Blog do jornal CineSemana

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Presença de Alice

Já que o assunto é ela, mesmo, adianto aqui para os leitores do blog o artigo de autoria do escritor Rafael Bán Jacobsen, que será publicado na edição impressa do jornal, nesta sexta-feira.

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As peripécias da menina Alice em um mundo paralelo, surpreendente e movido por uma (i)lógica muito peculiar, narradas nos livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), representam um verdadeiro totem da literatura ocidental e, mais do que isso, tornaram-se leitmotiv na cultura pop, merecendo adaptações em desenho animado e cinema e servindo de inspiração a coisas tão díspares quanto a criação musical dos Beatles e a designação de síndromes neurológicas. Muito mais interessante do que fazer tal constatação é buscar compreender os motivos do onipresente “fenômeno Alice”.

Já na época do lançamento, os livros de Lewis Carroll (pseudônimo do diácono anglicano, matemático e fotógrafo Charles Lutwidge Dodgson) caíram no gosto popular, talvez por significarem um contraponto fantasioso às histórias edificantes e moralistas que eram lidas para as crianças da Inglaterra vitoriana. Sempre é possível uma leitura ingênua das duas obras; porém, de igual modo, é possível que se veja, na fuga de Alice para o mundo mágico, uma forma de censurar uma sociedade opressora. Alice é ousada, quebra convenções e não é punida por isso, pois não há punição no país das maravilhas. E nada escapa à sua insubmissão, nem mesmo o símbolo máximo da monarquia no período: a rainha (aliás, conta-se que a Rainha Vitória leu Alice no País das Maravilhas e gostou muito).

Nesse sentido, é emblemático o embate entre a menina e a Rainha de Copas no final da primeira narrativa. A Rainha solta o seu famoso bordão Cortem-lhe a cabeça!, mas Alice não tem medo e a enfrenta. Por esse motivo, os soldados (que são as cartas do baralho) tentam atacá-la; nesse momento, contudo, Alice desperta de seu sonho e percebe que, na verdade, eram folhas de árvore que caíam sobre ela, e não cartas de jogar. Entende-se então que, após demonstrar sua mudança de comportamento através do confronto, o mundo da fantasia se acaba, e Alice, amadurecida, desperta para a realidade.

Chegamos aí a um segundo elemento que faz parte do poder que emana de Alice. Carroll publicou seus livros décadas antes de Freud lançar A Interpretação dos Sonhos. De modo leigo, teria o escritor antecedido as descobertas de Freud? De fato, Carroll foi um dos primeiros autores a se apropriar da linguagem onírica, com toda sua alta carga simbólica, sua imagética surreal e seus deslocamentos espaço-temporais, e utilizá-la para tecer uma longa narrativa ficcional. E o fez com maestria, considerando, inclusive, as repercussões do processo onírico e da sua compreensão pelo sonhador na construção da “vida real”.

Por essas e outras razões (como, por exemplo, seu subtexto com densos influxos da lógica e da matemática), os livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho mostraram ser muito mais do que histórias infantis: são obras-primas da literatura fantástica de todos os tempos, para leitores de todas as idades. Duas palavras absolutamente atuais e caras à cultura pós-moderna servem para descrever as centenárias criações de Lewis Carroll: nonsense e psicodelia. Isso demonstra o caráter inovador das obras e a sua atemporalidade. Com certeza, enquanto houver literatura, Alice estará sempre presente.

A bela estreia de Tom Ford no cinema

Por Samir Machado de Machado

Quando um profissional reconhecido numa área se aventura por outra, é comum que se olhe com desconfiança – sejam cantores se aventurando a atuar em filmes (ou escrever livros infantis, como Madonna), ou atores que se arriscam a virarem músicos (caso recente de Scarlet Johansson, por exemplo). Assim ,é natural que muitos narizes tenham sido torcidos ao saberem que o estilista Tom Ford estava lançando um filme – motivo que o levou a manter a produção sob segredo, para não ser visto apenas como “um fashion designer que decidiu fazer um filme”.

