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Escritores entre a loucura e a sanidade

  • Publicado terça-feira, 14.10.2008 por Gustavo Faraon
  • Arte, Livros

A vida, as letras e como uma pode interferir, modificar e redefinir a outra foi a tônica das conferências do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez e do poeta brasileiro Fabrício Carpinejar na noite da última segunda-feira, dia 13 de outubro, em Porto Alegre. O público não chegou nem perto de lotar as dependências do Salão de Atos da UFRGS, como aconteceu nas conferências dos astros Wim Wenders e David Lynch, mas saiu satisfeito com o que viu.

Cubano Pedro Juan Gutiérrez, violento no texto e tranqüilo na oratória

Pedro Juan Gutiérrez, violento no texto e tranqüilo na oratória

Gutiérrez, um tipo sóbrio, quase sisudo, bem diferente do que seria de se esperar do autor de livros tão despojados como Trilogia Suja de Havana e O Rei de Havana, preferiu não falar de política em sua palestra “Vida e Literatura”. Preferiu concentrar sua atenção ao ofício de escritor, que comparou a uma criança que segue na busca de explicações ao longo de toda a existência. O cubano, adepto de uma escrita visceral, sempre realizada à mão ou à máquina, falou em tom confessional sobre ser processo de produção, quando costuma se trancar sozinho em um quarto, conversar com ele mesmo e gesticular. Na escritura de O Rei de Havana, ficou obcecado: parou de tomar banho e barbear-se, bebia muito e chegou a juntar-se a um grupo de mendigos que vendiam tubos de pasta de dente na rua. “Não sei escrever sem mergulhar no livro”, revelou Gutiérrez, de certa maneira certificando a própria tese segundo a qual o escritor está sempre em trânsito entre a loucura e a sanidade.

O performático Fabrício Carpinejar e os tufos de cabelo que lhe restaram

O performático Carpinejar e os tufos de cabelo que lhe restaram

Tom confessional que, aliás, foi a tônica de Fabrício Carpinejar, bem como uma dose calculada de loucura. Durante a coletiva de imprensa realizada antes das conferências, o poeta já dera uma amostra do que apresentaria ao público ao disparar frases de efeito como “fiz toda minha primeira comunhão de braguilha aberta”. À noite, Carpinejar subiu ao palco do teatro carregando um chifre de boi contendo uísque 12 anos para presentear o companheiro de debates e trajando indumentária típica gaúcha que comprara especialmente para a ocasião: botas, bombacha, guaiaca, camisa branca e um lenço encarnado enrolado ao pescoço, que compunham um visual bem único ao ser combinados com o cabelo cortado com máquina zero (com exceção de dois tufinhos esquecidos propositalmente na parte de trás) e com as unhas coloridas apenas na mão esquerda.

Mas foi com sua apresentação de “As palavras são meu álbum de família: defesa de uma ecologia poética” que Carpinejar conseguiu estabelecer conexão com o público. Ao trazer à tona lembranças da infância, defendeu que não há maior compreensão do que emocionar. “O que é possível conhecer ou aprender com termos como desenvolvimento sustentável?”, ele perguntou, numa espécie de denúncia das palavras ditas sem sentido e expressões sem nada de pessoal. E completou: “Clichês foram feitos para não pensar. As palavras é que formam o comportamento”.

Fotos de Clléber Passus/Divulgação

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