Aos mestres, com carinho
- Publicado sexta-feira, 12.09.2008 por Gustavo Faraon
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por Igor Salomão Teixeira
Mestre em História e professor da UFRGS
15 de outubro é dia do professor! Escrevo para homenagear meus professores (ex e atuais), minha mãe, professora da antiga “quarta série”, e minha irmã, que também é professora de história. Faço isso, por reconhecer as dificuldades de ser professor no Brasil. Quando pensei neste artigo, pensei na minha crença quase utópica de que é na sala de aula que uma sociedade pode iniciar um processo de mudança: falamos de inclusão, cotas nas Universidades, bolsa-escola, Prouni. Mas, e o professor? O professor é o motor da mudança: sua sensibilidade, formação e dedicação que iniciam as transformações.
Filmes como Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Mudança de Hábito (1992 e 1993), Mr. Holland, Adorável Professor (1995), O Sorriso de Monalisa (2003) e Escritores da Liberdade (2007) não se diferenciam em suas temáticas: um novato entra para uma escola “problemática” (leia-se periferia, na lógica dos filmes) e/ou para lecionar em cursos sem prestígio. Assim, a Irmã Mary Clarence (ou Deloris), vivida por Woopi Goldberg em Mudança de Hábito, ou o Mr. Holland, professores de canto e música, respectivamente, não são muito diferentes um do outro. De odiados a heróis, de desrespeitados a autoridades.
Mr. Holland nos ensinou sobre como o reconhecimento por um trabalho nem sempre é imediato. A Irmã Mary Clarence ensinou que “se você quer ser alguém ou ir a algum lugar é preciso estar acordado e prestar atenção”. Esses filmes ensinam lições importantes. Mas nenhum deles supera Escritores da Liberdade. Não por ser baseado em uma história real, e sim, em duas.
Erin é uma professora de inglês e literatura, contratada para lecionar numa escola da periferia violenta de uma cidade norte-americana. Os alunos estão envolvidos em gangues, muitos perderam amigos por causa disso e as expectativas se restringem a sair e voltar vivo para casa. Cheia de idéias, a professora constata que elas não seriam suficientes.
De todas as transformações nas formas de ensinar dessa professora, destaco três. Ao interceptar um bilhete que ridicularizava um dos alunos por causa de suas características físicas, a professora inseriu o tema do holocausto. A segunda medida é a constatação dos alunos que todos tinham histórias parecidas. A terceira transformação é a provocada pelo Diário de Anne Frank.
Ao perguntar se os alunos conheciam o nazismo e Hitler, Erin comparou o contexto da segunda guerra mundial com as gangues das quais os alunos participavam. Os alunos não sabiam o que era pertencer a uma gangue poderosa de verdade. Enquanto disputavam ruas em um bairro, os nazistas conquistaram países inteiros! E fizeram isso não apenas com armas. Com bilhetes parecidos com o que circulava sobre o colega, determinavam características inferiores a judeus, ciganos, homossexuais. Os alunos ficaram chocados.
Por conta disso, a professora indicou a leitura de O Diário de Anne Frank. A diretora da escola se opôs, o que gerou conflitos. Mas Erin conseguiu que os alunos tivessem acesso aos livros. Também distribuiu cadernos e pediu que eles escrevessem seus diários. Não seriam lidos em público. A professora só leria se quisessem.
A semelhança das histórias narradas nos diários aparece no filme em várias passagens, como no momento em que Erin pediu que os alunos se perfilassem próximos a uma linha. Na medida em que a professora perguntava, eles deveriam se afastar ou permanecer próximos à linha diante de respostas afirmativas. As perguntas eram sobre violência, como: Quem foi ferido à bala? Quem perdeu um amigo por assassinato? Quem perdeu mais de três? Os alunos perceberam como suas vidas eram parecidas e a turma se solidarizou. A semente foi plantada.
Quando os alunos chegaram ao final do livro de Anne Frank, a revolta: eles se apegaram àquela garotinha confinada e não gostaram de saber seu trágico destino nas mãos da “gangue” nazista. O envolvimento foi tamanho que conseguiram levar à escola a responsável pela Casa de Anne Frank, que foi a mesma pessoa quem encontrou os escritos que se transformaram no livro. Os diários dos alunos também se transformaram: o livro foi publicado nos EUA em 1999 e a professora Erin existe.
Escritores da Liberdade não é um filme fascinante por causa de uma história real, e sim, por causa de duas. E não interessa saber o que os alunos “problemáticos” aprenderam ou não sobre a segunda guerra mundial. Interessa a transformação ocorrida a partir da sala de aula, por causa de uma professora dedicada. Pela dedicação e pela crença quase utópica de que é na sala de aula que uma sociedade pode iniciar um processo de mudança.

