Blog do jornal CineSemana

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Em Avatar, o meio é a mensagem

Por Samir Machado de Machado

Do muito do que se tem falado sobre Avatar – o orçamento estratosférico e a bilheteria idem, o roteiro funcional e a reação indignada da direita americana com o tom ecológico-pacifista do filme, e tudo o que ele promete –, um aspecto pouco observado é que, em sua promessa de reinventar a experiência de ir ao cinema, o longa tem levado às salas um público que não havia ainda experimentado o cinema 3D. Público este que, talvez, estivesse reticente com a oferta até então dominante de filmes de animação infantil e produções B.

Mais do que isso, tem trazido o público em geral de volta aos cinemas, em época que muitos abdicam da experiência coletiva da sala escura e da imersão da tela grande. Com tudo o que Avatar promete, baixar o filme para velo num laptop perde o sentido. É a forma que Hollywood encontra para combater a pirataria: fazer filmes que justifiquem o preço do ingresso e lembrem o público do que significa ir ao cinema.

E tanto melhor que Avatar é o primeiro filme em que a experiência do 3D está intrinsecamente ligada a sua história. Curiosamente, muito pouco se tem da impressão de ter “coisas vindo na sua cara”, pelo contrário, é o espectador que é deixado sempre a ponto de entrar no filme, quase como se pudesse afastar arbustos ou névoas e explorar a selva de Pandora.

Essa cautela em quebrar a quarta parede faz com que a experiência de assistir Avatar em 3D torne-se análoga à sua história: o deslumbramento pela sensação táctil provocado pelo filme em boa parcela do público (que em grande parte descobre o 3D com Avatar) corre em paralelo com o deslumbramento do protagonista Jake Sully em explorar o mundo de Pandora e recuperar os movimentos de sua perna – a cena em que Jake, já no corpo de seu avatar, corre por uma plantação e sente a areia em seus pés é símbolo disso.

Todo o filme está estruturado sobre o conceito de conexão e sensação: o soldado paraplégico que volta a andar em um corpo alienígena, a conexão direta dos Na’vi com animais e plantas, os soldados e sua conexão com armaduras robóticas, mas também, no momento que é preciso que se coloque óculos especiais para assistir ao filme, entre o espectador e a tela.

Não deixa de ser curioso que a forma encontrada por James Cameron para contar sua história – que versa, basicamente, sobre nossa falta de conexão com a natureza e um certo horror à desumanização provocada pela tecnologia – seja, justamente, usando a mais avançada tecnologia do momento.

Breve incurso pela história recente do humor britânico

Por Hilton Lima

Antes de encenar Borat Sagdjev nos cinemas do mundo inteiro, o comediante inglês Sacha Baron Cohen já havia atingido o sucesso com o repórter cazaque na sua terra natal, a Inglaterra. Inicialmente, Borat aparecia em quadros que duravam cerca de cinco minutos, dentro do Ali G Show, programa ancorado por outro personagem de Baron Cohen, o rapper canastrão Ali G.

Nos segmentos, o hilariante repórter apresentava aspectos da vida britânica aos espectadores, que iam desde competições esportivas até jantares finos, passando por protestos contra a caça à raposa. Nas entrevistas que Borat realizava com os mais variados tipos de cidadãos ingleses, era comum a pronúncia de uma frase, sempre que o personagem de Cohen fingia não compreender o que o entrevistado falava: “Isso é humor inglês?” O entrevistado, geralmente intrigado ou constrangido pela atitude do estranho repórter, esforçava-se para explicar a Borat algo que, para um britânico, era extremamente corriqueiro.

Baron Cohen mostrava para a audiência um velho senso-comum na Inglaterra: a ideia de que o humor britânico é enigmático e quase indecifrável para o público estrangeiro. Como consequência, não pode ser engraçado para alguém que não tenha nascido na terra da Rainha.

