Mano Changes: não vou fazer lei pra abolir gravata
- Publicado sexta-feira, 14.11.2008 por Julia Dantas
- Entrevista, Música, Política
Como o Gustavo já tinha anunciado, entrevistamos o Mano Changes essa semana. O deputado nos recebeu no seu gabinete na Assembléia Legislativa para um informal bate papo sobre o encontro entre arte e política. A íntegra da nossa conversa você confere abaixo, mas posso dizer que foi um alívio entrevistar um político que não fugiu das perguntas. Confira:
Vocalista da banda Comunidade Nin-Jitsu e deputado estadual eleito com 43 mil votos, Mano Changes é a pessoa mais irreverente que se poderia encontrar na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Nesta entrevista exclusiva, ele mostra como equilibra a vida de músico e a de político, declara sua opinião sobre a descriminalização da maconha e conta o que acontece quando 54 engomadinhos dividem o mesmo espaço com o autor de músicas como Ah, Eu Tô Sem Erva, Merda de Bar e seu mais recente sucesso, Chuva nas Calcinha.
Por que entrar na política quando você já tinha uma carreira artística consolidada de sucesso?
Tenho, né, a música é a minha profissão, é o amor da minha vida, o que me faz feliz e eu nunca posso deixar de conviver com o palco e as pessoas que gostam das músicas que a gente compõe. Só que a Comunidade [Nin-Jitsu] sempre foi politicamente incorreta, sempre foi uma banda divertida, mas isso não significa que eu não tinha pretensões de ajudar as pessoas. Eu vi que era a pessoa pública que era o Mano Changes pra juventude era uma oportunidade de trazer uma pessoa diferente pra Assembléia, que representasse uma galera que não tem voz aqui ou que não se sente à vontade de estar na Assembléia.
Eu queria contribuir, ajudar e usar um pouco da experiência de vida que eu tenho pra trazer mais representatividade pro jovem. Hoje um dos maiores problemas do nosso País é a falta de oportunidade de emprego pro jovem que está apto ao mercado de trabalho e eu acredito que uma das causas é a falta de representatividade do jovem na política.
Você diz que a Comunidade é uma banda politicamente incorreta, o que reflete em ti. Como você foi recebido na Assembléia pelos outros deputados?
Eles começaram a conhecer a banda depois que eles me conheceram porque eles vivem em outro mundo, até os mais novos não tinham muita referência do que toca no Rio Grande do Sul, o que a gurizada tá ouvindo. Então as pessoas esperavam o Mano um cara polêmico só por ele ser músico e só por ele ser jovem. Mas eu sou um cara de diálogo, eu sou um cara que respeita muito o que as pessoas tem pra dizer. E acho que a política requer isso. Pra representar alguém, tu tem que saber ouvir esse alguém, e mostrando que eu não tenho ranço político, que eu sou um cara aberto a idéias, independente da onde elas vierem, as pessoas viram um cara de diálogo, com cabeça aberta e isso trouxe respeito. Muita gente disse ‘ah, mas olha só o Mano quer aparecer, ele usa terno e camisa pra fora das calças’. Eu uso porque eu me sinto à vontade. Se tu for pensar na maioria dos jovens que vai a casamento, que vai a debutante, a gurizada usa camisa pra fora das calças e hoje é fashion até. A gente tem que estar o mais confortável possível pra poder trabalhar sem ferir o regimento interno, que diz que tem que estar de paletó, gravata e camisa no Plenário, mas não interessa como vai estar a camisa e a gravata.
Você guarda uma camisa sobressalente aqui?
Tem, tá ali [aponta para um armário no canto da sala], com certeza. Eu uso gravata mesmo no Plenário só.
Também não tem porque não usar e criar conflito, né?
Não, claro. O Raul Pont disse pra mim ‘ah tu tem que fazer uma lei pra abolir a gravata, e eu te apoio`. Daí eu disse que não ia fazer lei pra abolir gravata, fazer lei pra me privilegiar. Eu estou aqui pra privilegiar as pessoas, não pra eu me sentir mais confortável, gravata é um respeito ao Estado, ao povo e aos eleitores que acreditam na gente também.
Como conciliar a agenda de músico e de deputado, depois de um show dá pra acordar cedo e vir pra Assembléia?
