Júlio Conte entre o palco e a psicanálise
- Publicado sexta-feira, 06.02.2009 por Katiana Ribeiro
- Entrevista, Teatro
O entrevistado da 66ª edição do CineSemana é Júlio Conte, autor e diretor de Bailei na Curva, obra de maior destaque do teatro gaúcho do todos os tempos. Natural de Caxias do Sul, Júlio formou-se em Direção Teatral em 1984 e, um ano depois, em Medicina. Ao longo de sua trajetória no mundo das artes cênicas, ele já recebeu diversos prêmios Açorianos.
Além de dirigir e escrever peças, Júlio é também ator, professor de teatro e psicanalista. Nesta entrevista, ele conta por que Bailei continua lotando plateias após 25 anos em cartaz, como sua formação médica interfere na vida pessoal e no trabalho com o teatro e como está sendo sua nova experiência mediando uma peça de improvisos. Confira aqui a íntegra.
A que você atribui o grande sucesso da peça Bailei da Curva, que está a 25 anos em cartaz?
O sucesso do Bailei é porque ele conta uma história do Brasil divertida e importante. Ele possibilitou ao longo dos anos uma série de releituras porque trabalha em cima da própria identidade do povo brasileiro, de um pedaço da história que já foi bem obscuro, mas agora já está mais clarificado. O Bailei é de 1983 e a democracia só voltou em 1985. Então o Bailei é a última peça ou a primeira peça sobre a ditadura ainda em vigência da ditadura. Em 83 quando estreou, nós estávamos vivendo ainda sob o regime de exceção. Então isso é uma coisa muito importante porque ela criou um espaço novo dentro da cultura, em que se começou a discutir essas coisas, a ditadura, o estado de exceção em pleno estado de exceção, em plena ditadura.
O tema da ditadura é, ainda hoje, retratado constantemente pelas artes. Na sua opinião, o que mantém o interesse do público pelo tema 25 anos depois da abertura?
No caso do Bailei na Curva é porque, além de falar da ditadura, falar de uma história do Brasil que marca uma identidade de um povo, conta também a história de costumes, uma história de pessoas, por isso ele ganha uma certa universalidade. Não é só falar da ditadura pela ditadura, é falar sim sobre os costumes da época, os hábitos, do tipo de roupa que se vestia, do jeito que se falava, de gíria, do tipo de ingenuidade que se tinha, um tipo de ousadia. Fala da alma do brasileiro em um determinado momento. De certa forma, reverencia também os anos 60, os anos 70, o Flower Power, o movimento hippie. Ela é uma peça que fala de esperança. Essa é a grande perda que a gente teve a partir do pós-modernismo, onde o teatro, o cinema e a televisão, todos passam a ter uma característica de salve-se quem puder. Ali no Bailei é uma saída coletiva, a busca. Eu acho que é o último suspiro da modernidade no teatro, porque ali fala de uma expectativa de uma saída coletiva.
Desde a estreia do Bailei até hoje, a peça passou por algum tipo de mudança em sua montagem?
Sim, houve várias interferências, várias alterações. As mais claras são relacionadas a quando entrou os telões com imagens da época. Na estreia eram apenas sete cadeiras e um fundo preto. Agora as imagens dos anos 60, 70 e 80, estabelecem uma linguagem mais de videoclipe. Começa a ter uma iconografia daqueles anos dentro da peça. Fora outras situações como histórias novas, releituras de situações, coisas que foram se atualizando com a verdade que foi vindo à tona. A gente reescreveu histórias sobre isso, sobre Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor, uma série de coisas que foi entrando no espetáculo.
Você exerce a profissão de psicanalista?
Sim, eu tenho um consultório de segunda a sexta e também dou aula de teatro, faço teatro e algumas vezes também faço cinema. Um exercício verdadeiro, rico e eclético.
De que maneira a sua formação de psicanalista interfere no seu trabalho com o teatro?
Olha, eu sempre penso que a arte ajuda a gente a entender muito melhor as coisas do que qualquer livro. A arte é uma condensação de pensamentos que a humanidade vai produzindo ao longo do tempo. O livro fica carregado de informação, mas isento de emoção. Eu sempre gostei muito do trabalho artístico, da sublimação que a arte produz, porque ela ajuda muito a gente a compreender a vida e compreender a própria teoria de uma maneira muito prática, muito viva, cheia de emoção e afeto. Dentro de um consultório, dentro de um palco a questão é como lidar com a vida e com as emoções. Eu sempre penso assim: me ajuda muito a psicanálise, e a psicanálise ajuda muito no teatro.
O que fez com que você permanecesse trabalhando no sul, enquanto muitos artistas preferem ir para São Paulo, o estado de mais forte economia do país e acaba tendo mais espaço para as artes?
Essa é a pergunta que eu venho me fazendo há algum tempo e ainda não tenho bem uma resposta. Eu tive várias oportunidades de ir e eu sempre me recusei. Eu tive propostas de trabalho, já trabalhei fora, no Rio, fiz filmes, fiz coisas em São Paulo. A ideia que eu consigo organizar melhor é que eu sempre sonhei que produzir um teatro Rio Grande do Sul, que esse teatro do Rio Grande do Sul tivesse um espaço nacional, que um artista que trabalhasse aqui pudesse trabalhar em qualquer lugar do Brasil porque hoje não dá mais. Eu não gosto muito da ideia do eixo Rio-São Paulo como dominando toda a cultura do Brasil, porque o Brasil é muito mais do que Rio-São Paulo. No entanto é muito mais difícil fazer teatro aqui e fazer arte, até porque o Rio Grande do Sul está quase ali penduradinho no fim do Brasil.
