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Carlos Gerbase conta como foi a escolha de Salve Geral para concorrer a uma indicação da Academia

  • Publicado sexta-feira, 25.09.2009 por Katiana Ribeiro
  • Entrevista

A 99º edição do CineSemana traz entrevista com o cineasta Carlos Gerbase, um dos integrantes da comissão responsável pela seleção do filme Salve Geral, de Sérgio Rezende, para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar. O comitê contou ainda com as presenças de Silvio Da-Rin, secretário do audiovisual do Ministério da Cultura; Carlos Alberto Mattos, crítico; Beto Rodrigues, produtor; Ivana Bentes, professora e pesquisadora; e Luiz Gonzaga de Luca, exibidor. O longa-metragem dramatiza fatos inspirados nos ataques orquestrados por uma facção criminosa, em 2006, na cidade de São Paulo. Salve Geral vai competir agora com produções de mais de 95 países à indicação final de melhor filme estrangeiro. Nesta entrevista, Gerbase conta como foi a escolha do representante brasileiro e fala das chances de uma indicação.

Como se deu a escolha do filme brasileiro que disputará uma indicação ao Oscar de melhor longa-metragem estrangeiro?
Foi relativamente fácil separar pelo menos quatro filmes dos dez inscritos, que eram os quatro filmes que mais ou menos todos os componentes do júri achavam que tinham condições. E a partir daí, a gente começou a discutir esses quatro, as suas qualidades cinematográficas, técnicas, artísticas e também quais que a gente achava que tinham perfil para representar o Brasil no Oscar. Porque não é um festival de cinema. No festival de cinema tu segue o teu gosto, tu argumenta por que acha que é o filme melhor. Na verdade, a gente discutiu qual o filme que tinha mais condição de representar o Brasil no Oscar, nesse contexto específico.



Salve Geral era o seu favorito entre os dez inscritos para representar o Brasil no Oscar?

A gente combinou, os seis componentes do júri, não falar muito a respeito de como foram os argumentos de cada um. O que eu posso dizer é que todos ficaram satisfeitos com essa escolha. Salve Geral não era unanimidade, se não a gente nem teria votado, mas todos ficaram satisfeitos com o filme. Não teve nenhum dos componentes que achou um absurdo, alguma coisa assim. Todos ficaram satisfeitos com a escolha, cada um com suas preferências pessoais. Enfim, foi uma votação.

Quais foram os principais critérios que pesaram na escolha?
As chances de ser indicado ao Oscar é um critério muito importante. Isso é tão importante quanto as qualidades intrínsecas do filme. Eu acho que tem que considerar essas duas coisas. No caso de Salve Geral, primeiro ele é um filme muito bem feito enquanto realização mesmo, tecnicamente e artisticamente. O desempenho da atriz Andréia Beltrão é muito legal e ela está cercada por atores desconhecidos, ou pelo menos muito menos conhecidos do que ela. Muitos atores são de São Paulo. Eu acho que ficou bem essa junção de uma equipe voluntariamente carioca, mas fazendo um filme em São Paulo. Isso deu uma certa identidade para o filme. Eu acho que foi um processo de realização difícil, complicado com certeza, mas ficou muito bem feito. Agora, nada disso adiantaria, ser um filme bem feito, se não fosse um filme emocionante também. Eu acho que ele emociona por
vários motivos. Ele consegue fazer uma ponte entre o drama pessoal, individual daquela família, da mãe que tem o filho preso, com o drama geral, o drama político no sistema de cadeia no Brasil, que é um absurdo, as gangues, o PCC. Acho que esse problema social brasileiro ficou bem
representado, mas ao mesmo tempo tu vê um drama individual. No cinema de ficção, tu tem que fazer isso: buscar o drama. E acho que o roteiro de Salve Geral articulou bem isso.

O conjunto de filmes inscritos conseguiu representar um pouquinho de cada coisa que foi produzida no Brasil no período?
Eu não sei ao certo. Segundo as contas do Ministério [da Cultura], foram produzidos no Brasil no ano passado aproximadamente 180 filmes. Então se são 180 filmes e só dez foram inscritos é muito pouco para a gente ter uma noção exata.

Cada uma dessas pessoas do comitê vem de uma área um pouco distinta dentro do cinema. De alguma maneira, cada profissional acaba privilegiando a sua especialidade?

Eu acho que as cinco pessoas convidadas para compor esse comitê são de áreas diferentes justamente para que possa ter uma visão bem completa do filme. A visão dos exibidores e dos realizadores, por exemplo, é muito diferente. Eu acho que para o Oscar essa coisa múltipla fica bem legal, porque daí tu tem várias interpretações distintas. Júri de festival é assim também. Não se faz um júri só de realizadores. Tu chama críticos, atores, para ter uma visão mais ampla do filme. Apessoa só pode julgar de acordo com o seu ambiente, com o seu histórico, não tem como ser diferente disso. Todos os componentes, acho eu, pensavam também no que a Academia pensa sobre cinema, porque quem vai julgar o filme agora são os membros da Academia em Los Angeles.

