Entrevista: João Pedro Fleck, diretor do Fantaspoa
- Publicado segunda-feira, 05.07.2010 por Katiana Ribeiro
- Cinema, Entrevista

Em entrevista ao CineSemana, João Pedro Fleck, um dos realizadores do Fantaspoa ao lado do amigo Nicolas Tonsho, conta como surgiu a ideia de criar um festival voltado para cinema do gênero fantástico (ficção científica, fantasia e horror). Ele fala ainda sobre as dificuldades e conquistas que marcaram a consolidação do evento no cenário cultural do país
Como surgiu a ideia de criar o Fantaspoa?
Para ser exato, a ideia do Fantaspoa surgiu em março de 2005, quando dois amigos e eu, na época integrantes da diretoria do Clube de Cinema de Porto Alegre, estávamos em Montevidéu, assistindo ao Festival Internacional de Cinema. Durante o evento, conversamos sobre como seria interessante ter um festival em Porto Alegre. Devido a uma predileção nossa pelo gênero e pela ausência de muitas obras que gostaríamos de ver na tela grande, decidimos lançar a idéia. A proposta inicial do evento era bem diferente. Realizamos principalmente recuperação de clássicos que estavam disponíveis em película no Brasil e já com legendas em português. Hoje, aproximadamente 80% da nossa programação é inédita no Brasil e mais de 50% é inédita na América Latina.
Quais foram as inspirações para realizar um evento com filmes do gênero fantástico, com obras de fantasia, ficção científica e terror?
As inspirações principais foram festivais internacionais semelhantes, como Sitges, Amsterdam Fantastic Film Festival, Gerárdmer. Nós tínhamos o sentimento de que algo assim, com a mesma qualidade, deveria existir no Brasil. E acima de tudo: já que não existia e nós tínhamos condições de criá-lo, porque não fazer o evento ao invés de ficarmos reclamando de sua inexistência? E hoje, 6 anos depois aqui estamos.
Como tem sido a receptividade do público?
Ao longo desses anos a gente aumentou o público em aproximadamente 700%. O festival começou com aproximadamente 700 espectadores e ano passado foram mais de 5.000 espectadores. Pode parece um número pequeno, quando comparamos com as bilheterias de algum filme, por exemplo, mas dentro do universo em que ele se encontra – festivais de cinema na cidade de Porto Alegre – ele é o evento mais bem-sucedido e possui uma alta receptividade por parte do público. A cada ano que passa o festival ganha mais espaço na mídia e mais fãs. É um orgulho para nós lermos as pessoas que escrevem como já vão no festival há 4, 5 anos. Enquanto muitos eventos e empresas simplesmente deixam de existir em períodos semelhantes – 5 ou 6 anos – o Fantaspoa está na contramão. Ele possui um público consolidado, que vai para o festival assistir 4 filmes por dia. Outro fator importante para nós é o reconhecimento internacional. Se você digitar no google a palavra “Fantaspoa”, o resultado retorna 34.000 resultados. Isso é realmente bastante, principalmente ao levarmos em conta que o Fantaspoa não conta com nenhuma mídia paga.
Ao que se atribui o crescimento do Fantaspoa?
O crescimento é atribuído a uma série de fatores. Seria praticamente impossível definir somente um. Fatores decisivos dos últimos anos são os seguintes: (1) a disponibilidade da programação do Fantaspoa. Nos dois últimos anos, ao invés de imprimirmos folders ou flyers do festival, optamos por imprimir um jornal, que nos permite colocar a sinopse e ficha técnica de todos os longas-metragens do festival; (2) o site do festival, que está melhor a cada edição e assim como no ano passado conta com trailer de todos os filmes; (3) a presença de filmes relevantes, em sua maioria inéditos e legendados em português e (4) talvez o mais importante: a altíssima qualidade de trabalho da equipe envolvida no evento. A maioria das pessoas trabalham como voluntários e realizamos todo esse enorme festival com uma equipe de somente dez pessoas. O Fantaspoa é um festival feito por pessoas que verdadeiramente amam o cinema e isso se reflete na nossa programação e no cuidado que temos com todos os detalhes do festival. Nós pensamos no festival ideal que gostaríamos de assistir e damos o nosso máximo para poder trazê-lo ao público Porto-Alegrense.
No decorrer dos seis anos de realização do Fantaspoa quais foram as principais mudanças que marcaram o evento?
Cada ano nós viemos incorporando mudanças e acredito que agora, na sexta edição conseguimos finalmente realizar o evento que consideramos ideal. No segundo ano criamos a competição de curtas-metragens nacionais. No terceiro ano, ampliamos essa mostra de curtas e começamos a receber também curtas-metragens internacionais. No quarto ano iniciamos a Competição Internacional para longas metragens e criamos seções paralelas no festival (animação e documentários). No quinto ano buscamos aprimorar a seleção de filmes e criamos a retrospectiva da carreira de um diretor. Em 2009 este diretor foi David Blyth, agora em 2010 será o renomado diretor italiano Luigi Cozzi. O diferencial para 2010 é a presença de convidados no festival. Teremos 11 convidados internacionais, com sessões comentadas por estes, entre os dias 06 e 17 de julho, sempre às 21 horas. Como comentei anteriormente o nosso objetivo é criar um festival ideal, que seja relevante não somente em Porto Alegre, no Brasil, ou mesmo na América Latina. Nosso objetivo é criar um evento de relevância mundial e nossa parceria com diretores e distribuidores internacionais mostra que estamos no caminho certo.
Existe algum projeto de levar o Fantaspoa para outras cidades, torná-lo itinerante?
O festival gera muitos gastos e consome muito o nosso tempo. Caso venhamos a receber alguma proposta interessante levaremos o Fantaspoa para outras cidades, mas tem que ser algo compensador. Já recebemos propostas de diversas outras cidades, mas não é válido para nós cedermos um evento que criamos com tanto empenho sem que haja uma contrapartida.
Como o festival é financiado hoje?
Quanto ao financiamento do evento: apesar de contarmos com a co-realização da SMC e o Patrocínio do Banrisul, este é o ano no qual mais estamos investindo capital próprio. As três primeiras edições do festival tiveram um gasto muito inferior. O festival começou a encarecer a partir da quarta edição, quando começamos a trazer convidados, nacionais e internacionais, além da necessidade de uma maior impressão de material gráfico. São diversos fatores que vem encarecendo o festival. Neste ano de 2010 estamos bancando 70% do evento. O interessante nos últimos dois anos é que criamos uma maneira do evento ser auto-sustentável. Com a expertise que obtivemos legendando os filmes do Fantaspoa, a partir do quarto ano, abrimos uma empresa de legendagem e viemos reinvestindo todo o lucro da empresa no festival.
Qual a expectativa para o VI Fantaspoa?
A nossa expectativa é que essa será a melhor edição do Fantaspoa. E que este será o maior evento cinematográfico que a cidade de Porto Alegre já recebeu. Provavelmente no ano que vem eu darei a mesma resposta e não é exagero ou egocentrismo. Muitas pessoas que participam do festival percebem-no como sendo o maior evento de Porto Alegre e que vem se superando anualmente, seja em relevância ou em qualidade. É complicado para mim destacar um filme ou um diretor.