É só não ter vida pessoal [risos]. Dá pra conciliar porque a carga burocrática funcional, a rotina da Assembléia é muito mais na terça, quarta e quinta e os shows são sexta e sábado e nos outros dias eu viajo pra fazer roteiro, e assim a gente vai. Quando viajo com a banda no fim de semana, aproveito para falar com lideranças e colher idéias e isso sem gastar diária da Assembléia porque estou viajando pra fazer shows. Por exemplo, essa semana eu fui jurado em um concurso domingo, fui numa festa em Santo Antônio sábado e aí a gente também fez roteiro no interior, aproveitamos as lacunas para estar perto das pessoas.
O Gilberto Gil, outro artista na política, largou o Ministério dizendo que ia se dedicar a música de novo. O teu plano de vida é continuar equilibrando as duas coisas?
Sim.
Por tempo indeterminado?
Sim, eu acho que eu tenho uma oportunidade única aqui de chamar a atenção do jovem para a importância de ter um representante que proponha melhorias, principalmente, na qualidade da educação. Eu acredito muito que a gente tem que parar de tapar o sol com a peneira e aproximar a escola do aluno através do esporte, da cultura e da inclusão digital com ênfase na internet. Fazer com que a escola tenha essa atração pra que o jovem não seja obrigado, mas tenha prazer de estar lá. Trabalhar aqui é uma cachaça, tu quer continuar, tu quer ver essas coisas acontecerem. Agora, como a Comunidade é uma banda que compõe muito pela espontaneidade, a gente é uma piada interna que se espalhou e nunca esperou fazer sucesso, mas justamente por ser a primeira banda no mundo a misturar baile funk com rock chamou a atenção. Então quando eu estou com a banda, para pintar uma idéia é importante estar perto das pessoas. Uma profissão complementa a outra e eu me sinto muito à vontade nas duas, e durmo tranqüilo porque eu sei que no palco eu atendo as pessoas, dou toda a minha energia, dou todo o meu tesão e aqui [na Assembléia] não faço nada de errado. To há quase dois anos aqui e nunca ninguém sentou na minha frente pra me fazer uma proposta indecorosa.
Ser eleito mudou a tua postura como músico, te preocupa mais em ser politicamente correto, mudou as letras?
Eu acho que a idade faz a gente pensar mais assim do que a própria carreira política. Só que a Comunidade tem um norte, tem uma referência que é a vizinhança de praia quando a gente se divertia, quando a gente ficava ali simplesmente pra zoar. E o próprio Chuva nas calcinha, que foi uma música que tocou no Estado inteiro, não deixa de ser uma música pra mostrar pras pessoas que a Comunidade e o Mano Changes continuam os mesmos. Eu não vou mudar o meu jeito de compor pra contentar possíveis eleitores. Eu acho que as pessoas precisam um pouco de verdade e de autenticidade. Assim como nunca ninguém vai me ver no palco, que pra mim é um lugar sagrado, falando de política. Eu acho que a gurizada que paga pra ver o meu show quer ser divertida, não quer ser instruída politicamente e seria estúpido se eu fizesse isso no meio do show porque os caras iam me tirar pra babaca. Eu deixo ao máximo separadas as coisas, é difícil porque todo mundo acaba misturando, mas eu mantenho a postura de não querer me beneficiar do palco e não usar a política pra beneficiar a banda também.
Mas a tua fama te beneficiou pra ser eleito…
Com certeza. Eu não teria o ouvido dos jovens se não fosse a Comunidade Nin Jitsu. Acho que se todos os meus fãs votassem em mim eu teria feito mais de 43 mil votos, por todos os shows, por todo o carinho que nós temos em todas as cidades que a gente vai no estado Rio Grande do Sul. Mas quem me ouviu e viu as minhas propostas na internet, quem viu a importância de aproximar a escola do aluno e ter um representante da galera dentro do parlamento, foi quem votou.
E teu fãs lidaram bem com a tua candidatura?
Certamente, ninguém chegou assim ‘nossa tu vai pôr tua carreira artística fora”, até porque eu sempre fui uma pessoa ponderada, nunca misturei, nunca usei isso pra me aproveitar de nada. Enquanto a sociedade achar que eu sou útil, beleza! Quando a sociedade achar que eu não sou mais útil, e as urnas é que mostram isso, eu vou cuidar da minha vida, dos negócios da minha família, minha banda e vou continuar sendo um cara feliz que dorme tranqüilo, sabendo que aprendi muito. Acho que a gente nunca tá preparado pra nada, a gente tem que tá sempre buscando se preparar porque a vida é dinâmica. E cada vez mais a gente ta amadurecendo politicamente aqui. E agora me sinto preparado, ou vou me preparar, tô sendo ambíguo aqui [risos], mas me sinto praticamente preparado pra presidir a Comissão de Educação [no biênio 2009-2010], e aguardem que a Comissão de Educação não vai mais ser careta como é.
