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Um Cachalote a quatro mãos

Nos próximos dias haverá uma maratona de lançamentos daquela que é uma das publicações mais aguardadas pelos apreciadores de HQs brasileiros. Trata-se de Cachalote, graphic novel concebida em parceria pelo escritor Daniel Galera, em sua primeira incursão pelo gênero, e pelo artista plástico e quadrinista Rafael Coutinho. O álbum, publicado pela Quadrinhos na Cia., terá sessões de autógrafo dos autores neste sábado, em São Paulo, terça-feira no Rio de Janeiro e quinta-feira, 1º de julho, em Porto Alegre. São quase 300 páginas contendo diversas histórias. O ponto em comum entre elas são temáticas recorrentes como acontecimentos drásticos capazes de transformar as vidas dos personagens e a conciliação da vida com a arte. CineSemana conversou com Daniel Galera sobre o novo livro. Confira:

Como surgiu a oportunidade de fazer a graphic novel ao lado do Rafael Coutinho? Vocês já se conheciam?

Eu e o Rafa nos conhecemos no final de 2007 em São Paulo. Fomos apresentados pelo [Rafael] Grampá, também quadrinista e amigo em comum. O Rafa estava procurando um parceiro para uma graphic novel e tinha lido um livro meu. Foi uma amizade imediata, e em poucos dias decidimos fazer uma HQ juntos. Tivemos uma sintonia criativa muito grande e passamos meses esboçando os personagens e as histórias. Não houve encomenda de editora nenhuma. Quando tínhamos algumas páginas e uma primeira versão do roteiro prontos, visitamos a Companhia das Letras e eles se interessaram pelo projeto.

Você sempre foi um leitor de graphic novels ou quadrinhos? Quais suas referências?

Sou leitor de quadrinhos desde criança. Nunca li muito as séries de super-heróis, mas gostava de graphic novels de todo tipo. Além de Piratas do Tietê e Chiclete com Banana, gostava de Frank Miller, Will Eisner, Crumb, Aragonés. Meu interesse por quadrinhos diminuiu nos anos de faculdade, mas voltou com força total quando me mudei pra São Paulo, em 2005. Conheci quadrinistas e passei a ler Charles Burns, Chris Ware, Yoshihiro Tatsumi, Daniel Clowes, Christophe Blain, David B., Alison Bechdel, etc.

Como foi o processo de produção em parceria? Houve algum tipo de criação conjunta ou as tarefas eram divididas entre vocês?

As tramas e personagens foram uma criação conjunta minha e do Rafa, com base em inúmeros encontros. Ficamos muito amigos e discutíamos as ideias de Cachalote o tempo inteiro. Alguns argumentos originais que estão na HQ são meus, outros do Rafa, mas com o tempo fomos intervindo nas histórias um do outro. Eu fiz algumas versões do roteiro. A primeira foi literária, e as seguintes foram ficando progressivamente mais técnicas. O Rafa desenhava ao mesmo tempo em que eu tratava o roteiro. Demoramos mais de um ano para ter o roteiro final, e depois disso o Rafa ainda precisou de vários meses pra concluir as páginas. Dei muitas ideias para os desenhos e ele chegou a escrever alguns trechos do roteiro. Então houve mesmo um entrosamento muito grande.

Como foi a experiência de compartilhar a autoria de um livro, não ser o único responsável pelas decisões narrativas, estéticas e compartilhar responsabilidades?

Tenho muita dificuldade para trabalhar em parceria com outras pessoas, quando se trata de um trabalho criativo. Nesse sentido, a literatura me cai bem, porque decido tudo sozinho. Mas tive dois casos de parcerias criativas incrivelmente estimulantes na minha vida: uma foi com o Daniel Pellizzari, e a outra foi com o Rafael Coutinho. É um prazer compartilhar a autoria da HQ com o Rafa, não houve nenhum problema de ego ou conflito autoral. A gente discordou em vários momentos, até discutimos, mas sempre de forma que atuava a favor do trabalho. Acho que a gente consegue melhorar o trabalho um do outro.

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