas a história simplesmente não é esta.
Outro exemplo estranho é de Meu Nome Não é Johnny (2008). Quando fui assistir, desconfiei muito do gosto de minha namorada, já ensaiando aquela reclamação ciumenta pra cima do Selton Mello. O rapaz aparecia como um gangster, abaixando os óculos escuros, cheirando a enredo policial setentista. Contudo, o filme é muito mais que isso. Nada perto do que o cartaz desvenda.
Talvez tenha funcionado de forma inversa a peça publicitária, já que ela baixou tanto minha expectativa na película que o que veio foi muito bem-vindo.
Portanto, se pintar aquela dúvida na fila do cinema, consultem um incauto que entende de cartazes. Será uma honra ajudar.
por Igor Salomão Teixeira
Mestre em História e professor da UFRGS
15 de outubro é dia do professor! Escrevo para homenagear meus professores (ex e atuais), minha mãe, professora da antiga “quarta série”, e minha irmã, que também é professora de história. Faço isso, por reconhecer as dificuldades de ser professor no Brasil. Quando pensei neste artigo, pensei na minha crença quase utópica de que é na sala de aula que uma sociedade pode iniciar um processo de mudança: falamos de inclusão, cotas nas Universidades, bolsa-escola, Prouni. Mas, e o professor? O professor é o motor da mudança: sua sensibilidade, formação e dedicação que iniciam as transformações.
Filmes como Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Mudança de Hábito (1992 e 1993), Mr. Holland, Adorável Professor (1995), O Sorriso de Monalisa (2003) e Escritores da Liberdade (2007) não se diferenciam em suas temáticas: um novato entra para uma escola “problemática” (leia-se periferia, na lógica dos filmes) e/ou para lecionar em cursos sem prestígio. Assim, a Irmã Mary Clarence (ou Deloris), vivida por Woopi Goldberg em Mudança de Hábito, ou o Mr. Holland, professores de canto e música, respectivamente, não são muito diferentes um do outro. De odiados a heróis, de desrespeitados a autoridades.
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Hilton Lima, publicitário e editor do blog DROPOUT
É inegável o dom que o cinema tem para transformar o desconhecido em popular. Se um assunto é demasiadamente específico ou incomum, o cinema consegue introduzi-lo na cabeça do espectador em questão de minutos. Em breve, o que antes era do conhecimento de poucos, passa a ser dominado superficialmente por todos. Os assuntos vão desde o último genocídio africano ignorado pela imprensa internacional, até o nome e a aparência de uma determinada espécie de dinossauro. Você sabia que, na realidade, o temido Velociraptor do filme Jurassic Park era do tamanho de um cachorro e tinha o corpo revestido por penas? Não, pois no filme, ele foi retratado como um aterrorizante lagarto do tamanho de um carro, e não como um galinhão com dentes.

Embora diferentes, as duas versões do Velociraptor são muito feias
Porém, em época de Olimpíadas, é inevitável a lembrança dos esportes que foram introduzidos ao público brasileiro quase que exclusivamente por intermédio do cinema. O esporte sempre foi um prato cheio para roteiristas e diretores, por apresentar o tradicional conflito entre heróis e vilões de uma forma que somente a guerra é capaz de reproduzir. Como quase toda a produção cinematográfica que chega aos cinemas brasileiros é americana, os esportes de escolha para o cinema são, obviamente, aqueles populares nos EUA, como o beisebol e o futebol americano.
O mais curioso é que o cinema foi o principal responsável pelo fato de tais esportes não necessitarem de maiores explicações para o público em geral, hoje em dia. Quase ninguém entende as regras, mas existe um domínio superficial. O mesmo domínio superficial que faz alguém com nenhum interesse em Arqueologia compreender o que a insólita palavra Velociraptor significa. No caso dos esportes americanos infestados de intervalos, as transmissões de jogos são um fenômeno recente, e praticamente restrito à TV a cabo. A verdadeira “popularização” se deu através dos filmes.
Porém, os filmes não são a única forma de divulgar esportes excêntricos para o público em geral. Nesse aspecto, perdem em eficácia para as Olimpíadas. Na próxima semana, as mais variadas e enfadonhas modalidades esportivas voltarão a habitar a mente do cidadão comum. Ocuparão as grades de programação das emissoras de televisão, que apresentarão ao espectador termos como Wazari, Sukahara e Badminton, ou, até mesmo, tentarão contextualizar por que alguém pratica Marcha Olímpica. Terminadas as Olímpiadas, o espectador irá se sentir culturalmente mais rico, pois terá adquirido um conhecimento superficial sobre uma série de esportes que irão hibernar em seu cérebro pelos próximos quatro anos, para serem acordados novamente apenas em 2012.
