Afinal, que vacas são essas?
- Publicado sexta-feira, 22.10.2010 por Gustavo Faraon
- Arte
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Ilustração: Renan Cintra
Outubro tem sido o mês da vaca em Porto Alegre. Há cerca de duas semanas, 81 delas estão espalhadas pelas ruas e demais locais públicos da cidade como shoppings, parques e paradas de ônibus. Feitas de fibra de vidro e decoradas por gente local (artistas ou simplesmente pessoas interessadas em participar), as vaquinhas multicoloridas têm chamado a atenção dos transeuntes, que olham, tiram fotos e comentam a respeito, embora não tenham muita certeza do que se trata tudo aquilo. Decoração? Arte? Publicidade? Afinal de contas, o que é a CowParade?
De acordo com o site oficial, a CowParade é “o maior e mais bem sucedido evento de arte pública no mundo”. Desde 1999, conforme informa a página, já esteve em mais de 55 cidades ao redor do planeta, de Nova York a Tóquio, passando por Cidade do México, Londres e Istambul. Foram mais de 5 mil artistas que participaram pintando e decorando as peças em formato animal e cerca de 150 milhões de pessoas que estiveram em contato com os bichos de fibra por aí.
Na prática, o resultado que se vê nas ruas é um pouco menos “artístico” do que o discurso apresenta, e quem toma ao pé da letra o termo “arte pública” pode acabar entendendo tudo errado. Por vários motivos. O principal deles é a própria natureza do evento. Sendo a CowParade não um coletivo artístico, mas uma marca registrada (CowParade Holdings Corporation), possui um caráter bem comportado e muito pouco provocativo. O objetivo das vacas, portanto, não é causar qualquer tipo de ruptura – algo que se costuma esperar da arte em geral – mas talvez decorar a cidade de uma forma diferente por um tempo e levantar dinheiro para entidades beneficentes através do leilão das peças que ocorre ao final do evento.
Outro aspecto que chama atenção é a grande quantidade de vacas que não passam de peças publicitárias (da marca patrocinadora, mas também de muitas outras), além de um sem-fim de vacas institucionais representando ou homenageando entidades variadas, o que não só depõem contra o conjunto geral da mostra, como contra o próprio caráter artístico do evento inteiro. Por fim, há ainda uma enxurrada de vacas-trocadilho, tais como os pouco inspirados espécimes Cowdrinhos e Cow-Lice in the Wonderland, que apostam na piada fácil e respondem por quase metade do total de obras.
De acordo com a jornalista especializada em crítica de arte Julia Dantas, não se deve confundir iniciativas como a CowParade com a intervenção ou arte urbana, modalidade provocativa muito em voga graças a artistas hoje célebres como o britânico Banksy. “Aqui, se trata de um evento bem dentro dos limites e sem espaço para a imprevisibilidade, há até um mapa da localização das vacas divulgado previamente”, comenta a crítica de arte.
Além disso, é vedada qualquer possibilidade de interação criativa com as peças. Assim, quando há alteração em qualquer uma da vacas, em questão de horas ela é resgatada por uma equipe e restaurada até voltar ao seu estado original. “Quando, na CowParade de Estocolmo, na Suécia, um grupo sequestrou uma vaca e divulgou um vídeo dizendo que a decapitaria caso as vacas-propaganda não fossem retiradas da rua, o grupo foi acusado de vandalismo, mas a atitude deles me parece infinitamente mais artística que uma vaca tomando Coca-cola”, exemplifica Julia. O que a CowParade propõe, portanto, não é tirar a arte do museu, mas de certa forma levar o museu para as esquinas, seguindo a mesma lógica de intocabilidade, de preservação e de sagrabilidade do artista. “Se coubesse a mim classificá-la com algum rótulo, eu diria que está muito mais para um happening: se anuncia o evento, se cria uma expectativa, se determina um tempo de duração e depois tudo termina sem deixar marcas”.
Texto publicado originalmente na edição 154 do CineSemana.