Parece uma vida dupla, tem o músico, de identidade irreverente e contestadora, e tem o deputado, que precisa se colocar num ambiente burocrático e cheio de regras…
Mas eu continuo sendo irreverente aqui dentro, eu brinco com as pessoas, antes de eles se arriarem em mim eu já me arrio em mim mesmo porque eu sei que é o jeito de blindar. Teve uma vez que eu cheguei todo descabelado, todo amassado de manhã numa comissão de saúde. Eu vi que eles ficaram meio que rindo da minha cara. Daí quando teve um momento Professor Girafales do Chaves, eu disse assim ‘ah vocês estão rindo do meu jeito de me vestir”, daí todos os deputados brincaram e eu disse ‘vocês têm que ser da conta que nós somos 55 aqui na casa: tem um desleixado e 54 engomadinhos, então quem gosta de engomadinho, tem que escolher um entre 54 de vocês pra votar enquanto quem gosta de desleixado vem comigo direto. Quando eu falei aquilo de uma maneira irônica foi muito engraçado porque eu tirei o sorriso do rosto das pessoas de forma categórica, mas brincando, como se fosse uma estratégia mirabolante política minha.
A Comunidade tem diversas letras que falam de maconha, que não é uma apologia, mas está bem explícito. Tu pretende colocar isso no teu discurso político em algum momento?
Esse é um tema que tem que ser tratado com cuidado, porque às vezes pode ser mal interpretado. Mas eu tenho a mesma opinião do Gilberto Gil, por exemplo, eu acho que no momento que tu liberar o consumo ou descriminalizar o uso da maconha tu tira uma das fontes do traficante. E no momento que tu proibir a veiculação comercial dessa drogas lícitas na mídia e que tu usar todo o imposto gerado pelo comércio de qualquer droga para fazer campanhas educativas, tu ta combatendo o tráfico e dizendo que beber é brega, fumar é brega. O que não pode é o cara que fuma maconha ser preso e o álcool, que é uma droga que causa muito mais efeito, é promovido pela menina mais bonita do País na propaganda. Temos que nivelar tudo isso. A maconha só foi proibida no mundo por causa da indústria do nylon, porque cânhamo produzia mais do que ela, e porque era uma cultura dos mexicanos. Foi um jeito dos americanos discriminarem os mexicanos, até pra poder começar a controlar essa questão da imigração. Então eu sou a favor da descriminalização sim, acompanhada de uma trabalho de base, especialmente nas periferias.
E a Lei Seca?
A Lei Seca pra carros tudo bem, mas pra bares é um absurdo. A gente é a favor da conscientização pra que as pessoas não se droguem na noite e não voltem dirigindo, que façam festa de cara limpa. É importante isso porque o Mano é um cara polêmico, o que chama atenção, mas no palco, só toma água. Quando o Mano abre a boca pra falar, a gurizada presta atenção no que ele tem pra dizer, e o Mano diz que se tu tá cara de limpa é muito mais fácil de ficar com uma gatinha na noite porque tu tá muito mais rápido e muito mais acelerado, basta tu ter personalidade. E a última coisa que a menina quer é um cara com bafo de trago, chato, que fica incomodando. A menina tem um papel fundamental na questão da Lei Seca dos carros, porque não pode ser careta o cara deixar o carro e ir pra casa de táxi, isso tem que ser bacana, isso tem que ser positivo. E as mulheres mandam no mundo, elas que precisam dizer “oh, tu não é o galo que vai pegar o carro e dirigir bêbado e não vai acontecer nada, pode acontecer, os reflexos diminuem entendeu? Vamos de táxi que vai tá tudo certo”.


Escrito quarta-feira, 02.12.2009
que cooisa em nao sabe nem quanto é 2 mais 1
Escrito quarta-feira, 29.09.2010
O Mano é o cara que as pessoas tem preconceito, mas os merdas dos engomadinhos são bons?
Escrito sexta-feira, 04.03.2011
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