O resultado foi o filme A Single Man (que no Brasil, ganhou o pavoroso título de Direito de Amar), adaptado do livro Um Homem Só, de Christopher Isherwood. No papel de George, um professor gay que perde ocompanheiro de quase duas décadas num acidente de carro e pensa em se suicidar, o inglês Colin Firth ganhou o Leão de Ouro em Veneza como melhor ator e sua primeira indicação ao Oscar.

Ford mostrou-se um bom diretor de atores – as atuações não apenas de Firth, mas também de Julianne Moore como uma amiga solteira que ainda guarda sentimentos por George, e da revelação Nicholas Hoult (o menino de Um Grande Garoto, agora crescido) como um aluno interessado em seu professor, são cobertas de uma intensidade sutil. Mas, acima de tudo, Ford revela-se um cineasta com um rigor estético intenso. Essa seja talvez sua maior contribuição, enquanto designer de moda, para o seu lado autoral: a impecabilidade de cada cenário, objeto de cena ou figurino.

Enquanto George, o protagonista vivido por Firth, enfrenta sua depressão com uma fotografia em tons esmaecidos, ao ser confrontado com uma imagem ou um cheiro – seja umpenteado, uma flor, um perfume – as cores subitamente esquentam, tornando-se vivas e intensas. Essa ideia, que tanto pode ser usada para acusar o diretor de falta de confiança nos seus atores, também é uma carta de intenções como autor: um cineasta com uma rara preocupação pela intensidade sensorial da imagem.

Claro que os figurinos, como era de se esperar, são igualmente impecáveis – do vestido de noite de Julianne Moore ao pulôver angorá de Nicholas Hoult, passando pelo rigor dos ternos de Firth, não parece haver um fiapo fora do lugar ou em desalinho com sua proposta estética. Ford não tem medo de correr risco, faz referências a Almodóvar e Hitchcock, e erra a mão em alguns momentos, mas é esse seu ímpeto de assumir o risco de alguns excessos que o eleva em sua estreia na direção para além de ser, meramente, um estilista que decidiu ser diretor. Espera-se, apenas, que seu próximo filme ganhe das distribuidoras nacionais um título mais condizente com tanto bom-gosto.

*Publicado originalmente no CineSemana nº 123

Em Avatar, o meio é a mensagem

Por Samir Machado de Machado

Do muito do que se tem falado sobre Avatar – o orçamento estratosférico e a bilheteria idem, o roteiro funcional e a reação indignada da direita americana com o tom ecológico-pacifista do filme, e tudo o que ele promete –, um aspecto pouco observado é que, em sua promessa de reinventar a experiência de ir ao cinema, o longa tem levado às salas um público que não havia ainda experimentado o cinema 3D. Público este que, talvez, estivesse reticente com a oferta até então dominante de filmes de animação infantil e produções B.

Mais do que isso, tem trazido o público em geral de volta aos cinemas, em época que muitos abdicam da experiência coletiva da sala escura e da imersão da tela grande. Com tudo o que Avatar promete, baixar o filme para velo num laptop perde o sentido. É a forma que Hollywood encontra para combater a pirataria: fazer filmes que justifiquem o preço do ingresso e lembrem o público do que significa ir ao cinema.

E tanto melhor que Avatar é o primeiro filme em que a experiência do 3D está intrinsecamente ligada a sua história. Curiosamente, muito pouco se tem da impressão de ter “coisas vindo na sua cara”, pelo contrário, é o espectador que é deixado sempre a ponto de entrar no filme, quase como se pudesse afastar arbustos ou névoas e explorar a selva de Pandora.

