Meu futebol não passa no cinema
Por Douglas Ceconello
Criador e editor do Impedimento
Esporte que atrai multidões e movimenta fortunas, o futebol não costuma gerar grande comoção quando representado no cinema. Até hoje não tivemos um grande sucesso de público e crítica em que a trama girasse em torno do que acontece dentro das quatro linhas de um campo de jogo. Mais do que isto, ninguém parece muito interessado no assunto, sejam as produtoras, diretores e roteiristas, seja o público. É bem provável que este desdém pelos filmes sobre futebol esteja ligado a experiências traumatizantes vividas nos confins de salas escuras ou, sendo otimista, a expectativas frustradas, já que a queixa é antiga.
É difícil ao extremo lembrar de um filme arrebatador sobre o assunto preferido de dez entre dez brasileiros. Penso em outros esportes e logo me ocorre Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday) , onde Oliver Stone retrata com maestria o universo do futebol americano. Não com a mesma qualidade, mas aos borbotões, me ocorrem dezenas de obras que abordam outras modalidades do desporto mundial, como baseball, automobilismo, basquete e até sinuca.
Um dos grandes problemas dos filmes que se propõem a abordar o futebol é que não voltam a devida atenção à relação individual que cada um tem com as diversas facetas dessa febre monumental que atrai milhões de pessoas aos estádios. Muito mais do que entretenimento, o futebol interfere diretamente na vida de seus aficionados, com freqüência sendo tão ou mais importante que política, cultura e religião. Abordá-lo de forma superficial, aquiescendo ao chavão de que se trata apenas do “ópio das massas”, é implorar para cair no esquecimento. Esse foi o pecado inclusive de filmes que tinham potencial para superar tão importante barreira, como Milagre de Berna (Das Wunder von Bern) e Gol! (Goal).
Outro pecado capital, cometido pela maioria dos criadores que tentam transformar a bola em diva, é que as representações de lances e partidas, por maior que seja o esmero em sua produção, dificilmente são tão emocionantes e cativantes quanto na vida real – geralmente ficam bem constrangedoras, exceção parcial feita ao recente Linha de Passe. É uma referência oposta a outros eventos, como guerras, romances e aventuras sexuais, que costumam ficar bem mais interessantes quando transpostos para a tela. Isto porque geralmente não se privilegia a criação da atmosfera que costuma abarcar o torcedor em situações de extremo envolvimento psicológico como são as experiências vividas durante uma partida de futebol. Guerras e romances são mensagens mais fáceis de comunicar e assimilar, enquanto o futebol precisa ser contextualizado, explicado e subjetivado – exposto não pelo que significa em seu fim, mas pelas relações e significados que gera em seu desenrolar. Se em um drama um beijo ardente e louco é auto-explicativo, no futebol uma bola na trave não apenas deixou de alterar o placar como pode provocar suicídios em série e êxodos fúnebres pelas ruas das grandes metrópoles.
Enquanto o futebol for tratado apenas como um jogo – ou, o clichê supremo, uma “oportunidade de subir na vida” – continuaremos precisando comparecer às arquibancadas para vivenciar a nossa própria ficção. Se a transposição dos acontecimentos para a tela não consegue nos emocionar como a realidade, não nos provoca sequer fração das sensações que experimentamos em um simples degrau de concreto, perde-se o motivo de trocar o estádio pela sala de cinema.