No entanto, definir o que é humor britânico é uma tarefa complicada e subjetiva. Em geral, a expressão é utilizada quase sempre com uma conotação negativa, para definir piadas de comediantes oriundos da Grã-Bretanha que soam demasiadamente estranhas para os ouvidos de um estrangeiro. Em outras palavras, quando um inglês conta uma piada e ninguém ri, perdoa-se uma eventual inépcia do humorista com a desculpa de que a sua piada constitui um exemplo de “humor britânico”. Continue lendo »

Meu futebol não passa no cinema

Por Douglas Ceconello
Criador e editor do Impedimento

Esporte que atrai multidões e movimenta fortunas, o futebol não costuma gerar grande comoção quando representado no cinema. Até hoje não tivemos um grande sucesso de público e crítica em que a trama girasse em torno do que acontece dentro das quatro linhas de um campo de jogo. Mais do que isto, ninguém parece muito interessado no assunto, sejam as produtoras, diretores e roteiristas, seja o público. É bem provável que este desdém pelos filmes sobre futebol esteja ligado a experiências traumatizantes vividas nos confins de salas escuras ou, sendo otimista, a expectativas frustradas, já que a queixa é antiga.

É difícil ao extremo lembrar de um filme arrebatador sobre o assunto preferido de dez entre dez brasileiros. Penso em outros esportes e logo me ocorre Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday) , onde Oliver Stone retrata com maestria o universo do futebol americano. Não com a mesma qualidade, mas aos borbotões, me ocorrem dezenas de obras que abordam outras modalidades do desporto mundial, como baseball, automobilismo, basquete e até sinuca.

Cena do filme Milagre de Berna

Cena do filme Milagre de Berna

Um dos grandes problemas dos filmes que se propõem a abordar o futebol é que não voltam a devida atenção à relação individual que cada um tem com as diversas facetas dessa febre monumental que atrai milhões de pessoas aos estádios. Muito mais do que entretenimento, o futebol interfere diretamente na vida de seus aficionados, com freqüência sendo tão ou mais importante que política, cultura e religião. Abordá-lo de forma superficial, aquiescendo ao chavão de que se trata apenas do “ópio das massas”, é implorar para cair no esquecimento. Esse foi o pecado inclusive de filmes que tinham potencial para superar tão importante barreira, como Milagre de Berna (Das Wunder von Bern) e Gol! (Goal). Continue lendo »

O que há de errado com os trailers?

Um dos tantos diferenciais das salas de exibição em relação ao aluguel de DVD e, mais recentemente, do download de filmes na internet, são os trailers de filmes inéditos. Sua função principal é a de informar o público sobre os novos lançamentos que virão, os títulos programados para os meses seguintes. Alguns outros fatores fazem com que ele seja mesmo parte fundamental das projeções: primeiro, ele estabelece uma atmosfera de expectativa e excitação na espera pelo início do programa principal, um “clima de cinema” que extrapola em muito os aspectos físicos objetivos da tela grande com boa imagem, som cristalino em alto volume e sala escura; em segundo lugar, os trailers auxiliam nas nossas próximas escolhas cinematográficas, nos permitem vislumbrar possibilidades futuras e prolongar a expectativa para além daquela sessão.

Ultimamente, porém, os trailers se transformaram em um verdadeiro desserviço ao espectador, além de uma tremenda chatice. No afã de conquistá-lo a qualquer custo e mirando unicamente na decisão de escolha do próximo filme, eles não se furtam a distorcer por completo o enredo, a temática e até o estilo de uma obra. Quem os produz também parece pouco ligar se, em outros casos, contam toda a sua história, revelam seus desfechos, estragam suas surpresas ou, no caso específico das comédias, jogam na cara do espectador, em um compacto de dois minutos exibido meses antes do lançamento da produção, todas as piadas e tiradas engraçadas de uma só vez, fazendo com que a experiência, depois, ganhe ares de déjà vu.