Essa cautela em quebrar a quarta parede faz com que a experiência de assistir Avatar em 3D torne-se análoga à sua história: o deslumbramento pela sensação táctil provocado pelo filme em boa parcela do público (que em grande parte descobre o 3D com Avatar) corre em paralelo com o deslumbramento do protagonista Jake Sully em explorar o mundo de Pandora e recuperar os movimentos de sua perna – a cena em que Jake, já no corpo de seu avatar, corre por uma plantação e sente a areia em seus pés é símbolo disso.

Todo o filme está estruturado sobre o conceito de conexão e sensação: o soldado paraplégico que volta a andar em um corpo alienígena, a conexão direta dos Na’vi com animais e plantas, os soldados e sua conexão com armaduras robóticas, mas também, no momento que é preciso que se coloque óculos especiais para assistir ao filme, entre o espectador e a tela.

Não deixa de ser curioso que a forma encontrada por James Cameron para contar sua história – que versa, basicamente, sobre nossa falta de conexão com a natureza e um certo horror à desumanização provocada pela tecnologia – seja, justamente, usando a mais avançada tecnologia do momento.

Breve incurso pela história recente do humor britânico

Por Hilton Lima

Antes de encenar Borat Sagdjev nos cinemas do mundo inteiro, o comediante inglês Sacha Baron Cohen já havia atingido o sucesso com o repórter cazaque na sua terra natal, a Inglaterra. Inicialmente, Borat aparecia em quadros que duravam cerca de cinco minutos, dentro do Ali G Show, programa ancorado por outro personagem de Baron Cohen, o rapper canastrão Ali G.

Nos segmentos, o hilariante repórter apresentava aspectos da vida britânica aos espectadores, que iam desde competições esportivas até jantares finos, passando por protestos contra a caça à raposa. Nas entrevistas que Borat realizava com os mais variados tipos de cidadãos ingleses, era comum a pronúncia de uma frase, sempre que o personagem de Cohen fingia não compreender o que o entrevistado falava: “Isso é humor inglês?” O entrevistado, geralmente intrigado ou constrangido pela atitude do estranho repórter, esforçava-se para explicar a Borat algo que, para um britânico, era extremamente corriqueiro.

Baron Cohen mostrava para a audiência um velho senso-comum na Inglaterra: a ideia de que o humor britânico é enigmático e quase indecifrável para o público estrangeiro. Como consequência, não pode ser engraçado para alguém que não tenha nascido na terra da Rainha.

No entanto, definir o que é humor britânico é uma tarefa complicada e subjetiva. Em geral, a expressão é utilizada quase sempre com uma conotação negativa, para definir piadas de comediantes oriundos da Grã-Bretanha que soam demasiadamente estranhas para os ouvidos de um estrangeiro. Em outras palavras, quando um inglês conta uma piada e ninguém ri, perdoa-se uma eventual inépcia do humorista com a desculpa de que a sua piada constitui um exemplo de “humor britânico”. Continue lendo »

Meu futebol não passa no cinema

Por Douglas Ceconello
Criador e editor do Impedimento

Esporte que atrai multidões e movimenta fortunas, o futebol não costuma gerar grande comoção quando representado no cinema. Até hoje não tivemos um grande sucesso de público e crítica em que a trama girasse em torno do que acontece dentro das quatro linhas de um campo de jogo. Mais do que isto, ninguém parece muito interessado no assunto, sejam as produtoras, diretores e roteiristas, seja o público. É bem provável que este desdém pelos filmes sobre futebol esteja ligado a experiências traumatizantes vividas nos confins de salas escuras ou, sendo otimista, a expectativas frustradas, já que a queixa é antiga.

É difícil ao extremo lembrar de um filme arrebatador sobre o assunto preferido de dez entre dez brasileiros. Penso em outros esportes e logo me ocorre Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday) , onde Oliver Stone retrata com maestria o universo do futebol americano. Não com a mesma qualidade, mas aos borbotões, me ocorrem dezenas de obras que abordam outras modalidades do desporto mundial, como baseball, automobilismo, basquete e até sinuca.