O que você acha de um festival de teatro ter somente ou a maioria das peças do gênero comédia, como acontece com o Porto Verão Alegre?
Eu acho ótimo. Aparece bem claro no livro do Umberto Eco O Nome da Rosa que a comédia foi discriminada desde o início dos tempos porque fazia as pessoas rirem de Deus ou rirem do rei, então ela sempre foi uma subversão do poder. Apesar de todo muito falar da tragédia como se fosse uma superioridade, não existe e eu não acredito em nenhuma superioridade entre a tragédia sobre a comédia, porque que cada um tem o seu espaço, e, principalmente, eu acho muito legal esse festival ter muitas comédias, porque a comédia é onde o povo festeja, é onde o povo ri e a voz do povo é a voz de Deus. O povo ta ali, a comédia ta subvertendo Deus e ta recriando Deus na mesma hora.
Na terça e quarta-feira esteve em cartaz a peça de teatro de improviso Tá, e aí?!. Por que você decidiu ir por esse caminho do improviso?
Eu tenho um trabalho especificamente relacionado com a improvisação. Bailei na Curva foi uma peça criada a partir de improvisações. Eu sempre desenvolvo o jogo de improvisações. A peça Dançarei Sobre Teu Cadáver, que está em cartaz, também é baseado em improvisações. E aí surgiram os guris, Vicente Vargas, Ian Ramil, Eduardo Mendonça, Rafael Pimenta e Leo Barison, que estavam desenvolvendo um trabalho de improvisação, me chamaram pra fazer a mediação e participar junto, ajudar a criar exercícios e desenvolver jogos. É uma coisa que eu sempre adorei, que eu sempre quis fazer e agora nós estamos com esse grupo o Tá, e aí?! pra desenvolver isso aí. É um jogo de verdade, não é nada combinado. Eu faço o trabalho assim, eu crio situações, tem situações que vou dar pra eles que não sabem que vão existir, eu não aviso eles. Tem propostas que eu vou levar, que algumas eles já sabem, mas vai ter surpresas na hora, que eu vou inventar, e além disso, um trabalho de operação de som ao mesmo tempo. Então, conforme a improvisação ta indo eu vou criando uma trilha sonora para a cena. Um trabalho bem legal, bem divertido e inovador que celebra isso. Celebra o momento, transmite o passageiro.
E já tem previsão de quando essa peça volta em cartaz?
A agora a produção está tentando achar teatro pra desenvolver o trabalho durante o ano. Estão procurando lugares para que se encaixam nesse tipo de formato. Não é uma peça pra entrar em cartaz tipo Bailei ou do tipo Dançarei sobre teu cadáver, porque não é uma peça pra manter temporada. É uma peça pra fazer uma atividade talvez num bar, talvez num teatro pequeno. Essas duas apresentações vão nos ajudar pra gente achar o tom da peça, o perfil e achar qual é o público que ta interessado em ver esse tipo de trabalho, esse jogo livre. Esse salto mortal sem rede que é o jogo da improvisação, sendo que às vezes nem eu mesmo sei o que eu vou dizer, o que eu vou propor.
Você iniciou sua carreira no teatro nos anos 80. De lá pra cá, como você vê a evolução do público do teatro? Cresceu ou ficou mais restrito?
Eu acho que o público cresceu e vem se desenvolvendo. A gente ainda não tem assim uma estrutura profissional dos meios. As ferramentas teatrais que o Estado e o Município podem oferecer ainda são um pouco precárias, ainda tem uma certa infantilidade da relação entre o artista e a mídia, mas apesar disso tudo houve um crescimento significativo de público. As mudanças a gente vê no tempo em que as peças permanecem em cartaz. Antes do Bailei na Curva as peças ficavam em cartaz um mês. Eu tava acostumado a fazer teatro com temporada de seis apresentações, de oito apresentações, de doze apresentações e assim que terminava a peça começava a ensaiar uma outra pra apresentar no ano que vem. Agora a gente faz peças que ficam seis anos, 16 anos, 23 anos, 25 anos como o Bailei e várias outras, Se Meu Ponto G Falasse, O Manual Prático da Mulher Moderna, Pois é, vizinha…, Il Primo Mirácolo e Homens de Perto. Tem uma série de peças que rasgaram o amadorismo e tão desenvolvendo um trabalho profissional, mais tempo em cartaz e com isso também ajudando os artistas a viver, porque é isso que é profissionalismo, o artista vivendo da sua arte.
Você comentou sobre a relação do artista com a mídia
Eu acho que tem um certo jornalismo que é um pouco ingênuo, que bate cabeça pra qualquer trabalho que é feito fora do Rio Grande do Sul, nacional ou internacional, e que tem dificuldade de ver o trabalho que é feito aqui. E tem uma infantilidade, uma choradeira básica dos artistas que querem ser tratados como adultos e se comportam como crianças. Então eu acho que esse é o amadorismo, assim uma ingenuidade, a infantilidade que tem na relação.
Quais são os seus projetos para 2009?
Tem vários projetos, mas eu nem sei ainda o que eu vou fazer porque eu to finalizando meu ano. O meu ano não começou, ele começa depois do carnaval. Eu estou terminando meus trabalhos, vou tirar uns dias de descanso no carnaval e depois tem alguns projetos que vão se desenvolver. Certamente vai ter coisa nova.


Escrito terça-feira, 10.02.2009
[...] mas apesar disso tudo houve um crescimento significativo de público. … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]
Escrito quarta-feira, 18.02.2009
[...] mas apesar disso tudo houve um crescimento significativo de público. … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]