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As estranhezas de um cinéfilo no teatro

  • Publicado sexta-feira, 18.09.2009 por Gustavo Faraon
  • Cinema, Teatro

Por Alberto Buenoche

Para os fãs mais fervorosos de cinema, aqueles que elegeram a sétima arte como meio preferencial de diversão, cada visita ao teatro significa explorar um mundo totalmente à parte. Não é que o cinéfilo não possa se identificar com literatura, arte, música e com o próprio teatro. Pelo contrário. Quem frequenta as salas de exibição também costuma estar aberto aos outros tipos de arte e entretenimento. Mas a troca da tela que reflete uma imagem pela imensa caixa que é o palco gera estranhezas de ordem muitas vezes inimaginável.

A primeira delas diz respeito ao tempo. Ao contrário do cinema, o que o espectador vê em uma apresentação teatral é sempre a primeira e única tentativa, por mais ensaiada que tenha sido. Mais do que isso, o momento entre aquilo que é encenado e o que é assistido coincide completamente. Há um caráter imediato.

A segunda e principal estranheza que um cinéfilo tem de enfrentar quando vai ao teatro é, a meu ver, a co-presença. Mais marcante do que atuação e observação se darem simultaneamente, é o fato de atores e espectadores dividirem um mesmo espaço físico. Isso permite uma troca muito rica entre quem está sobre o palco e quem está na plateia. Dependendo da proximidade do palco, é possível até mesmo sentir cheiros (como o de um incenso aceso em cena), trocar um olhar com o ator e ver minúcias só perceptíveis porque não há o enquadramento próprio do cinema dirigindo o olhar de quem vê. O resultado é que nenhum detalhe escapa.

Estas duas características principais são responsáveis por potencializar as qualidades de uma apresentação, fazer de cada uma delas um espetáculo singular. Algo único, que, quando muito bem executado, causa tal impressão que é capaz de morar ainda na lembrança do espectador e povoar seu imaginário para sempre. Por outro lado, qualquer passo em falso será imediatamente sentido pelo público. E o mais perigoso: o ator que eventualmente for flagrado em desalinho sempre saberá que o foi, já que a comunicação entre quem está no palco e quem permanece fora dele é incessante, ainda que muitas vezes silenciosa.

Isso acaba gerando um desconforto próprio do teatro: o constrangimento. Não é que não existam filmes constrangedoramente ruins: há aos milhares. Mas a reação de um espectador diante de um filme ruim nunca vai além do desagrado ou do incômodo, por pior que ele seja. Em uma peça, diante dos próprios atores, o desagrado muitas vezes se transforma em puro constrangimento, talvez pela compaixão por aquela pessoa que está tentando e simplesmente não consegue, por aquele ator que almeja um objetivo que não pode atingir. E tudo se intensifica à medida que as partes sabem que não há opção senão ir adiante, até o final, custe o que custar, mesmo que rumo ao fracasso.

Foi mais ou menos o que presenciei na peça Senhora dos Afogados, escrita por Nelson Rodrigues e dirigida por Zé Henrique de Paula, que fez parte da programação do 16º Porto Alegre Em Cena. Apesar de todas as qualidades da montagem, nada é capaz de sustentar 11 números musicais de atores que, em sua maioria, simplesmente não sabem cantar. E testemunhar, simultaneamente e no mesmo local, olho no olho, um ator tentando vencer um solo musical sem ter sequer chances de empreender tal tarefa, gera tal angústia que faz ter saudades das inúmeras tentativas de takes de filmagem, das possibilidades de edição e de toda gama de truques de pós-produção que o cinema tem.

Artigo publicado no jornal CineSemana nº 97

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