O dia em que David Lynch desceu ao Sul
- Publicado segunda-feira, 11.08.2008 por Gustavo Faraon
- Celebridades, Cinema

Quem esperava um sujeito soturno, de ares sombrios e comportamento provocativo saiu surpreso do Salão de Atos da UFRGS no último domingo, dia 10, ao ver um David Lynch doce e calmo. Convidado a ministrar uma conferência no ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, o diretor de Veludo Azul (1986) e Cidade dos Sonhos (2001) frustrou alguns de seus admiradores que esperavam que sua participação como palestrante seguisse o curso de seus filmes, não-lineares, com alto grau de abstração e cercados de mistérios e situações inexplicáveis. Ele foi claro, objetivo e quase professoral.
Cerca de vinte minutos após a hora marcada para o início de sua palestra, Lynch ganhou o palco ostentando seu tradicional topete branco e um largo sorriso. Sentou-se ao lado do diretor e roteirista Gilberto Perin, que atuou nervosamente como um híbrido de entrevistador e mediador do cineasta com a platéia. Desde o primeiro segundo, David Lynch deixou bem claro o motivo de sua tour pelo País, e repetiu como um mantra seu discurso de louvação à meditação transcendental, prática da qual é seguidor há 35 anos.
“A meditação transcendental é a chave para portas que levam às profundezas da mente, que sempre estiveram lá mas normalmente não são exploradas”, disse o cineasta. Lynch defendeu a prática como método para aumentar a criatividade, e revelou que é a partir dela que surge grande parte de suas idéias, sempre de maneira fragmentária. “Muitas vezes não sei exatamente o que a idéia significa, mas vou em frente, pois acredito na intuição, que pode se tornar a solução dos problemas”, afirmou.
Embora demonstrasse clara preferência pelo assunto de que trata seu livro Em Águas Profundas: Criatividade e Meditação, o diretor não fugiu das respostas quando a temática era o cinema, sobre o que todos os presentes ansiavam por ouvir. David Lynch demonstrou sua preferência pelo cinema mais abstrato como forma de ampliar as possibilidades de interpretação, e sugeriu que a sétima arte pudesse se aproximar da música e pintura em nível de abstração. As perguntas clássicas não faltaram. Se David é tão feliz com a meditação, por que seus filmes são tão tristes? “Um artista não precisa sofrer para mostrar sofrimento”, respondeu, mostrando que as histórias refletem o mundo no qual elas acontecem. E antes que o músico britânico Donovan Leitch, outro embaixador da meditação transcendental, subisse ao palco para executar cinco de suas canções ao violão, a questão fatal sobre o seriado Twin Peaks, proferida em tom de brincadeira, foi ignorada pelo diretor com a elegância de quem finge que não ouviu uma piada ruim.
Mas, afinal, quem matou Laura Palmer?