Qual a representatividade que um Oscar teria para a cinematografia nacional?
Eu acho que o Oscar não é importante, mas infelizmente, ou felizmente, a palavra Oscar em qualquer coisa relacionada com cinema tem uma importância histórica  imensa. Eu acho quase uma bobagem. Não vai fazer nenhuma diferença para o cinema brasileiro estruturalmente ganhar ou não o Oscar. Em termos concretos, econômicos, estéticos, não faz a menor diferença. Eu acho, pessoalmente, a cerimônia do Oscar uma chatice imensa. Eu nunca vejo inteira e, inevitavelmente, na segunda música eu já estou dormindo. Mas enfim, tem pessoas que se vidram, que ficam ligadas a noite inteira, que fazem apostas. Eu acho uma grande bobagem, mas não dá pra desprezar esse apego, esse balanço histórico.

Filmes como Os Normais 2: A Noite Mais Maluca de Todas, Se Eu Fosse Você 2, Divã e A Mulher Invisível ultrapassaram a barreira de 1 milhão de espectadores nas salas de exibição. Mesmo sendo campeões de bilheteria, eles não seriam bons representantes do cinema brasileiro no exterior?

Eu acho que, primeiro, eles não colocaram esses filmes para concorrer ao Oscar porque os seus produtores acharam, provavelmente, não posso falar por eles, que não tinham perfil para o Oscar, que eram filmes para fazer bilheteria no Brasil e que não seriam bons candidatos brasileiros, basicamente, isso. E eu acho que eles têm razão. Não teria nenhum sentido esses filmes estarem na lista.

No final de 2007, o longa-metragem 3 Efes teve um lançamento simultâneo em quatro mídias diferentes: nos cinemas, na TV, na internet e em DVD. Como foi essa experiência?
A experiência do Três Efes foi ótima. O filme teve um público extraordinário na internet. Foram mais de 300 mil espectadores. Eu fiquei satisfeito do jeito que foi feito e o modo como foi lançado, além disso foi um filme de baixíssimo custo, 100 mil reais.

Você acredita que essa pode ser uma forma de melhorar a distribuição dos filmes brasileiros tendo em vista que muitas obras nem chegam ao circuito exibidor comercial, ou ficam por poucas semanas em cartaz?
Sim, sem dúvida. As salas de cinema são o lugar especial para os filmes. Eu adoro ir ao cinema e acho que as salas de cinema vão existir sempre. Mas elas não têm mais a primazia que tinham antes. Não tem muito sentido a gente pensar nos filmes só para as salas de cinema. Infelizmente no Brasil o nosso mercado de salas ele é de difícil acesso para os filmes brasileiros, que em sua grande maioria ficam uma semana e dizem adeus e nunca mais são vistos e isso não pode nos deprimir tanto assim. A minha tese é que a gente não pode ser eternos deprimidos das salas. Depois de um fim de semana, 90% dos cineastas brasileiros se acham os grandes fracassados, ‘meu filme não deu certo”. E assim 90% dos filmes não dão certo e então isso é uma depressão quase certa [risos]. Eu acho que as salas são um lugar ótimo. A gente deve batalhar para que esse mercado se amplie, fique mais justo para o nosso produto, mas a gente não pode esquecer as outras mídias. Por isso que o meu último filme foi lançado na internet, na TV, DVD e se tiver outras mídias a gente vai lançar tudo ao mesmo tempo. Cada um pensa qual é a melhor estrategicamente, economicamente, falando. A minha lógica foi muito simples: eu vou lançar o filme em todos os lugares onde ele for economicamente viável. E qual foi o lugar que ele foi menos viável? Qual foi o único lugar que o filme perdeu dinheiro? Nas salas. Mas isso não é uma surpresa. Eu já sabia porque o custo para colocar o filme nas salas é muito grande. E o custo para colocar o filme na TV, na internet, em DVD, é muito menor e eles são mais rentáveis. Então o que acontece é que esse sistema de janela, que se tem hoje, primeiro sala de cinema, depois DVD, depois TV, é um sistema que pra mim está completamente ultrapassado, não tem nenhum sentido mais.

Você pretende lançar outro filme com a mesma estratégia?

Sim. No ano que vem, eu vou passar o primeiro semestre em Paris, fazendo pós-doutorado e vou estudar sobre filmes de baixíssimo custo na França. Como é que os franceses fazem, inclusive, vou comparar quais são os modelos de circulação de filmes digitais na França e ver se tem coisas parecidas com o que fazemos aqui. E aí eu volto e junho, no segundo semestre eu faço alguma coisa.

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