Entrevista com Gustavo Spolidoro, vencedor do Festival de Milão
- Publicado quinta-feira, 02.10.2008 por Gustavo Faraon
- Cinema, Entrevista

Gustavo Spolidoro, que venceu em Milão com Ainda Orangotangos
Responsável pelo primeiro longa-metragem brasileiro filmado em um único take, Gustavo Spolidoro recentemente viu seu filme Ainda Orangotangos ser premiado no Festival de Milão, justamente pela ousada aposta “brilhantemente resolvida”, conforme divulgou o júri da premiação.
Mesmo ainda evolvido com o lançamento do longa, o cineasta já prepara um novo projeto em documentário e, no meio tempo, gravou um depoimento do cineasta alemão Wim Wenders para o projeto Fronteiras do Pensamento. Spolidoro falou ao CineSemana sobre a surpresa de ser premiado no festival italiano, sobre o futuro do cinema e sobre o seu próprio.
Você esperava sair premiado do Festival de Milão?
Foi surpresa, até porque concorria com outros dez filmes e o Ainda Orangotangos não é uma unanimidade. Tem pessoas que gostam muito, mas outras não gostam, e como para ganhar um prêmio desses geralmente tem que ser uma decisão unânime, eu não tinha uma expectativa tão grande. Mas para nossa sorte, ganhamos! E o prêmio de melhor longa-metragem é o único prêmio do júri, além disso só há outras menções.
Filmes de grande ousadia técnica como esse tendem a agradar a crítica e criar certa resistência no público. Como tem sido a recepção de Ainda Orangotangos?
Eu notei até o contrário, que parte da crítica, a que tem uma visão mais clássica do cinema, não gostou, e outra parte com uma visão mais contemporânea, gostou muito. Já do público, a experiência que eu venho tendo em festivais é totalmente positiva. Claro que não é um filme popular, capaz de atrair grandes públicos, mas quem que tem ido a festivais e mesmo nas salas de cinema aqui não se assustou tanto quanto eu achava que poderia se assustar.
Quantas filmagens foram realizadas?
Foram seis filmagens durante seis dias, e o que virou o filme mesmo foi o segundo dia. A segunda, a quarta e a sexta deram certo, comparamos estas e optamos pela melhor, que foi a segunda.
E porque fazer um longa em um único take?
Eu tenho dois curtas em plano-seqüencia, Velinhas (1998) e Outros (2000), então havia uma expectativa de amigos e da imprensa se eu faria um longa em plano-seqüencia. Eu não tinha pensado nisso ainda, mas um dia li o livro do Paulo Scott e vi que daria para fazer isso com aquelas historias encadeando-as na mesma região. Aí juntou o meu interesse com o livro e o edital do Ministério da Cultura que abriu para filmes de baixo orçamento, e fizemos o projeto que acabou ganhando o prêmio de um milhão para produção do filme. O Ainda Orangotangos ganhou o edital do MinC para produção e da Petrobrás para distribuição.
E como está sendo a distribuição, que costuma ser a maior dificuldade nos lançamentos nacionais?
A gente tentou o GNC até e não rolou (risos). É que eu insisti que queria no Praia de Belas porque a gente fez muita campanha em escolas de segundo grau e universidades e achou que se entrasse no Praia de Belas teria um outro encaminhamento de público. Acabou entrando Guion que é um público adulto, não adolescente, e mesmo assim ta há cinco semanas lá, e entrou no Arteplex, que é mais elitizado. A gente queria o Praia de Belas, que era mais jovem, mas é difícil entrar porque são só três salas. Então são duas salas de Porto Alegre e duas de São Paulo e está tendo o público que era o esperado para um filme de baixo orçamento e distribuição pequena. Está dentro da média. São cinco semanas em cartaz em Porto Alegre, o que é legal porque tem filmes que não ficam nem duas semanas.
O caminho para se fazer cinema brasileiro hoje em dia é apenas com dinheiro público?
Acho que é um dos caminhos, é o mais feliz, digamos, porque é o que possibilita que se pague todas as pessoas, o filme, equipe produtora… Mas não é o único, tem outros de baixo orçamento ou nenhum orçamento, como podem ser os filmes feitos e lançados digitalmente. Um dos grandes caminhos é a projeção digital. E o cinema está ganhando outros espaços, como o computador pessoal. O cinema está entrando nas casas de cada um, está se tornando uma obra de espectador único e temos que aprender a lidar com isso, acho que o mundo da música já vem passando por isso há um bom tempo e o cinema está chegando lá.
O 3 Efes do Calros Gerbase tem um pouco dessa proposta.
É um precursor na proposta de interação entre as diversas formas de se produzir e lançar um filme. Serve de estudo do que vem pela frente.
Como você foi chamado para fazer o curta De Volta ao Quarto 666 com o Wim Wenders, que faz referência ao documentário que ele mesmo fez em 1982 entrevistando outros cineastas?
Fui contratado pelo Fronteiras do Pensamento para fazer um dos audiovisuais com os palestrantes e eu pedi que fosse com o Wim Wenders. Agente teve certa liberdade para fazer o roteiro, que foi aprovado por eles e, mais importante, pelo Wim Wenders. Tivemos uns 40 minutos para fazer tudo, 20 de conversa e 20 rodando e matamos o filme. Depois mais uns dez dias para editar e o Alfredo, o montador, teve a idéia de colocar os “fantasmas” do Quarto 666 original, uma grande sacada dele. Acena do Antonioni é sensacional, é emocionante mesmo.
A pergunta mote para o Quarto 666 e para o teu curta com o Wim Wenders é “qual o futuro do cinema?”. Como você responderia?
Eu não tenho certeza, na verdade acho que ninguém sabe. Tem gente que ainda está pensando no transfer, outros pensando no cinema digital, outros no cinema pelo celular. Agente tá na década de zero, e a década zero vai ser um marco dessa confusão cinematográfica que a gente ta vivendo. Talvez na década de 10 as coisas comecem a se resolver, espero que para o bem.
Wenders diz no seu depoimento que, graças às possibilidades da tecnologia, estamos em um excelente momento para cineastas iniciantes, você concorda?
Acho que hoje qualquer um pode fazer cinema. Qualquer pessoa que tenha um celular com câmera é um potencial cineasta. Agente vê filmes às vezes feitos em casa com os amigos que têm 10 milhões de espectadores no YouTube. Qualquer um hoje em dia que faz imagens e torna elas públicas está fazendo uma obra audiovisual.
E isso é bom?
É bom pela democratização, o grande dilema é como sobreviver com isso, porque não dá para fazer brincadeira de cinema a vida inteira. O grande dilema é como ser um cineasta profissional.
Você já tem algum projeto engatilhado para o futuro?
Sim, eu rodo no final do ano um projeto que se chama Monte Vêneto, que não vai ser necessariamente o nome do filme. Consiste em dois trabalhos: o primeiro é um documentário que vai ser rodado na cidade de Cotiporã, na serra gaúcha. É o primeiro documentário que vou fazer para o DOCTV [projeto da TV Cultura], sobre o dia-a-dia de cinco adolescentes numa cidade de 4 mil habitantes de colonização italiana. Depois devo fazer no mesmo lugar a parte ficcional do Monte Vêneto, que será muito parecido ao documentário.