Cena do filme Milagre de Berna

Cena do filme Milagre de Berna

Um dos grandes problemas dos filmes que se propõem a abordar o futebol é que não voltam a devida atenção à relação individual que cada um tem com as diversas facetas dessa febre monumental que atrai milhões de pessoas aos estádios. Muito mais do que entretenimento, o futebol interfere diretamente na vida de seus aficionados, com freqüência sendo tão ou mais importante que política, cultura e religião. Abordá-lo de forma superficial, aquiescendo ao chavão de que se trata apenas do “ópio das massas”, é implorar para cair no esquecimento. Esse foi o pecado inclusive de filmes que tinham potencial para superar tão importante barreira, como Milagre de Berna (Das Wunder von Bern) e Gol! (Goal). Continue lendo »

O que há de errado com os trailers?

Um dos tantos diferenciais das salas de exibição em relação ao aluguel de DVD e, mais recentemente, do download de filmes na internet, são os trailers de filmes inéditos. Sua função principal é a de informar o público sobre os novos lançamentos que virão, os títulos programados para os meses seguintes. Alguns outros fatores fazem com que ele seja mesmo parte fundamental das projeções: primeiro, ele estabelece uma atmosfera de expectativa e excitação na espera pelo início do programa principal, um “clima de cinema” que extrapola em muito os aspectos físicos objetivos da tela grande com boa imagem, som cristalino em alto volume e sala escura; em segundo lugar, os trailers auxiliam nas nossas próximas escolhas cinematográficas, nos permitem vislumbrar possibilidades futuras e prolongar a expectativa para além daquela sessão.

Ultimamente, porém, os trailers se transformaram em um verdadeiro desserviço ao espectador, além de uma tremenda chatice. No afã de conquistá-lo a qualquer custo e mirando unicamente na decisão de escolha do próximo filme, eles não se furtam a distorcer por completo o enredo, a temática e até o estilo de uma obra. Quem os produz também parece pouco ligar se, em outros casos, contam toda a sua história, revelam seus desfechos, estragam suas surpresas ou, no caso específico das comédias, jogam na cara do espectador, em um compacto de dois minutos exibido meses antes do lançamento da produção, todas as piadas e tiradas engraçadas de uma só vez, fazendo com que a experiência, depois, ganhe ares de déjà vu.

O exemplo mais recente desta prática se deu no último final de semana, quando fui ver Fatal, de Isabel Coixet. Fui ao cinema dividido entre duas expectativas antagônicas: uma boa, gerada pelo conhecimento prévio do trabalho da diretora e também da história de O Animal Agonizante, de Philip Roth, no qual o filme é baseado; e outra ruim, derivada do trailer que vira dias antes e que mostrava um thriller ancorado em clichês cinematográficos, sustentados pela linha ciúme, obsessão, traição, perseguição e a sugestão do desfecho de sempre. Para minha sorte, o trailer se mostrou completamente enganador, e o filme não caminhou pela via descrita por ele.

Surpreendentemente, pesquisando na internet, encontrei uma versão completamente diferente do trailer do mesmo filme. Ao invés do ar de suspense e da música marcando os pontos de tensão, o que é focalizado são os pensamentos de um homem atormentado pela paixão na velhice, acompanhado por uma trilha musical latina que representa a mulher que é o objeto dessa paixão, algo mais condizente com o título original (Elegy, em português elegia, poema ou canção de lamento). Infelizmente, não foi este segundo o trailer escolhido pelo estúdio e pela distribuidora para ser exibido nos cinemas.

A própria escolha do título brasileiro, Fatal, ajuda a revelar um sórdido mecanismo de enquadramento de todo filme em algum dentre a meia-dúzia de gêneros pré-estabelecidos, mesmo que esta colocação seja feita de maneira constrangida, a marretadas e com a ajuda de um pé-de-cabra. Tal imposição forçada de estereótipos acaba por estabelecer um modelo de expectativas anterior ao espetáculo em si. E isto só pode ser muito ruim, à medida que define o modo como o espectador vai perceber qualquer conteúdo específico, e acaba funcionando como uma espécie de lente distorsiva ou como o uso constante de óculo fumê, que não permitem que as coisas sejam vistas em seu formato e em suas cores verdadeiras.

