Entrevista com Caco Ishak, um dos criadores do Baixo Calão
- Publicado segunda-feira, 30.03.2009 por Gustavo Faraon
- Arte, Entrevista
A entrevista com Caco Ishak, realizada por e-mail pela colega Julia Dantas, era pra fazer parte da matéria sobre a galeria virtual Baixo Calão publicada na última sexta-feira no jornal CineSemana (e repicada aqui no blog), mas acabou chegando tarde demais. Então, publico ela à parte agora, já que gostei do conteúdo e acho que pode ser interessante também pra vocês leitores. Confiram aí:
Tu e o Cardoso organizam e sustentam o site sozinhos?
Nesses dois primeiros anos, fomos os dois sozinhos, sim. E aos trancos, já que nenhum dos dois tem muito tempo sobrando – haja paixão e megalomania. Faz coisa de dois meses, porém, que estamos formando uma equipe junto aos próprio artistas pra fazer a coisa andar de vez. Joana Coccarelli, a Narghee-la, por exemplo, vai tomar conta da comunicação – matérias e notícias sobre arte urbana e lowbrow. A idéia é ter uma espécie de coordenador regional também, que corra atrás de parcerias e novos artistas em suas respectivas regiões. Nessa, entram Herbet Loureiro – o Herbie – no Nordeste, Diogo Rustoff no Centro-Oeste, Kael Kasabian no Sudeste e Fabiano Gummo no Sul. Ah, sim. Tem também a Lívia Condurú, mulher de outro artista nosso, o Paulo Ponte Souza, que tá responsável pelos projetos. E ninguém ganha nada – pelo menos, por enquanto. Tudo um bando de maluco.
Qual tua motivação?
Acho que minha megalomania é minha maior motivação, mesmo. Sei lá. Nunca entendi muito aquilo que chamam por aí de arte pós-moderna. Isso de cagar num saco plástico e deixar pendurado na galeria, criando mosca, ou uma tela em branco com um pontinho preto no meio..? Invejo os que entendem dessas coisas – mas duvido que realmente existam. Pois bem… chafurdando na net, encontrei a revista Juxtapoz, há uns cinco ou seis anos. Com ela, veio o conceito de lowbrow. Bati os olhos e, pela primeira vez, alguma coisa contemporânea me deixava empolgado. Comecei a publicar trabalhos de artistas gringos no Ciao Cretini, meu blog na época, até que surgiu a idéia de fazer o mesmo com artistas brasileiros, mas num canto específico: uma galeria virtual. No caso, a primeira – e não estou falando do gênero, como se fosse a primeira galeria online de lowbrow, mas a primeira 100% online do Brasil, onde todas as obras expostas estivessem à venda sem que instalações físicas fossem necessárias pra isso. Quando tu tem uma idéia boa, tu toca ela adiante.. não? Essa foi minha motivação.
Como vocês descobrem os artistas expostos?
No começo, saímos fuçando de flickr em flickr, fotolog em fotolog. Eu já conhecia alguns e o Cardoso também, mas o grosso foi sendo encontrado na net. Com o tempo, artistas começaram a mandar email pra gente, pedindo pra expor – mas tem o crivo, claro. Nessa, abrimos as portas também aos gringos – o primeiro foi um argentino, o Pulpo Corporate, que chegou junto. O segundo será um italiano, Claudio Parentela, que também pediu pra expor. A princípio, a idéia era abrir só pra brasileiro, fazer um mapeamento do que tá rolando nas cinco regiões. Só que, se a coisa quer crescer, não sou eu quem vou impedir esse crescimento. De ora em diante, passaremos a mapear também os cinco continentes, na proporção de 4 brasileiros pra 1 gringo por mês.
Como é o funcionamento da galeria? As obras expostas mudam periodicamente, ou apenas são acrescentadas novas obras deixando a galeria cada vez maior?
A idéia – que nem sempre é levada a cabo – é jogar um artista por semana. Da feita que ele entra, a página dele fica lá forever and ever. No futuro, caso ele queira jogar mais obras, ele volta a receber destaque na página principal como artista da semana e assim vai. Obra nenhuma é apagada. No fim, acaba funcionando como um banco de dados – como eu já tinha dito, um mapeamento do que tá rolando por aí.
