Gramado 2010: Avellar defende as mostras paralelas e os filmes fora de competição
- Publicado sexta-feira, 06.08.2010 por Gustavo Faraon
- Entrevista, Premiação
Exclusivamente para os leitores do blog, disponibilizamos na íntegra a entrevista com o crítico José Carlos Avellar, um dos curadores do Festival de Gramado, publicada no jornal CineSemana e que estará também nas páginas do Diário do Festival, publicação oficial do evento.
O papo foi longo, mas valeu. Além do aumento do número de dias do evento, Avellar também falou sobre a escassez de salas em Gramado, sobre o grande momento por que passa o cinema documental e, sobretudo, defendeu as mostras paralelas e os filmes fora de competição como elementos essenciais para o crescimento do festival.
Quais as principais as novidades do festival deste ano em relação ao ano passado que merecem destaque?
O que a gente está apresentando esse ano como uma coisa que não existia ano passado é a criação de um prêmio para os filmes exibidos na mostra panorâmica que nós fazemos na parte da tarde. Esses filmes vão receber um prêmio dado por um júri de estudantes de cinema. É um deslocamento para uma sessão do festival que reúne filmes que, do nosso ponto de vista, são tão significativos quanto os que estão na competição, mas que não estavam conseguindo uma visibilidade maior porque as pessoas costumam ver um festival como uma espécie de campeonato de filmes. Então, o que parece ter importância são apenas as competições dos filmes de longas-metragens brasileiros e latino-americanos e a competição de curtas-metragens. Mas temos também num conjunto de filmes que estão exibidos na mostra panorâmica à tarde uma representação bastante significativa. Esse ano, com mais dois dias de exibição do festival, melhora ainda a possibilidade de que a gente tenha um conjunto de filmes que devam ser destacados.
Desde que você e o Sérgio Sanz entraram na curadoria, têm se preocupado em aumentar as mostras paralelas…
Claro, um festival não deve ser feito apenas para privilegiar o filme que sai vencedor da competição. Esse filme recebe um destaque, mas é preciso que todos os filmes que estejam dentro do programa recebam também um destaque, uma apresentação, alguma coisa que possa chamar a atenção para eles, porque o que acontece num festival é que os filmes interagem. Um deles estimula, explica, discute com o outro. Então é preciso chamar a atenção para isso. Por exemplo, esse ano, o festival como um todo conseguiu uma composição bastante estimulante na mostra competitiva de filmes brasileiros, porque nós temos quatro diretores que estão apresentando seus primeiros filmes de longa-metragem e quatro diretores que já fizeram mais de um filme. Eu acho que essa reunião, essa possibilidade de você entrar em contato com um diretor que você ainda não viu trabalhos anteriores dele em longa-metragem, e esses filmes estarem misturados a quatro outros filmes de diretores já conhecidos dá um equilíbrio estimulante. Um filme acaba ajudando o outro, uma atitude, um processo de narração, um processo de produção acaba ajudando a compreender o outro, discutindo o outro.
No ano passado, quando ventilada a possibilidade de mais dias para o festival, você falou que não se aumenta festival com mais dias, mas com mais salas.
