Breve incurso pela história recente do humor britânico
Por Hilton Lima
Antes de encenar Borat Sagdjev nos cinemas do mundo inteiro, o comediante inglês Sacha Baron Cohen já havia atingido o sucesso com o repórter cazaque na sua terra natal, a Inglaterra. Inicialmente, Borat aparecia em quadros que duravam cerca de cinco minutos, dentro do Ali G Show, programa ancorado por outro personagem de Baron Cohen, o rapper canastrão Ali G.
Nos segmentos, o hilariante repórter apresentava aspectos da vida britânica aos espectadores, que iam desde competições esportivas até jantares finos, passando por protestos contra a caça à raposa. Nas entrevistas que Borat realizava com os mais variados tipos de cidadãos ingleses, era comum a pronúncia de uma frase, sempre que o personagem de Cohen fingia não compreender o que o entrevistado falava: “Isso é humor inglês?” O entrevistado, geralmente intrigado ou constrangido pela atitude do estranho repórter, esforçava-se para explicar a Borat algo que, para um britânico, era extremamente corriqueiro.
Baron Cohen mostrava para a audiência um velho senso-comum na Inglaterra: a ideia de que o humor britânico é enigmático e quase indecifrável para o público estrangeiro. Como consequência, não pode ser engraçado para alguém que não tenha nascido na terra da Rainha.
No entanto, definir o que é humor britânico é uma tarefa complicada e subjetiva. Em geral, a expressão é utilizada quase sempre com uma conotação negativa, para definir piadas de comediantes oriundos da Grã-Bretanha que soam demasiadamente estranhas para os ouvidos de um estrangeiro. Em outras palavras, quando um inglês conta uma piada e ninguém ri, perdoa-se uma eventual inépcia do humorista com a desculpa de que a sua piada constitui um exemplo de “humor britânico”.
Ao mesmo tempo, muitos produtos da comédia inglesa conseguiram arrancar risos das mais variadas plateias ao redor do planeta, incluindo a brasileira. É o caso do Mr. Bean de Rowan Atkinson, do próprio Borat Sagdjev de Sacha Baron Cohen e da comédia absurda do Monty Python, que assim como os personagens de Baron Cohen, foi concebida na televisão britânica, ganhando as telas de cinema apenas em um momento seguinte.

Sacha Baron Cohen como Brüno: comédia de constrangimento
A partir desta sexta-feira, o público brasileiro terá a oportunidade de conhecer mais um personagem criado por Sacha Baron Cohen que também tem o humor ácido e inovador como sua marca. Depois de transformar um repórter racista, homofóbico, machista e anti-semita em um dos personagens mais queridos do cinema em Borat (Larry Charles, 2006), Baron Cohen repete a fórmula com Brüno, filme que narra as aventuras de um escandaloso repórter de moda da televisão austríaca nos EUA.
Humor Perigoso
Um traço comum do humor britânico é a piada sobre a inadequação humana, o excêntrico e o desconfortável, às vezes beirando o absurdo. A grande sacada de Brüno, assim como Borat, é que a comédia do desconforto é levada para a vida real. Graças ao talento do comediante, pessoas comuns transformam-se involuntariamente em personagens cômicos.
Porém, há outro aspecto pouco comentado no humor de Sacha Baron Cohen, que é tão inglês quanto uma mulher feia: um senso de inovação e malícia que busca novos limites para a sátira, independente das consequências. Baron Cohen é um dos expoentes de uma dinastia de comediantes ingleses que subverteram perigosamente a linguagem cômica, principalmente na TV e no cinema.
Aqui, não poderia faltar a lembrança de Monty Python, grupo que popularizou o nonsense ao redor do mundo, deixando um legado duradouro para a comédia dentro e fora da Grã-Bretanha. No entanto, apesar da bobagem ser a marca registrada dos Pythons, não raramente a trupe debochava de assuntos sérios, como política, religião e o sistema de classes britânico, revelando a tradição do humor dos países anglófonos para a crítica social.

Monty Python fez sucesso na TV e no cinema com boas doses de humor nonsense
Se em Monty Python, a revolução se dava principalmente através da linguagem, apresentando o absurdo como engraçado, em outros programas, a revolução se dava através da polêmica, liderada por comediantes loucos (ou irresponsáveis) demais para temerem demissões por justa causa e agressões físicas. Nesse sentido, o humor de Borat e Brüno traça um paralelo com o humor incendiário de Chris Morris.

Chris Morris jamais teve limites em suas piadas e acabou demitido da BBC ao ofender a Rainha
Totalmente desconhecido fora da Inglaterra, Morris pavimentou o caminho para comediantes como Sacha Baron Cohen, que utilizam pessoas reais em suas piadas. No programa Brass Eye, Chris Morris convencia celebridades a participarem de ações filantrópicas falsas, que iam desde campanhas contra drogas inexistentes até uma campanha para ajudar um elefante que tinha a tromba grudada ao ânus. Chris Morris conseguiu até mesmo fazer com que o parlamentar inglês David Amess gravasse um vídeo discursando acerca dos perigos de uma droga falsa.
Não havia limites para as pegadinhas de Morris, que foi demitido da Rádio BBC por editar maliciosamente um discurso da Rainha. Na montagem feita por Morris, a suposta Elizabeth II lembrava dos tempos em que seu pai mantinha relações sexuais com homens e mulheres no Palácio de Buckingham. O especial sobre pedofilia do Brass Eye entrou para a história como o terceiro programa que mais recebeu reclamações de telespectadores na história da televisão britânica.
Para o público brasileiro, não deixa de ser decepcionante observar tamanha agressividade na tradição cômica de um país desenvolvido, costumeiramente associado ao estereótipo do cavalheirismo fleumático. Afinal, ninguém duvidaria que comediantes como Chris Morris e Sacha Baron Cohen seriam processados até perderem os dentes no Brasil. Mesmo os programas brasileiros de humor que rompem a tradição de nossa comédia televisiva, impregnada de piadas de salão e bordões cretinos, não possuem metade do poder destrutivo de um Borat. Ainda bem que personagens de Baron Cohen continuam chegando ao País para lembrar a população de que o humor de verdade é perigoso, cruel e extremamente democrático na escolha dos seus alvos de riso.