O exemplo mais recente desta prática se deu no último final de semana, quando fui ver Fatal, de Isabel Coixet. Fui ao cinema dividido entre duas expectativas antagônicas: uma boa, gerada pelo conhecimento prévio do trabalho da diretora e também da história de O Animal Agonizante, de Philip Roth, no qual o filme é baseado; e outra ruim, derivada do trailer que vira dias antes e que mostrava um thriller ancorado em clichês cinematográficos, sustentados pela linha ciúme, obsessão, traição, perseguição e a sugestão do desfecho de sempre. Para minha sorte, o trailer se mostrou completamente enganador, e o filme não caminhou pela via descrita por ele.

Surpreendentemente, pesquisando na internet, encontrei uma versão completamente diferente do trailer do mesmo filme. Ao invés do ar de suspense e da música marcando os pontos de tensão, o que é focalizado são os pensamentos de um homem atormentado pela paixão na velhice, acompanhado por uma trilha musical latina que representa a mulher que é o objeto dessa paixão, algo mais condizente com o título original (Elegy, em português elegia, poema ou canção de lamento). Infelizmente, não foi este segundo o trailer escolhido pelo estúdio e pela distribuidora para ser exibido nos cinemas.

A própria escolha do título brasileiro, Fatal, ajuda a revelar um sórdido mecanismo de enquadramento de todo filme em algum dentre a meia-dúzia de gêneros pré-estabelecidos, mesmo que esta colocação seja feita de maneira constrangida, a marretadas e com a ajuda de um pé-de-cabra. Tal imposição forçada de estereótipos acaba por estabelecer um modelo de expectativas anterior ao espetáculo em si. E isto só pode ser muito ruim, à medida que define o modo como o espectador vai perceber qualquer conteúdo específico, e acaba funcionando como uma espécie de lente distorsiva ou como o uso constante de óculo fumê, que não permitem que as coisas sejam vistas em seu formato e em suas cores verdadeiras.

O cinema, a representação, o real

Por Antônio Xerxenesky
Romancista, autor de Areia nos Dentes (2008, Não Editora)

José Padilha, o talentoso cineasta por trás de Tropa de Elite e Ônibus 174, esteve em Porto Alegre no mês de maio para uma conferência no Fronteiras do Pensamento. Antes de iniciar sua fala, decidiu fazer uma distinção entre “tipos de filme”. Para Padilha, qualidade à parte, havia uma divisão entre filmes preocupados em representar a realidade, como o seu Tropa de Elite, e outros que não tinham essa pretensão, como Alien e Star Wars. Talvez a sua categorização fosse mais complexa; se é o caso, perdeu-se na coloquialidade. O que interessa aqui é que muitos parecem compartilhar dessa visão e eu, pelo contrário, discordo bastante.

O que está em jogo não é mera rotulação, mas sim a questão da mímese, da representação. O tema foi assunto de muitos escritos, desde o clássico Ars Poetica de Aristóteles até o Mimesis, de Erich Auerbach. Será que por um filme mostrar as imagens de traficantes trocando tiros em uma favela no Rio de Janeiro ele está sendo mais “fiel” à realidade do que um que mostra alienígenas, robôs ou zumbis?

Se me perguntassem por um bom filme sobre o 11 de setembro do ponto de vista dos norte-americanos, recomendaria Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, ao invés da escolha óbvia do World Trade Center, de Oliver Stone. Em primeiro lugar, por critérios estéticos. Em segundo, porém, porque é de minha crença que às vezes a representação mais imediata da realidade parece vazia, enquanto aquela que se vale de metáforas ganha muito em sutileza. Mais exemplos? Que tal O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, como discussão sobre a Guerra Civil? Brazil, de Terry Gilliam, sobre totalitarismo? A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero, acerca da Guerra Fria?

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O que é o cinema para nós crianças

Por Fábio Elnecave Xavier, 11 anos, aluno da 6ª série do Colégio Monteiro Lobato, em Porto Alegre

Cinema. Aquele avanço tecnológico que te permite ver algum filme, normalmente recém lançado, em uma tela estupidamente grande, com um projetor e caixas de som. Avanço, desde o cinema mudo, preto e branco, às cores, o som, e até a projeção em 3D, primeiro com os óculos com uma lente azul e outra vermelha (que eu nunca entendi como é que funcionava) e agora sem eles (que eu também continuo sem entender como funciona). Mas o cinema também é um avanço desde o primeiro filme que tu assistes, até o dia em que te largam na porta do shopping (ou raramente aeroporto e cinema ao ar livre) com um bando de amigos e pedem pra ligar de volta quando o filme tiver terminado.