O cinema, a representação, o real

Por Antônio Xerxenesky
Romancista, autor de Areia nos Dentes (2008, Não Editora)

José Padilha, o talentoso cineasta por trás de Tropa de Elite e Ônibus 174, esteve em Porto Alegre no mês de maio para uma conferência no Fronteiras do Pensamento. Antes de iniciar sua fala, decidiu fazer uma distinção entre “tipos de filme”. Para Padilha, qualidade à parte, havia uma divisão entre filmes preocupados em representar a realidade, como o seu Tropa de Elite, e outros que não tinham essa pretensão, como Alien e Star Wars. Talvez a sua categorização fosse mais complexa; se é o caso, perdeu-se na coloquialidade. O que interessa aqui é que muitos parecem compartilhar dessa visão e eu, pelo contrário, discordo bastante.

O que está em jogo não é mera rotulação, mas sim a questão da mímese, da representação. O tema foi assunto de muitos escritos, desde o clássico Ars Poetica de Aristóteles até o Mimesis, de Erich Auerbach. Será que por um filme mostrar as imagens de traficantes trocando tiros em uma favela no Rio de Janeiro ele está sendo mais “fiel” à realidade do que um que mostra alienígenas, robôs ou zumbis?

Se me perguntassem por um bom filme sobre o 11 de setembro do ponto de vista dos norte-americanos, recomendaria Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, ao invés da escolha óbvia do World Trade Center, de Oliver Stone. Em primeiro lugar, por critérios estéticos. Em segundo, porém, porque é de minha crença que às vezes a representação mais imediata da realidade parece vazia, enquanto aquela que se vale de metáforas ganha muito em sutileza. Mais exemplos? Que tal O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, como discussão sobre a Guerra Civil? Brazil, de Terry Gilliam, sobre totalitarismo? A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero, acerca da Guerra Fria?

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O que é o cinema para nós crianças

Por Fábio Elnecave Xavier, 11 anos, aluno da 6ª série do Colégio Monteiro Lobato, em Porto Alegre

Cinema. Aquele avanço tecnológico que te permite ver algum filme, normalmente recém lançado, em uma tela estupidamente grande, com um projetor e caixas de som. Avanço, desde o cinema mudo, preto e branco, às cores, o som, e até a projeção em 3D, primeiro com os óculos com uma lente azul e outra vermelha (que eu nunca entendi como é que funcionava) e agora sem eles (que eu também continuo sem entender como funciona). Mas o cinema também é um avanço desde o primeiro filme que tu assistes, até o dia em que te largam na porta do shopping (ou raramente aeroporto e cinema ao ar livre) com um bando de amigos e pedem pra ligar de volta quando o filme tiver terminado.

O primeiro filme ninguém esquece: um filme da Pixar, um especial do Discovery Kids, etc. Primeiro tu ficas naquele clima de querer muito ver o tal “filme gigante”, mas também com um pressentimento de “acho que alguma coisa não vai funcionar direito” ou um “estou com medo dos vilões do filme”. Quando o filme termina, tudo corre bem, e tu começas a perguntar quando que tu e teus pais vão ir de novo (com exceção daqueles azarados que tiveram que sair no meio de seu primeiro filme porque faltou luz, ou algo do tipo). Daí tu começas a te acostumar com os filmes, vais com mais freqüência, convidas os amigos, até o dia em que tu vais sem os pais, só com uma galera…

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A ingrata missão de escolher um filme pelo cartaz

Por Eduardo Menezes

Eu não sei nada sobre cinema. Mas não se irrite comigo, vou provar que posso ser útil.