São os próprios artistas que determinam os preços?
Isso. Não damos pitaco nesse ponto. Escolhemos quem vai expor e o que o cara vai expor. Quanto ele vai cobrar, já é problema dele. Tanto que temos obras de 5 reais a 5 mil reais.
As vendas estão dentro do esperado?
Depende. Do que era esperado inicialmente, não mesmo. Não que a gente tivesse pretensões de ficar rico com a BC. Mas cobrindo os gastos, estaria tranqüilo. A gente cobrava comissão e tudo – hoje, funciona da seguinte maneira: aparece comprador, a gente joga direto no colo do artista. Se vender, ele tem a opção de contribuir ou não com o caixa da BC. Acontece que não tenho tino nenhum pra ser homem de negócios – e aqui, falo por mim e tão-somente por mim. Minha praia é o jornalismo, a literatura, a música. É escrever, criar, ter idéias – posso até vender idéias, mas nunca tocar um negócio profissionalmente. Fui saber o significado de logística anteontem. Negócio, nas minhas mãos, é falência – batata. Mas enfim… tudo em nome da arte, não é o que dizem? Baixocalão pra mim não é negócio, é megalomania. Posso dizer até frustração por não saber pintar. Nunca um negócio – no que pode até, um dia, quem sabe, se transformar – mas não comigo a frente.
No site, está escrito que esta é a primeira galeria lowbrow online brasileira. É inspirada em alguma iniciativa semelhante do exterior?
Como eu disse, conheci o lowbrow através da Juxtapoz, que acabou me levando a conhecer algumas tantas galerias americanas do gênero. Mas não lembro de ter topado com nenhuma que fosse tão-somente online. A idéia de reunir artistas brasileiros veio, claro, de tanto ver artistas de fora. Mas pára por aí.
Confesso que eu não conhecia o termo lowbrow, em uma rápida pesquisa deu para entender que, de certa forma, a arte lowbrow se opõe à fine art. Tu poderia falar um pouco da arte lobrow? Essa oposição se dá a partir da postura dos próprios artistas? A partir da visão da crítica? Entre os teus objetivos com a galeria estaria “elevar” a arte lowbrow ao patamar da fine art em termos de prestígio e reconhecimento?
A expressão lowbrow surgiu, penso, no sentido de bater de frente com aquela arte pós-moderna sem pé nem cabeça de que eu falei, a partir do momento em que perceberam que os quadrinhos de um jornal faziam mais sentido do que uma instalação no Metropolitan. Uma pixação emocionava mais, carregava o conceito do belo, tinha uma expressão forte e algo a dizer. Qual é a finalidade da arte, afinal? O lowbrow já está fazendo escola e alcançando o reconhecimento devido. Os Gêmeos, no caso brasileiro, estão aí pra não me deixar mentir. Acho que, mais que isso, estraga. Tenho medo de toda e qualquer supervalorização, seja em qualquer campo. Tem uma frase do João Paulo Cuenca, em Corpo Presente, que resume bem isso. Mas não me lembro dela de cabeça agora. Diz algo como “quero leitores, mas dispenso o título de best-seller”. Uma geração de leitores puxa a seguinte. Enquanto que o best-seller de hoje, amanhã ninguém mais se lembra.
Meu objetivo sempre foi apenas um: mostrar o que estava sendo feito no Brasil. E o formato virtual da galeria é perfeito pra isso. De outra forma, como levaríamos um cara de Macapá, em começo de carreira, pra expor em São Paulo? Complicado, né? Com a baixocalão, não mais. Ele vai pra São Paulo e pro mundo todo – e pro mundo todo mesmo: 50% dos visitantes são estrangeiros. Estamos falando de imagens. Não precisam de legenda pra serem compreendidas e admiradas.

Escrito segunda-feira, 30.03.2009
gosto de como vocês consegue pautas realmente novas e interessante. parabéns pra julia pela entrevista.
Escrito segunda-feira, 30.03.2009
massa, véio!
Escrito segunda-feira, 30.03.2009
[...] no CineSemana e aqui também] Esta entrada foi escrita por cantonunes e postada em Março 30, 2009 at 19:50 [...]