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O cinema, a representação, o real

  • Publicado segunda-feira, 27.10.2008 por Katiana Ribeiro
  • Artigos, Cinema

Por Antônio Xerxenesky
Romancista, autor de Areia nos Dentes (2008, Não Editora)

José Padilha, o talentoso cineasta por trás de Tropa de Elite e Ônibus 174, esteve em Porto Alegre no mês de maio para uma conferência no Fronteiras do Pensamento. Antes de iniciar sua fala, decidiu fazer uma distinção entre “tipos de filme”. Para Padilha, qualidade à parte, havia uma divisão entre filmes preocupados em representar a realidade, como o seu Tropa de Elite, e outros que não tinham essa pretensão, como Alien e Star Wars. Talvez a sua categorização fosse mais complexa; se é o caso, perdeu-se na coloquialidade. O que interessa aqui é que muitos parecem compartilhar dessa visão e eu, pelo contrário, discordo bastante.

O que está em jogo não é mera rotulação, mas sim a questão da mímese, da representação. O tema foi assunto de muitos escritos, desde o clássico Ars Poetica de Aristóteles até o Mimesis, de Erich Auerbach. Será que por um filme mostrar as imagens de traficantes trocando tiros em uma favela no Rio de Janeiro ele está sendo mais “fiel” à realidade do que um que mostra alienígenas, robôs ou zumbis?

Se me perguntassem por um bom filme sobre o 11 de setembro do ponto de vista dos norte-americanos, recomendaria Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, ao invés da escolha óbvia do World Trade Center, de Oliver Stone. Em primeiro lugar, por critérios estéticos. Em segundo, porém, porque é de minha crença que às vezes a representação mais imediata da realidade parece vazia, enquanto aquela que se vale de metáforas ganha muito em sutileza. Mais exemplos? Que tal O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, como discussão sobre a Guerra Civil? Brazil, de Terry Gilliam, sobre totalitarismo? A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero, acerca da Guerra Fria?

Imaginem se substituíssem os zumbis de Romero por comunistas. A maior ofensa, creio, seria o fato de que estariam limitando a capacidade de significação do filme. Aqui, digo que é um filme sobre a Guerra Fria. Porém, outros espectadores poderiam argumentar que é sobre racismo. Ao nos afastarmos de um realismo frígido, abrimos espaço para a opacidade da linguagem.

Eis que entra outro contra-argumento: o filme realista geraria mais discussões. Sobre isso gostaria de retornar à palestra do Padilha, ou, um pouco antes, à viagem de táxi que fiz rumo à palestra, onde o taxista me falou que sim, Tropa de Elite era um filme fenomenal, porque mostrava a polícia como ela devia ser – com coragem de meter bala nos bandidos. Pouco imaginava o motorista que em alguns minutos Padilha desmentiria toda essa idéia com seu discurso liberal de esquerda.

Isto não é uma diatribe contra o cinema realista ou contra José Padilha. Considero Tropa de Elite um grande filme, e digo isso sem ironia. É apenas uma defesa do fantástico e do metafórico, como representação de um realismo que se esconde por trás de camadas, e não se deixa cair em flagrante por uma câmera documental. O real, como pensa Heidegger, sempre se escapa, é inalcançável. Talvez na ficção consigamos estar um passo mais próximos dele do que no suposto realismo.

2 comentários em ‘O cinema, a representação, o real’

  1. coloquialidade.net - O cinema, a representação, o real:

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