Triste do esporte que não tem os filmes nem as Olímpiadas para divulgá-lo. É o caso do rugby, um esporte que mais parece um intermédio entre a versão tradicional e a americana do futebol. Possui objetivo e bola similares ao futebol americano, mas herdou do futebol normal a ausência de proteções, de capacetes e de paralisações a cada dois segundos. Sua total obscuridade no Brasil poderá acabar em breve, já que Clint Eastwood irá dirigir um filme narrando o importante papel que este esporte desempenhou na reconstrução da África do Sul após o Apartheid, com data de lançamento prevista para meados de 2009. Fosse outro esporte, pouco seria o alarde entre seus praticantes e apreciadores. Mas quando se aprecia algo tão desconhecido como o rugby, festeja-se o singelo fato da população geral compreender o significado da palavra “rugby” e possuir um conhecimento superficial sobre o esporte que tal palavra representa. E isso, o cinema sabe fazer como ninguém: popularizar o desconhecido da forma mais simples possível. Nem que para isso seja preciso depenar um dinossauro.
Por Gustavo Mini
Não sei se você tem notado, mas ultimamente a publicidade tem ido com mais freqüência ao cinema. A revista Vanity Fair contou quase 70 produtos e marcas citados ou utilizados em Sex and The City: O Filme. Um dos blockbusters de 2007, Transformers, foi considerado por muitos especialistas como um novo modelo na mistura de conteúdo e publicidade, uma vez que os mocinhos do filme eram carros da GM. E em Viagem a Darjeeling, os protagonistas do filme de Wes Anderson passam a tal da viagem inteira carregando suas exclusivas malas Louis Vuitton.
Mas isso não acontecia antes? Por que estamos vendo ocorrer com mais intensidade? O que mudou nos últimos anos? Mudou que o consumidor está ficando mais esperto. O barateamento e a popularização da tecnologia nos últimos dez anos colocaram os meios digitais de produção (computadores pessoais e celulares) e distribuição (internet) nas mãos de quase todo mundo. E, de repente, o seu computador e o seu celular viraram uma central que produz e veicula filmes, música e foto. A sua vida ficou mais fácil. E a dos marqueteiros, muito mais complicada.
Estamos assistindo ao fim do domínio da publicidade interruptiva. Em outras palavras, a publicidade que fica entre dois segmentos de programa de TV ou entre duas matérias de revista está sendo lentamente substituída por outras ferramentas mais integradas a toda uma nova cultura de consumo de entretenimento e informação.
Uma dessas ferramentas é o product placement (no Brasil também chamado de merchandising), onde uma marca aparece misturada ao roteiro de um filme. Não se trata de um subterfúgio novo. Desde os pioneiros franceses Irmãos Lumière (que no século XIX já colocavam em suas histórias o sabonete da empresa de um associado) uma ligação controversa une Hollywood a indústrias de peso. Por meio de contratos milionários, muitas marcas foram parar dentro de roteiros na esperança de encontrar uma forma menos interruptiva de chegar ao consumidor.
Mas foi uma espetacular manobra da BMW em 2001 que virou o jogo e redefiniu os limites entre conteúdo e publicidade em um formato que até hoje é copiado. Através de um projeto desenvolvido pela agência americana Fallon Worldwide, a campanha tradicional da BMW se tornou The Hire, uma série de oito curtas-metragens dirigidos por diretores de peso como John Woo, John Frankenheimer e Ang Lee.
The Hire foi um marco na história da mistura entre publicidade e conteúdo por estabelecer um novo patamar de qualidade e uma nova equação. Os filmes foram veiculados inicialmente na internet para depois ganharem edições em DVD e até mesmo uma série em quadrinhos. Só na internet, os filmes foram vistos mais de 100 milhões de vezes nos primeiro quatro anos e ainda hoje são assistidos em sites como YouTube ou baixados em programas de compartilhamento.
Para conquistar consumidores de forma mais perene, a série da BMW nos ensinou uma valiosa lição: diferente do que vínhamos praticando até então, chegou a era em que aparecer menos (e direito) é aparecer mais.
Gustavo Mini é Coordenador de Conexões na agência Escala e editor do blog Conector
Na edição de 4 de abril, uma das matérias principais tratou do cigarro como é mostrado no cinema. Por isso, convidamos o escritor e médico da saúde pública Moacy Scliar para escrever um artigo sobre o tema.
