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A bela estreia de Tom Ford no cinema

  • Publicado segunda-feira, 22.03.2010 por Gustavo Faraon
  • Artigos, Cinema

Por Samir Machado de Machado

Quando um profissional reconhecido numa área se aventura por outra, é comum que se olhe com desconfiança – sejam cantores se aventurando a atuar em filmes (ou escrever livros infantis, como Madonna), ou atores que se arriscam a virarem músicos (caso recente de Scarlet Johansson, por exemplo). Assim ,é natural que muitos narizes tenham sido torcidos ao saberem que o estilista Tom Ford estava lançando um filme – motivo que o levou a manter a produção sob segredo, para não ser visto apenas como “um fashion designer que decidiu fazer um filme”.

O resultado foi o filme A Single Man (que no Brasil, ganhou o pavoroso título de Direito de Amar), adaptado do livro Um Homem Só, de Christopher Isherwood. No papel de George, um professor gay que perde ocompanheiro de quase duas décadas num acidente de carro e pensa em se suicidar, o inglês Colin Firth ganhou o Leão de Ouro em Veneza como melhor ator e sua primeira indicação ao Oscar.

Ford mostrou-se um bom diretor de atores – as atuações não apenas de Firth, mas também de Julianne Moore como uma amiga solteira que ainda guarda sentimentos por George, e da revelação Nicholas Hoult (o menino de Um Grande Garoto, agora crescido) como um aluno interessado em seu professor, são cobertas de uma intensidade sutil. Mas, acima de tudo, Ford revela-se um cineasta com um rigor estético intenso. Essa seja talvez sua maior contribuição, enquanto designer de moda, para o seu lado autoral: a impecabilidade de cada cenário, objeto de cena ou figurino.

Enquanto George, o protagonista vivido por Firth, enfrenta sua depressão com uma fotografia em tons esmaecidos, ao ser confrontado com uma imagem ou um cheiro – seja umpenteado, uma flor, um perfume – as cores subitamente esquentam, tornando-se vivas e intensas. Essa ideia, que tanto pode ser usada para acusar o diretor de falta de confiança nos seus atores, também é uma carta de intenções como autor: um cineasta com uma rara preocupação pela intensidade sensorial da imagem.

Claro que os figurinos, como era de se esperar, são igualmente impecáveis – do vestido de noite de Julianne Moore ao pulôver angorá de Nicholas Hoult, passando pelo rigor dos ternos de Firth, não parece haver um fiapo fora do lugar ou em desalinho com sua proposta estética. Ford não tem medo de correr risco, faz referências a Almodóvar e Hitchcock, e erra a mão em alguns momentos, mas é esse seu ímpeto de assumir o risco de alguns excessos que o eleva em sua estreia na direção para além de ser, meramente, um estilista que decidiu ser diretor. Espera-se, apenas, que seu próximo filme ganhe das distribuidoras nacionais um título mais condizente com tanto bom-gosto.

*Publicado originalmente no CineSemana nº 123

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