Evidente. Existe um projeto da cidade de construir um conjunto de salas ao lado do cinema já existente, de modo que você possa ter uma programação mais intensa. Não é o nosso papel, mas em reuniões, quando nós estamos com a decisão dos títulos que vão ser selecionados, essa questão retorna porque nós temos poucas salas. Nós temos uma sala e alguns cinemas de complemento. Na verdade, um festival deveria oferecer ao lado dessa programação que nós oferecemos a possibilidade de que um produtor levasse os seus filmes e estabelecesse ali um mercado ou um show prévio, no sentido de que ele vai conseguir um distribuidor, ou no sentido de que ele está pré-apresentando um filme que ele quer lançar dali a um certo tempo, mesmo que esse filme não esteja dentro dos programas do festival. Por exemplo, nós procuramos selecionar para o festival um cinema autoral. Um cinema que tenha uma perspectiva de um realizador, de um autor, de um artista por trás de cada filme, tanto nos filmes latino-americanos, quanto nos filmes brasileiros. Mas existem produções de características as mais variadas, e é possível que o filme não-autoral possa ser apresentado num mercado, num espaço paralelo, numa mostra dentro do programa geral do festival, mesmo que seja para o público especializado. Digamos que eu tenha um filme que eu possa apresentar para uma plateia de 40, 30, 20 pessoas, que sejam distribuidores e exibidores, que sejam donos de sala de cinema no Rio Grande do Sul, nos estados vizinhos do sul, ou que venha um exibidor de qualquer outro ponto do Brasil para ver um filme que não está na programação oficial do festival. O festival passa a se beneficiar disso, o filme passa a se beneficiar disso, porque você vai ter a possibilidade de uma apresentação mais longa. Este ano, por exemplo, vai existir uma homenagem à Cinédia, que está completando 80 anos de sua fundação. Seria interessante que tivéssemos espaço para fazer uma seleção de vários filmes dela, mas estamos conseguindo exibir um filme só. Seria bom se a Cinédia pudesse estar no festival em encontros com eventuais distribuidores de DVD, até negociar o lançamento em DVD dos seus filmes. Essas coisas eu acho que complementariam o festival. Então, me parece que o aumento que se fez dos dias do festival não é uma coisa negativa. Eu acho que se chegou a uma medida bem razoável. Eu tenho a impressão que o festival estava desperdiçando um dos momentos que em geral é onde as pessoas correm para ver filme, que é o fim de semana. O festival agora tendo a sua abertura numa sexta-feira, você conta com o sábado e domingo incorporados à programação. Como ele terminava num sábado, e no sábado não existia projeções a rigor, porque ficava tudo preparado para a cerimônia da entrega dos prêmios, você perdia um fim de semana. E um fim de semana é um momento de grande movimentação de cinema em todas as cidades, e quando várias pessoas podem seguir para o festival e passar uma sexta, sábado e domingo.
Ao colocar um final de semana na programação e, principalmente, com relação aos títulos em competição, não se acaba inevitavelmente privilegiando alguns filmes de cada mostra?
Eu acho que não por uma razão: é muito difícil a gente saber o que vai efetivamente mobilizar o espectador para ver um filme. Estar no festival conta, mas o fato de ele ter conseguido estabelecer uma movimentação, uma agitação, uma imagem fora do festival ajuda muito. Com frequência, as pessoas têm a sensação de que passar na quinta e na sexta-feira, nos últimos dias do festival, é melhor do que passar no começo, porque acham que ao passar no começo lá pelo final as pessoas já esqueceram, e quando você está no final do festival aquela lembrança viva do filme que passou na véspera é uma ajuda para o filme. É muito difícil estabelecer o que é, o que não é. Seguramente, eu acho que, ao ter uma apresentação de filmes em um fim de semana e concluir o festival no outro, ganha-se uma possibilidade de lá no começo estimular o espectador a ver o resto. Você cria uma ambiência para o festival favorável. Isso é o que me chama atenção. Eu tenho a impressão de que os filmes que vão estar ali na sexta, no sábado e domingo não vão se beneficiar do fato de estarem no fim de semana, mas vão beneficiar o festival, porque no fim de semana, imagino, algumas pessoas podem vir das cidades vizinhas a Gramado, vir de Porto Alegre, passar o fim de semana e não ter condições de ficar lá durante todo o período do festival.
Os documentários continuam sendo a maioria dos filmes inscritos?
Continuam. Agora, a gente encontra em toda América Latina e em boa parte da Europa um crescimento considerável da produção filmes documentários. De documentários dirigidos a salas de cinema, não à televisão. Não é aquele documentário tipo reportagem que você pode ver na televisão e que tem um âncora que fica relatando um fato. Vários desses documentários que estão sendo produzidos agora não partem de um fato evidente, de uma notícia, não é como a gente fazer um documentário em cima de um acontecimento que chamou a atenção da mídia. O documentário levanta uma questão e avança com essa questão. Nós temos, neste ano, documentários latino-americanos e documentários brasileiros. E é uma impressão pessoal,uma sensação minha que o documentário está sendo muito praticado como um espaço de criação mais livre do que os modelos de ficção já conhecidos. Eu acho que a ficção está buscando outras formas de composição cinematográfica e que pra isso o documentário se mostra um exemplo importante, significativo, estimulante, que chama atenção para como se pode inventar novas fórmulas de ficção. E isso eu vejo na Argentina, no México, na Colômbia, no Peru, na Venezuela e no Paraguai, que estão produzindo muitos filmes documentários. Nós nem conseguimos todos os documentários que gostaríamos de reunir aqui em Gramado, porque são produções de pequeno investimento e que contam, no caso latino-americano, com muitas poucas cópias. E mesmo a gente tendo conseguido mais dois dias de exibição, continua sendo muito diminuto e a produção é muito ampla.