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Fumo e Cinema
por Moacyr Scliar
Em 1951 dois pesquisadores, Richard Doll e Austin Bradford Hill, começaram a estudar, em médicos britânicos, a associação entre fumo e doenças, particularmente câncer de pulmão. Os resultados iniciais indicaram que os fumantes tinham uma mortalidade por câncer pulmonar dez vezes maior que a dos não-fumantes. Desde aquela época, estudo após estudo vem demonstrando a ligação do fumo com numerosos problemas de saúde. Caso você não esteja convencido disso, o que eu duvido, aqui vão algumas recentes informações. Em relação aos não-fumantes, no caso de doença cardíaca fatal o risco é duas vezes maior; duas vezes maior também o risco de acidente vascular cerebral e de úlcera péptica. O câncer da boca, da garganta, do esôfago, do pâncreas, do rim, da bexiga, do colo uterino. é muito mais freqüentes em fumantes, como o são doenças respiratórias, a osteoporose (falta de cálcio nos ossos), certas doenças da retina. Os fumantes têm até mais rugas. Fumar encurta a vida em 5 a 8 anos. E não é a si só que o fumante prejudica. Os bebês de mães fumantes nascem com peso menor, estão mais sujeitos a infecções do pulmão e do ouvido, e apresentam maior risco de retardo mental. As pessoas que estão num ambiente com fumaça de cigarro são prejudicadas, transformando-se em fumantes passivos. Isto tudo sem falar no incêndio, na sujeira, na despesa…
Parar de fumar diminui quase todos estes riscos. Apesar disto, muitas pessoas continuam fumando - ou começam a fumar. E a pergunta é: por quê? Resposta: porque são induzidas a isto. Fumar não é uma coisa natural, nunca foi. As pessoas que começam a fumar passam mal, ficam tontas, nauseadas. Mas, e os índios, alguém perguntará. Eles fumavam, em grandes cachimbos, as folhas de tabaco, mas apenas esporadicamente: um ritual religioso que não chegava a se constituir num problema de saúde.
Aí veio a industrialização. A indústria criou o cigarro, que é mais prático e apresenta uma enorme concentração de nicotina (e de outras substâncias nocivas). Tudo isto com o apoio de maciças campanhas publicitárias que “ensinaram” o público a fumar. O objetivo, como todos sabem, era tornar o fumo glamuroso. O que foi feito de várias maneiras, inclusive através do cinema.
Vamos tomar um exemplo menos conhecido, o do charuto. Charuto, nos Estados Unidos, era uma coisa mal-vista. Por uma razão simples: gangsters muito conhecidos fumavam charuto e eram freqüentemente fotografados assim. O que fez a indústria? Em primeiro lugar, “convenceu” os jornais e revistas a não publicarem mais tais fotos, mas sim as de gente charmosa - atores, esportistas - fumando charutos. O auge da campanha foi alcançado quando Ingrid Bergman, então uma atriz famosa, apareceu num filme dizendo que adorava fumantes de charuto.
Em 2007 o Instituto de Medicina da Academia de Ciências dos Estados Unidos fez um estudo concluindo que:
• Nos filmes, são glamurizados os personagens que fumam, especialmente os jovens;
• O uso de fumo nos filmes estimula jovens a fumar. Jovens não-fumantes que vêem seus astros favoritos fumando têm dezesseis vezes mais chances de começar a fumar do que outros jovens;
• O fumo no cinema é responsável pela iniciação ao cigarro de 52% dos adolescentes.
Quando a propaganda do tabaco foi abolida na tevê, as companhias de cigarro americanas voltaram-se para o cinema. E há nisto uma ironia: quando traillers de filmes são mostrados na tevê, atores e atrizes aparecem fumando, o que é uma burla da lei.
Um filme antigo esse, que mostra os interesses da indústria do tabaco. Tão antigo como os faroestes. E neste filme, o bandido sempre vence.
por Luiz Antonio de Assis Brasil*
Um livro é um livro, um filme é um filme. Com desculpas pela cruel tautologia, as conexões entre filme e livro correm por conta de um processo mental exclusivo do espectador e do leitor, jamais do autor da obra literária. Este não deve cair na tentação de avaliar o filme realizado sobre seu próprio livro porque não possui a necessária distância que permite a crítica.
Em meu caso, sigo à risca esse preceito. Não gosto de ler previamente os roteiros. Quando sou solicitado a isso, faço-o por pura educação, mas nunca acho nada de errado no texto, nem algo de genial. Não tenho condições técnicas de julgar roteiros. A minha (pouca) competência é para escrever romances.
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