O primeiro filme ninguém esquece: um filme da Pixar, um especial do Discovery Kids, etc. Primeiro tu ficas naquele clima de querer muito ver o tal “filme gigante”, mas também com um pressentimento de “acho que alguma coisa não vai funcionar direito” ou um “estou com medo dos vilões do filme”. Quando o filme termina, tudo corre bem, e tu começas a perguntar quando que tu e teus pais vão ir de novo (com exceção daqueles azarados que tiveram que sair no meio de seu primeiro filme porque faltou luz, ou algo do tipo). Daí tu começas a te acostumar com os filmes, vais com mais freqüência, convidas os amigos, até o dia em que tu vais sem os pais, só com uma galera…

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A ingrata missão de escolher um filme pelo cartaz

Por Eduardo Menezes

Eu não sei nada sobre cinema. Mas não se irrite comigo, vou provar que posso ser útil.

Mesmo pertencendo a uma casta diferente, tenho consciência da importância de um espaço especializado como este, e não faria dele palco para bradar aos quatro cantos o meu desconforto com a sétima arte. Principalmente porque esse desconforto não existe.

Sou um simples ignorante no tema, do tipo que não consegue viver a cultura cinematográfica como um todo por ser terrivelmente ruim com fisionomias e nomes. Gosto e vou ao cinema com freqüência, mas dificilmente saberia elencar os diretores e roteiristas dos filmes que assisto. No máximo, posso dizer como antipatizo com o Nicolas Cage – aquela implicância gratuita que só quem não tem nada a perder pode divulgar, sem preocupações maiores com argumentação.

Assim sendo, toda a responsabilidade na hora da escolha de um filme recai sobre fatores tidos como secundários por muitos, mas que são meus cães guia na cegueira que sinto numa fila de cinema, antes mesmo das luzes apagarem. E o meu melhor amigo nesta hora é o cartaz.

Entendo que muitos os colecionem e tenham como peças de estimação, mas para mim é apenas uma ferramenta. Logo, encaro ela com seriedade, e cobro que ela represente de fato o que estou prestes a assistir. E os senhores que me desculpem, mas nessa arte eu que sou especialista.

Alguns filmes têm cartazes tão inadequados que sequer deveriam ser assistidos. Xeque-Mate (2006), por exemplo, tem um cartaz que tenta simplificar um roteiro cheio de suspense e viravoltas em um filme de tiroteio “à la” Bruce Willis. Tanto que é o próprio que aparece empunhando duas armas no centro do banner, sendo que nem protagonista é. Nesse assalto ao bom senso, quem perde mais é Josh Hartnett, colocado em segundo plano.

Entendo a razão mercadológica, e que um filme com armas e Bruce Willis tem mais apelo, mas a história simplesmente não é esta.

Outro exemplo estranho é de Meu Nome Não é Johnny (2008). Quando fui assistir, desconfiei muito do gosto de minha namorada, já ensaiando aquela reclamação ciumenta pra cima do Selton Mello. O rapaz aparecia como um gangster, abaixando os óculos escuros, cheirando a enredo policial setentista. Contudo, o filme é muito mais que isso. Nada perto do que o cartaz desvenda.

Talvez tenha funcionado de forma inversa a peça publicitária, já que ela baixou tanto minha expectativa na película que o que veio foi muito bem-vindo.

Portanto, se pintar aquela dúvida na fila do cinema, consultem um incauto que entende de cartazes. Será uma honra ajudar.

