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Júlio Bressane, um cineasta por necessidade

  • Publicado sexta-feira, 01.08.2008 por Katiana Ribeiro
  • Entrevista

Júlio BressaneO entrevistado da edição 40 do CineSemana é o cineasta carioca Júlio Bressane. Considerado um dos expoentes do chamado Cinema Marginal brasileiro, Bressane terá sua obra reconhecida pela primeira vez no Festival de Cinema de Gramado. Desde que começou profissionalmente na sétima arte, em 1965, como assistente de direção de Walter Lima Júnior, ele dirigiu mais de 40 longas-metragens com orçamentos baixos e roteiros complexos, que fogem dos clichês cinematográficos. A 36º edição do festival, que acontece de 10 a 16 de agosto, homenageará o diretor com o Troféu Eduardo Abelin, prêmio concedido a grandes nomes do cinema nacional.

Filmes como Cleópatra (2007) e Dias de Nietszche em Turim (2002) traduzem o cinema profundamente ligado ao conteúdo produzido pelo cineasta. Seu mais recente trabalho, A Erva do Rato, realizado ao lado da diretora Rosa Maria Dias, foi selecionado na última terça-feira, 29, para a Mostra Horizontes do Festival de Veneza, sendo a sexta participação do diretor no evento. Nesta entrevista, Júlio Eduardo Bressane de Azevedo, de 62 anos, revela o quanto é difícil viabilizar seus filmes e seu descontentamento com o cinema brasileiro.

Como você começou no cinema?
Eu comecei a fazer cinema com dez anos de idade, ganhei uma câmera de presente e um projetor e comecei a fazer filmes. Foi assim que eu comecei.

Quais as influências para realização dos seus filmes?
Minhas principais influências vieram da leitura sistemática que eu fiz ao longo da minha vida. Autores como Dante, Camões, Shakespeare sempre estiveram muito próximos a mim. No meu ponto de vista, nunca dividi o cinema em escolas, eu sou um especialista em cinema mudo. Eu comecei a me interessar pelo cinema que se fazia no início e até hoje tenho mais interesse em cinema mudo do que falado.

No início dos anos 1970, na época da ditadura, você se exilou em Londres. Como a experiência deste exílio se refletiu na sua obra e se ainda está presente em seus trabalhos?
Foi muito importante. Foram os melhores anos da minha vida, foram os quatro anos que eu passei fora do Brasil aprendendo e estudando. Procurando transformar, trocar a pele da mediocridade que todos nós usamos.

Em 40 anos de carreira, você dirigiu mais de 40 filmes. Como você avalia o fazer cinema hoje comparado com o daquela época?
Não sei avaliar isso. Fazer cinema pra mim sempre foi uma necessidade. Eu faço cinema por necessidade. Eu tenho uma necessidade do cinema. Sempre foi muito difícil e sempre foi um esforço muito grande.

Como você vê o cinema nacional nos dias de hoje?
Do ponto de vista artístico, o cinema brasileiro, hoje, está com a imagem esterilizada. Um trabalho longo, que no decorrer destes últimos 36 anos foi feito com muito método, com muita atenção e muita diligência. Foi esterilizado o que havia de artístico na imagem do cinema brasileiro. Transformaram nisso que o cinema brasileiro está hoje, um cinema de executivos e de burocratas, quer dizer, a imagem artística foi minuciosamente, milimetricamente e cuidadosamente esterilizada.

Você realiza filmes de baixo custo e de produção rápida. Essa foi uma maneira, um modo de produção que você encontrou para viabilizar o trabalho e driblar aquela premissa de que no Brasil é difícil fazer cinema?
Não, porque no gueto em que fui jogado, eu nunca tive acesso a dinheiro de produção nenhum. Ao contrário de outros produtores que fazem filmes de 10, 12, até 15 milhões, eu tive todos os guichês fechados pra mim. Quando eu encontrei alguma possibilidade, foram migalhas, e com essas migalhas eu fiz os meus filmes. Houve muito investimento no cinema, mas eu não tive acesso a isso. Os produtores de cinema ficaram ricos, pessoas que não tinham um tostão fizeram filmes que não deram um tostão e terminaram todos ricos. Eu que não tive acesso a essa gruta de Ali Babá, o fundo de onde se tira dinheiro para o cinema brasileiro. Eu fiz um cinema que remou contra essa maré.

O Troféu Eduardo Abelin já foi concedido a cineastas de destaque como Carlos Reichenbach, Carlos Diegues, Tizuka Yamasaki e Hector Babenco. Qual a importância deste reconhecimento de sua obra?
O Festival de Cinema de Gramado pra mim sempre foi um festival lamentável, porque eu nunca tive filme convidado para ir. Esse festival sempre foi dominado por produtores que sempre fizeram questão de excluir meus filmes. Tanto que nenhum filme meu passou em Gramado. Apenas um foi apresentado aí, o Brás Cubas, sendo que deram o prêmio ao fotógrafo e não ao filme. Mas eu aceitei o prêmio Eduardo Abelin porque o Festival de Cinema de Gramado, de uns tempos pra cá, está procurando sair da terra arrasada onde ele foi deixado por quem o administrou antes. Agora, está procurando uma nova orientação, e dessa forma vão tirá-lo da sepultura, arrancar da cova esse festival. Como é uma nova administração e, vamos dizer assim, um novo pensamento que o está norteando, eu aceitei o prêmio. Talvez até passe por aí o fato de terem me indicado. Mas eu vou aceitar de um festival do qual não deveria aceitar nada, já que fui sempre excluído. Nada mais antipático em toda a minha carreira cinematográfica do que o Festival de Gramado. Mas agora mudou, mudaram as pessoas e certamente vão mudar as coisas, por isso eu aceitei e fiquei de uma certa maneira até surpreso.

O que você está produzindo agora e quais os próximos projetos?
Estou trabalhando em dois projetos, são dois longas-metragens. A Erva do Rato será lançada este ano e estou preparando um outro, que se chama O Beduíno.

2 comentários em ‘Júlio Bressane, um cineasta por necessidade’

  1. > Mojica e Bressane em Veneza « Cine Baltimore:

    [...] Já A Erva do Rato é um filme do Bressane que foi buscar inspiração na obra do Machado de Assis. Não tomei conhecimento ainda, mas encontrei uma entrevista super-bacana com o Bressane no Blog do Cine Semana. Confira aqui. [...]

  2. LEDA DE PAULA:

    ESTOU MUITO FELIZ EM SABER QUE VC ESTÁ BEM E TRIUNFOU NA VIDA.EU SOU AQUELA PROFESSORA DE PORTUGUÊS QUE DAVA AULA P/VC QDO BEM PEQUENO(ATÉ OS 15 ANOS NA CASA DA SUA MÃE D.CARMEM)FOI MUITO BOM ENCONTRÁ-LO.MATEI UM POUCO A SAUDADES DAQUELE MENINO TÃO INTELIGENTE E CARINHOSO.SEJA MUITO FELIZ,POIS VC MERECE.SOU CASADA HÁ 40 ANOS E TENHO 2 FILHOS MÉDICOS,MAS NUNCA ESQUECI DOS MEUS ALUNOS.QUEM ESCREVE É MINHA FILHA E O E-MAIL DELA É:RP-SANCHEZ@UOL.COM.BR.BJS,LEDA,SUA EX- PROFESSORA

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