Mesmo pertencendo a uma casta diferente, tenho consciência da importância de um espaço especializado como este, e não faria dele palco para bradar aos quatro cantos o meu desconforto com a sétima arte. Principalmente porque esse desconforto não existe.

Sou um simples ignorante no tema, do tipo que não consegue viver a cultura cinematográfica como um todo por ser terrivelmente ruim com fisionomias e nomes. Gosto e vou ao cinema com freqüência, mas dificilmente saberia elencar os diretores e roteiristas dos filmes que assisto. No máximo, posso dizer como antipatizo com o Nicolas Cage – aquela implicância gratuita que só quem não tem nada a perder pode divulgar, sem preocupações maiores com argumentação.

Assim sendo, toda a responsabilidade na hora da escolha de um filme recai sobre fatores tidos como secundários por muitos, mas que são meus cães guia na cegueira que sinto numa fila de cinema, antes mesmo das luzes apagarem. E o meu melhor amigo nesta hora é o cartaz.

Entendo que muitos os colecionem e tenham como peças de estimação, mas para mim é apenas uma ferramenta. Logo, encaro ela com seriedade, e cobro que ela represente de fato o que estou prestes a assistir. E os senhores que me desculpem, mas nessa arte eu que sou especialista.

Alguns filmes têm cartazes tão inadequados que sequer deveriam ser assistidos. Xeque-Mate (2006), por exemplo, tem um cartaz que tenta simplificar um roteiro cheio de suspense e viravoltas em um filme de tiroteio “à la” Bruce Willis. Tanto que é o próprio que aparece empunhando duas armas no centro do banner, sendo que nem protagonista é. Nesse assalto ao bom senso, quem perde mais é Josh Hartnett, colocado em segundo plano.

Entendo a razão mercadológica, e que um filme com armas e Bruce Willis tem mais apelo, mas a história simplesmente não é esta.

Outro exemplo estranho é de Meu Nome Não é Johnny (2008). Quando fui assistir, desconfiei muito do gosto de minha namorada, já ensaiando aquela reclamação ciumenta pra cima do Selton Mello. O rapaz aparecia como um gangster, abaixando os óculos escuros, cheirando a enredo policial setentista. Contudo, o filme é muito mais que isso. Nada perto do que o cartaz desvenda.

Talvez tenha funcionado de forma inversa a peça publicitária, já que ela baixou tanto minha expectativa na película que o que veio foi muito bem-vindo.

Portanto, se pintar aquela dúvida na fila do cinema, consultem um incauto que entende de cartazes. Será uma honra ajudar.

Aos mestres, com carinho

por Igor Salomão Teixeira
Mestre em História e professor da UFRGS

15 de outubro é dia do professor! Escrevo para homenagear meus professores (ex e atuais), minha mãe, professora da antiga “quarta série”, e minha irmã, que também é professora de história. Faço isso, por reconhecer as dificuldades de ser professor no Brasil. Quando pensei neste artigo, pensei na minha crença quase utópica de que é na sala de aula que uma sociedade pode iniciar um processo de mudança: falamos de inclusão, cotas nas Universidades, bolsa-escola, Prouni. Mas, e o professor? O professor é o motor da mudança: sua sensibilidade, formação e dedicação que iniciam as transformações.

Filmes como Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Mudança de Hábito (1992 e 1993), Mr. Holland, Adorável Professor (1995), O Sorriso de Monalisa (2003) e Escritores da Liberdade (2007) não se diferenciam em suas temáticas: um novato entra para uma escola “problemática” (leia-se periferia, na lógica dos filmes) e/ou para lecionar em cursos sem prestígio. Assim, a Irmã Mary Clarence (ou Deloris), vivida por Woopi Goldberg em Mudança de Hábito, ou o Mr. Holland, professores de canto e música, respectivamente, não são muito diferentes um do outro. De odiados a heróis, de desrespeitados a autoridades.

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