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O que há de errado com os trailers?

  • Publicado quinta-feira, 30.10.2008 por Gustavo Faraon
  • Artigos, Cinema

Um dos tantos diferenciais das salas de exibição em relação ao aluguel de DVD e, mais recentemente, do download de filmes na internet, são os trailers de filmes inéditos. Sua função principal é a de informar o público sobre os novos lançamentos que virão, os títulos programados para os meses seguintes. Alguns outros fatores fazem com que ele seja mesmo parte fundamental das projeções: primeiro, ele estabelece uma atmosfera de expectativa e excitação na espera pelo início do programa principal, um “clima de cinema” que extrapola em muito os aspectos físicos objetivos da tela grande com boa imagem, som cristalino em alto volume e sala escura; em segundo lugar, os trailers auxiliam nas nossas próximas escolhas cinematográficas, nos permitem vislumbrar possibilidades futuras e prolongar a expectativa para além daquela sessão.

Ultimamente, porém, os trailers se transformaram em um verdadeiro desserviço ao espectador, além de uma tremenda chatice. No afã de conquistá-lo a qualquer custo e mirando unicamente na decisão de escolha do próximo filme, eles não se furtam a distorcer por completo o enredo, a temática e até o estilo de uma obra. Quem os produz também parece pouco ligar se, em outros casos, contam toda a sua história, revelam seus desfechos, estragam suas surpresas ou, no caso específico das comédias, jogam na cara do espectador, em um compacto de dois minutos exibido meses antes do lançamento da produção, todas as piadas e tiradas engraçadas de uma só vez, fazendo com que a experiência, depois, ganhe ares de déjà vu.

O exemplo mais recente desta prática se deu no último final de semana, quando fui ver Fatal, de Isabel Coixet. Fui ao cinema dividido entre duas expectativas antagônicas: uma boa, gerada pelo conhecimento prévio do trabalho da diretora e também da história de O Animal Agonizante, de Philip Roth, no qual o filme é baseado; e outra ruim, derivada do trailer que vira dias antes e que mostrava um thriller ancorado em clichês cinematográficos, sustentados pela linha ciúme, obsessão, traição, perseguição e a sugestão do desfecho de sempre. Para minha sorte, o trailer se mostrou completamente enganador, e o filme não caminhou pela via descrita por ele.

Surpreendentemente, pesquisando na internet, encontrei uma versão completamente diferente do trailer do mesmo filme. Ao invés do ar de suspense e da música marcando os pontos de tensão, o que é focalizado são os pensamentos de um homem atormentado pela paixão na velhice, acompanhado por uma trilha musical latina que representa a mulher que é o objeto dessa paixão, algo mais condizente com o título original (Elegy, em português elegia, poema ou canção de lamento). Infelizmente, não foi este segundo o trailer escolhido pelo estúdio e pela distribuidora para ser exibido nos cinemas.

A própria escolha do título brasileiro, Fatal, ajuda a revelar um sórdido mecanismo de enquadramento de todo filme em algum dentre a meia-dúzia de gêneros pré-estabelecidos, mesmo que esta colocação seja feita de maneira constrangida, a marretadas e com a ajuda de um pé-de-cabra. Tal imposição forçada de estereótipos acaba por estabelecer um modelo de expectativas anterior ao espetáculo em si. E isto só pode ser muito ruim, à medida que define o modo como o espectador vai perceber qualquer conteúdo específico, e acaba funcionando como uma espécie de lente distorsiva ou como o uso constante de óculo fumê, que não permitem que as coisas sejam vistas em seu formato e em suas cores verdadeiras.

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