Aos mestres, com carinho

por Igor Salomão Teixeira
Mestre em História e professor da UFRGS

15 de outubro é dia do professor! Escrevo para homenagear meus professores (ex e atuais), minha mãe, professora da antiga “quarta série”, e minha irmã, que também é professora de história. Faço isso, por reconhecer as dificuldades de ser professor no Brasil. Quando pensei neste artigo, pensei na minha crença quase utópica de que é na sala de aula que uma sociedade pode iniciar um processo de mudança: falamos de inclusão, cotas nas Universidades, bolsa-escola, Prouni. Mas, e o professor? O professor é o motor da mudança: sua sensibilidade, formação e dedicação que iniciam as transformações.

Filmes como Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Mudança de Hábito (1992 e 1993), Mr. Holland, Adorável Professor (1995), O Sorriso de Monalisa (2003) e Escritores da Liberdade (2007) não se diferenciam em suas temáticas: um novato entra para uma escola “problemática” (leia-se periferia, na lógica dos filmes) e/ou para lecionar em cursos sem prestígio. Assim, a Irmã Mary Clarence (ou Deloris), vivida por Woopi Goldberg em Mudança de Hábito, ou o Mr. Holland, professores de canto e música, respectivamente, não são muito diferentes um do outro. De odiados a heróis, de desrespeitados a autoridades.

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Mesmo que seja preciso depenar um dinossauro

Hilton Lima, publicitário e editor do blog DROPOUT

É inegável o dom que o cinema tem para transformar o desconhecido em popular. Se um assunto é demasiadamente específico ou incomum, o cinema consegue introduzi-lo na cabeça do espectador em questão de minutos. Em breve, o que antes era do conhecimento de poucos, passa a ser dominado superficialmente por todos. Os assuntos vão desde o último genocídio africano ignorado pela imprensa internacional, até o nome e a aparência de uma determinada espécie de dinossauro. Você sabia que, na realidade, o temido Velociraptor do filme Jurassic Park era do tamanho de um cachorro e tinha o corpo revestido por penas? Não, pois no filme, ele foi retratado como um aterrorizante lagarto do tamanho de um carro, e não como um galinhão com dentes.

Velociraptors
Embora diferentes, as duas versões do Velociraptor são muito feias

Porém, em época de Olimpíadas, é inevitável a lembrança dos esportes que foram introduzidos ao público brasileiro quase que exclusivamente por intermédio do cinema. O esporte sempre foi um prato cheio para roteiristas e diretores, por apresentar o tradicional conflito entre heróis e vilões de uma forma que somente a guerra é capaz de reproduzir. Como quase toda a produção cinematográfica que chega aos cinemas brasileiros é americana, os esportes de escolha para o cinema são, obviamente, aqueles populares nos EUA, como o beisebol e o futebol americano.

O mais curioso é que o cinema foi o principal responsável pelo fato de tais esportes não necessitarem de maiores explicações para o público em geral, hoje em dia. Quase ninguém entende as regras, mas existe um domínio superficial. O mesmo domínio superficial que faz alguém com nenhum interesse em Arqueologia compreender o que a insólita palavra Velociraptor significa. No caso dos esportes americanos infestados de intervalos, as transmissões de jogos são um fenômeno recente, e praticamente restrito à TV a cabo. A verdadeira “popularização” se deu através dos filmes.

Porém, os filmes não são a única forma de divulgar esportes excêntricos para o público em geral. Nesse aspecto, perdem em eficácia para as Olimpíadas. Na próxima semana, as mais variadas e enfadonhas modalidades esportivas voltarão a habitar a mente do cidadão comum. Ocuparão as grades de programação das emissoras de televisão, que apresentarão ao espectador termos como Wazari, Sukahara e Badminton, ou, até mesmo, tentarão contextualizar por que alguém pratica Marcha Olímpica. Terminadas as Olímpiadas, o espectador irá se sentir culturalmente mais rico, pois terá adquirido um conhecimento superficial sobre uma série de esportes que irão hibernar em seu cérebro pelos próximos quatro anos, para serem acordados novamente apenas em 2012.

