Intrigas de Estado: péssima aula sobre jornalismo
- Publicado sexta-feira, 12.06.2009 por Gustavo Faraon
- Cinema
Por trás de toda ação, investigação e mistério em Intrigas de Estado, de Kevin Macdonald, em cartaz desde o feriado, há uma mensagem completamente falaciosa que, por mais aberrante que seja, sempre acaba tocando e convencendo uma parcela dos espectadores: a de que jornalismo bom é o jornalismo impresso em papel jornal, e que qualquer informação veiculada via internet é intrinsecamente desprovidade de qualquer credibilidade, o que valeria em especial aos blogs, uma vez que “só se importam com fofocas e número de acessos”.
A trama do longa-metragem gira em torno de uma investigação de assassinato conduzida pelo repórter Cal McAffrey, vivido por um Russell Crowe que, para passar a imagem de experiência e credibilidade de seu personagem, assume uns 20 quilos a mais, cabelo desgrenhado, barba por fazer, carro de mendigo, um mesa coberta por uma pilha de lixo, um computador 386 e, claro, um afeição especial por canetas.
Ele fará as vezes de mentor profissional da jovem e bela Della Frye (Rachel McAdams), uma novata que trabalha na parte online do jornal e que, portanto, usa computadores de última geração, veste roupas bem cortadas, toma banho, corta o cabelo, só se importa com fofoca, é apressada, não sabe apurar os fatos e, mais grave de tudo, nunca tem uma caneta nos momentos decisivos.
Mas graças a Cal, que a conta-gotas dá suas lições em pequenos clichês inverossímeis sobre a profissão, aos poucos a jornalista vai aprendendo o “jornalismo-de-verdade”. Só que mesmo que ela tenha passado para o lado “bom” do jornalismo e abandonado a seção online, ainda há mais um obstáculo a superar (além do caso investigado): as pressões para publicar a matéria o quanto antes, pois o jornal está à beira da falência e precisa dar lucro imediatamente.
Quando, finalmente, depois das tradicionais reviravoltas, a dupla de repórteres desvenda o caso e a matéria é publicada de maneira épica já sobre o deadline, o que se vê na tela são cinco minutos inteiros dedicados à mostrar o processo de impressão do jornal, retratado aqui como uma espécie de ritual sagrado.
Ao se ancorar exclusivamente em clichês e concepções equivocadas para retratar o estado atual do jornalismo e dos jornais, Intrigas de Estado perde uma boa oportunidade de explorar as diferenças entre o jornalismo que pode ser bem praticado nas duas plataformas e acaba virando uma espécie de funeral dos impressos. O que também é equivocado.


Escrito quinta-feira, 11.03.2010
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