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Da nova geração, mas à moda antiga

  • Publicado sexta-feira, 13.03.2009 por Gustavo Faraon
  • Livros

Rafael Bán Jacobsen lança Uma Leve Simetria (Não Editora, 224 páginas, R$30) na próxima quarta-feira, 18 de março, no Cult Bar (Rua Comendador Caminha, 348 – Porto Alegre), a partir das 18h30.

Quando se emprega a expressão ”escritor da nova geração” na tentativa de categorizar um novo integrante do universo literário, o estereótipo construído faz pensar em um blogueiro que cativou seus primeiros leitores através da internet, em anseios de renovação estilística, afeição a experimentações formais e, sobretudo, na inserção de elementos contemporâneos pouco comuns nas tramas, como videogames, redes sociais, aparatos tecnológicos, etc. Pois no sentido inverso caminha Rafael Bán Jacobsen, que na próxima quartafeira, dia 18 de março, lança em Porto Alegre seu terceiro livro, Uma Leve Simetria. Aos 27 anos, ele é a prova de que as ideias préconcebidas acerca desta tal nova geração estão muito longe de fazer jus à realidade.

Relação de Davi e Jonatã, representada em gravura de Gustave Doré

Relação de Davi e Jonatã, representada em gravura de Gustave Doré

Inspirado na passagem bíblica sobre a relação entre Davi e Jonatã, filho do Rei Saul, Jacobsen constrói um paralelo contemporâneo na figura dos recém-adolescentes Daniel, o narrador da história, e Pedro, amigo e colega de escola por quem ele se apaixona. A trama se passa no seio da comunidade judaica que acolheu Daniel, órfão desde muito pequeno, criado pela tia às voltas da sinagoga e, aos 11 anos, confiado aos cuidados dos vizinhos de apartamento. À medida que cresce no garoto a paixão por uma pessoa do mesmo sexo, explicitam-se, também, as conservadoras e punitivas posições do judaísmo sobre uma relação deste tipo. Brota, a partir daí, uma divisão entre o sentimento homoafetivo pelo amigo e a gratidão à comunidade religiosa que o acolheu, uma colisão entre o amor terreno e o amor a Deus.

Jacobsen, judeu praticante e frequentador assíduo de uma sinagoga porto-alegrense, não acredita em reações surpresas da comunidade judaica local por ter explorado a ambiguidade do texto da Torá, designada pelos católicos como Antigo Testamento. “Não é um livro feito para causar polêmica. O questionamento é uma das bases do judaísmo, e ter a sua própria escritura sagrada devassada faz parte da cultura”, afirma o autor.

Mas a história da paixão bíblica não é utilizada apenas como motivação para Uma Leve Simetria. Servindo de epílogo aos capítulos, passagens sobre a relação de Davi e Jonatã foram recriadas pelo autor com acurada fidelidade ao estilo rebuscado das escrituras originais. Assim, além de servirem de contraponto narrativo, emprestam ao texto de Jacobsen uma estranheza positiva oriunda da inserção de passagens de sutil erotismo dentro do ritmo e da ornamentação do texto sacro. À exceção dos epílogos, produtos de um pasticho, o texto de Jacobsen obedece às mais conservadoras orientações estilísticas. “Creio que já se experimentou de tudo no que diz respeito ao formal, ao linguístico, então prefiro me apegar a antigos valores como uma linguagem mais cuidada e me dedicar a contar uma boa história”, justifica o autor.

Rafael Jacobsen: retorno a textos sacros para tratar de temáticas atuais (foto de arquivo pessoal)

Rafael Jacobsen: retorno a textos sacros para tratar de temáticas atuais (foto de arquivo pessoal)

Apesar de transparecer nesta narrativa a verve literária de um autor à moda antiga, Rafael é daqueles que aos 10 anos já tinha a convicção que seria escritor, e desde então vem esculpindo sua voz própria através de diferentes estilos literários. Aos 16 anos, incentivado pela família, publicou seu primeiro livro, Tempos & Costumes, agraciado com o Prêmio Açorianos de destaque em narrativa longa. Mas tão logo o volume foi publicado, o descontentamento com o resultado final fez com que ele iniciasse imediatamente a produção de um romance policial para expiação, “um livro para se desculpar”, que permanece até hoje inédito e em processo de constante reescritura. Durante as voltas naquele texto é que surgiram as ideias para Solenar, romance publicado em 2005, vencedor do Prêmio Açorianos de melhor narrativa longa, e este Uma Leve Simetria. Entre eles, o autor publicou contos em diversas coletâneas, visitando temáticas diversas de seus romances, como ficção-científica e horror.

A rotina caótica de produção de Jacobsen é a explicação para os três anos dedicados a cada um de seus livros. Físico por formação, com mestrado em Astrofísica Nuclear e em processo de conclusão de seu doutorado em Cosmologia, Rafael não raro é obrigado a passar até duas semanas sem escrever uma linha sequer de literatura. ”Preciso de muito tempo disponivel para conseguir produzir, pois demoro pelo menos uma hora para engrenar, sair a primeira frase”, conta o autor, que não abre mão de trabalhar em um quarto penumbroso, com as janelas fechadas, música instrumental para ambientar, e uma garrafa térmica com café para mantê-lo atento.

Não bastasse o ofício acadêmico, Rafael ainda divide a literatura com o piano – aprendido aos 9 anos e que serve de instrumento para a composição de suas próprias sonatas – e com o vegetarianismo, hábito adquirido aos 11 anos e que ganhou status de militância. Coordenador da Sociedade Vegetariana Brasileira em Porto Alegre, Rafael dá palestras e participa de atividades para defender o abolicionismo animal. Mas ao contrário do judaismo, não cogita escrever sobre o tema, apesar dele estar presente em alguns detalhes de suas tramas. ”Sou daquele tipo de indivíduo que milita em praça pública, então acho que seria difícil dosar, evitar um tom panfletário se colocasse o vegetarianismo como uma questão da minha literatura”.

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