RugbyTriste do esporte que não tem os filmes nem as Olímpiadas para divulgá-lo. É o caso do rugby, um esporte que mais parece um intermédio entre a versão tradicional e a americana do futebol. Possui objetivo e bola similares ao futebol americano, mas herdou do futebol normal a ausência de proteções, de capacetes e de paralisações a cada dois segundos. Sua total obscuridade no Brasil poderá acabar em breve, já que Clint Eastwood irá dirigir um filme narrando o importante papel que este esporte desempenhou na reconstrução da África do Sul após o Apartheid, com data de lançamento prevista para meados de 2009. Fosse outro esporte, pouco seria o alarde entre seus praticantes e apreciadores. Mas quando se aprecia algo tão desconhecido como o rugby, festeja-se o singelo fato da população geral compreender o significado da palavra “rugby” e possuir um conhecimento superficial sobre o esporte que tal palavra representa. E isso, o cinema sabe fazer como ninguém: popularizar o desconhecido da forma mais simples possível. Nem que para isso seja preciso depenar um dinossauro.

Aparecer menos é aparecer mais

Por Gustavo Mini

Não sei se você tem notado, mas ultimamente a publicidade tem ido com mais freqüência ao cinema. A revista Vanity Fair contou quase 70 produtos e marcas citados ou utilizados em Sex and The City: O Filme. Um dos blockbusters de 2007, Transformers, foi considerado por muitos especialistas como um novo modelo na mistura de conteúdo e publicidade, uma vez que os mocinhos do filme eram carros da GM. E em Viagem a Darjeeling, os protagonistas do filme de Wes Anderson passam a tal da viagem inteira carregando suas exclusivas malas Louis Vuitton.

Mas isso não acontecia antes? Por que estamos vendo ocorrer com mais intensidade? O que mudou nos últimos anos? Mudou que o consumidor está ficando mais esperto. O barateamento e a popularização da tecnologia nos últimos dez anos colocaram os meios digitais de produção (computadores pessoais e celulares) e distribuição (internet) nas mãos de quase todo mundo. E, de repente, o seu computador e o seu celular viraram uma central que produz e veicula filmes, música e foto. A sua vida ficou mais fácil. E a dos marqueteiros, muito mais complicada.

Estamos assistindo ao fim do domínio da publicidade interruptiva. Em outras palavras, a publicidade que fica entre dois segmentos de programa de TV ou entre duas matérias de revista está sendo lentamente substituída por outras ferramentas mais integradas a toda uma nova cultura de consumo de entretenimento e informação.

Uma dessas ferramentas é o product placement (no Brasil também chamado de merchandising), onde uma marca aparece misturada ao roteiro de um filme. Não se trata de um subterfúgio novo. Desde os pioneiros franceses Irmãos Lumière (que no século XIX já colocavam em suas histórias o sabonete da empresa de um associado) uma ligação controversa une Hollywood a indústrias de peso. Por meio de contratos milionários, muitas marcas foram parar dentro de roteiros na esperança de encontrar uma forma menos interruptiva de chegar ao consumidor.

Mas foi uma espetacular manobra da BMW em 2001 que virou o jogo e redefiniu os limites entre conteúdo e publicidade em um formato que até hoje é copiado. Através de um projeto desenvolvido pela agência americana Fallon Worldwide, a campanha tradicional da BMW se tornou The Hire, uma série de oito curtas-metragens dirigidos por diretores de peso como John Woo, John Frankenheimer e Ang Lee.

The Hire foi um marco na história da mistura entre publicidade e conteúdo por estabelecer um novo patamar de qualidade e uma nova equação. Os filmes foram veiculados inicialmente na internet para depois ganharem edições em DVD e até mesmo uma série em quadrinhos. Só na internet, os filmes foram vistos mais de 100 milhões de vezes nos primeiro quatro anos e ainda hoje são assistidos em sites como YouTube ou baixados em programas de compartilhamento.

Para conquistar consumidores de forma mais perene, a série da BMW nos ensinou uma valiosa lição: diferente do que vínhamos praticando até então, chegou a era em que aparecer menos (e direito) é aparecer mais.

Gustavo Mini é Coordenador de Conexões na agência Escala e editor do blog Conector

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