Não seria o caso de separar os documentários, não sei se iria valorizar ou desvalorizar, separar os documentários dos filmes de ficção?
Creio que não. Essa é uma questão que nós discutimos muito. Houve um momento em que chegamos a pensar na colocação de todos os documentários em uma competição separada dos filmes de ficção. Eu tenho a impressão de que hoje em dia com uma, digamos, redução de um comportamento claro, de um certo esfumaçamento da fronteira entre o documentário e ficção, você precisa colocar os dois juntos. Vários dos documentários que nós vamos apresentar têm inseridos dentro dele elementos de ficção e vice-versa. E tenho impressão de que a colocação de um ao lado do outro ajuda. Eu acho que há efetivamente um diálogo entre os dois gêneros. Eu acho que eles estão reciprocamente se estimulando. Um ajuda o outro. Eu acho que, no momento, a contribuição do documentário para a ficção é mais forte, mas isso não é duradouro. Chega um momento em que o inverso acontece, que a influência da ficção no documentário se torna mais forte.
A decisão de pagar aluguel para os filmes no ano passado segue nesta edição?
Vamos continuar, agora pagando um pouco mais. Eu acho que isso é o essencial do festival, o pagamento de aluguel dos filmes. Desde o princípio, tanto eu quanto o Sanz éramos a favor não de um prêmio em dinheiro para o melhor filme, mas uma verba suficientemente boa para distribuir entre todos os filmes que estão participando da competição, brasileiros e latino-americanos. E agora também para os filmes que estão fora de competição na mostra, na mostra panorâmica à tarde. Esses filmes recebem aluguel. Há uma diferença do aluguel que se paga ao filme que passa à noite e do filme que passa de tarde, mas todos eles vão receber um aluguel. Isso é um fato irreversível e que nós queremos ampliar.
Gostaria que você comentasse o Troféu Eduardo Abelim para a Ana Carolina Soares. Ele de certa maneira representa uma homenagem para todas as mulheres cineastas que vêm se destacando?
Eu acho que a Ana Carolina começou antes delas. Não é que tenha sido apenas ela a fazer filmes ou que tenha sido a primeira a fazer filmes, mas na história do cinema brasileiro foi uma diretora que impôs um estilo muito pessoal. E acho que há uma série de elementos dentro da programação deste ano que poderão ser lembrados melhor se nós destacarmos e lembrarmos da contribuição da Ana Carolina. Por exemplo, nada mais adequado que um festival que termina com um filme do Cao Guimarães, o Ex-Isto, que lembrar que o cinema da Ana Carolina, que jogo todo tempo entre imagens visuais e imagens verbais, nos títulos, nos diálogos. Ela joga muito com uma fala poética que não é necessariamente uma fala coloquial, e isso é uma marca muito presente no cinema da Ana Carolina. O último filme dela foi sobre um poeta, não esqueçamos, sobre Gregório de Mattos. Basta lembrar os títulos. Mar de Rosas. Sonho de Valsa. Das Tripas Coração. São todas imagens verbais muito fortes pertencentes ao dia-a-dia do brasileiro. Eu acho que, primeiro, pelo fato de que nós temos esse ano, tanto no lado brasileiro, quanto no lado latino-americano, a presença de realizadoras, lembrar a contribuição da Ana Carolina ao cinema é uma coisa importante para o festival. É uma coisa importante para que a gente possa apreciar uma pioneira dessa expressão altamente individualizada que hoje várias diretoras de cinema podem fazer. Na década de 1970, isso não era uma coisa evidente. Acho que o prêmio dela se justifica especialmente pela tenacidade na invenção de um estilo próprio feminino, mas cinematográfico. Não era só do ponto de vista feminista. Era principalmente por uma mulher se afirmando com um estilo próprio, individual, muito sensível, numa atividade dominantemente masculina.

