O professor de rock
- Publicado sexta-feira, 04.07.2008 por Julia Dantas
- Entrevista
O entrevistado da edição 36 do CineSemana, já nos cinemas, é Frank Jorge, que já participou de cultuadas bandas de rock como Graforréia Xilarmônica e Cascavelletes, além da mais recente Cowboys Espirituais. Hoje, ele integra a Tenente Cascavel, banda formada por ex-integrantes da TNT, também nascida na década de 80, e da própria Cascavelletes, além de investir na carreira solo. Seu terceiro disco deve sair até o final deste ano pela gravadora Monstro, de Goiânia. Além de músico, Frank está à frente do curso de Produtores e Músicos de rock, onde ocupa o cargo de e ministra aulas para jovens que almejam ingressar no concorrido mundo da música. Amanhã, dentro da programação do Gig Rock, em Porto Alegre, ele se apresenta no palco do Porão do Beco, e, ainda este mês, parte com a Tenente Cascavel em turnê pelo interior do Estado. Confira aqui a íntegra da entrevista.
Teu trabalho sempre teve toques de humor, como tu vê essa relação entre humor e música?
Acho que em todas as bandas, principalmente desde os anos 60, os caras querem tirar alguma chinfra sobre um assunto ou outro. Garotas, carros, drogas, noite, relacionamento, mas acho que o humor, principalmente dentro da música popular, é algo muito natural porque faz parte da vida. A pessoa, tendo passado por reveses, problemas ou não, tem lá um maldito senso de humor. Até o Velvet Underground, banda norte americana oposta ao flower power, vestida de preto fazendo microfonia e alusão a drogas, eles também têm um sarcasmo numa época que o rock era veiculo para coisas mais doces ou psicodélicas. A gente sempre usou com naturalidade, nunca fez um trato de ser uma banda engraçadinha, à semelhança do que seriam os Mamonas Assasinas ou Língua de Gato. Algumas das nossas músicas soam engraçadas, outras não tem nenhum elemento humorístico. Mas o showbussiness de modo geral nos pede que leve às pessoas uma visão bacana, mais pra cima do mundo. Mas não é algo que eu acorde e pense “tenho que abordar humor numa letra, tenho que ser um cara bem humorado”. Tem dias que o cara tá que é um urtigão, como qualquer pessoa.
Você fez parte de uma das mais cultuadas bandas do sul do País. O RS ainda é um celeiro do rock?
Essa idéia é mais um dos clichês da nossa superioridade gaúcha que é uma grande bobagem. Não é feio ter orgulho da sua terra, das suas tradições, mas o RS tem isso de maneira bem diferente em comparação com a postura de outros estados. Acho que no rock a gente não é melhor nem pior que outros estados. Acho que a gente tem, sim, uma tradição roqueira, um volume de bandas e shows, mas isso de maneira alguma nos torna melhores. Tem estados com bandas muito boas, muito criativas. Em Pernambuco, a cena de Recife é muito rica. Próprio Rio e São Paulo estão cheios de bandas legais. Ainda sou um entusiasta da produção feita em Porto Alegre, minha cidade natal, e recebo material de todo Estado, mas acho completamente desnecessário enxergar o RS desse jeito porque tem muita coisa acontecendo com mais intensidade, por exemplo, em Goiânia, onde tem dois festivais, o Goiânia Noise e o Bananada, e em Recife tem o Abril Pro Rock e o Rec Beat. Porto Alegre agora tá iniciando um clima de ter certa continuidade com o Gig Rock.
Essa produção constante tem um caráter próprio?
A gente já viveu em outras épocas com menos circulação de informações, quando não existia internet. O pessoal pra conseguir um disco ou uma música rara tinha que ficar de olho no rádio ou alguém que trouxesse um LP importado ou garimpasse um disco num sebo. Era uma época que tu tinha que ser mais criativo para chamar atenção, criar algo novo. E hoje com uma geração grande com acesso a muita informação, tu vê bastante reprodução de um mesmo tipo de som. Hoje vejo isso mais em outros estados até, o rock gaúcho tá muito em cima do rock internacional, muita banda que soa como Strokes ou banda parecida com Cachorro Grande que, por sua vez, também não soa tão original assim. Mas não vejo isso como quem lamenta ou diz que tá tudo horrível.
Deve-se a isso o enfraquecimento das letras nas músicas recentes?
A letra de música, principalmente do rock e do pop, pode, e deve às vezes, ser algo muito bem pensado. Algo que pode nem ter uma grande mensagem, mas é uma boa sacada, uma boa frase, uma sonoridade que cole com a melodia. Então não acho que o rock, ou a música popular, que é um guarda chuva enorme, tenha que ser algo que mobilize as pessoas. Às vezes a vida de uma pessoa pode mudar ouvindo uma letra completamente idiota. O Chico Buarque, que é um exemplo de exímio letrista, tem letras muito simples e boas, e outras rebuscadas, com narrativas, tem vários níveis de produção. É covardia citar ele, que é um cara brilhante, mas acho que a letra às vezes é um veiculo, é mais um instrumento. Um exemplo até curioso é o Renato Russo, que teve algumas sacadas e ganhou uma áurea de poeta e não é. Coloca o trabalho dele ao lado de outros caras e não é tudo isso, tem às vezes um caráter até messiânico. Mas teve seu mérito o Manfredini.
As bandas que estão surgindo têm uma preocupação grande com a letra?
Eu acho uma das coisas mais difíceis fazer uma letra interessante, que não seja uma cagação de moral, mas não seja algo completamente imbecil. Tem bandas com superexposição na mídia que tem letras horríveis, mas não horríveis por serem mal construídas, porque os caras não lêem e pensam que podem escrever. Então tem bandas que são menos pretensiosas e têm letras mais legais. Se tu vai fazer uma letra contando uma história ou uma surreal que não é linear, tem que trabalhar. Em função do mercado e certas urgências, o pessoal atropela muito esse processo e depois que lançou dois ou três discos já se sente uma autoridade. Eu não acho que as bandas se preocupam muito com as letras e ao mesmo tempo acho que o público que consome isso não tá tão preocupado, acaba gostando do pacote inteiro: a banda, o visual, o show. E é interessante observar que tem muita letra de grupo de rock, muito na batida emo, que faz uma letra tão melodramática como no sertanejo. Nada contra também, digo isso numa boa.
Como está a Tenente Cascavel e quais os planos de vocês?
Essa banda surgiu de uma clareza de reunir amigos que nunca tinham tocado juntos com essa formação para atender a demanda de um público querendo assistir TNT e Cascavelletes ou por nunca ter assistido, ou por estar saudoso. Agora temos alguns shows pra acontecer fim de julho e no decorrer de agosto no interior do Estado.
E a tua carreira solo?
Tenho me concentrado no curso de Produtor e Músico de Rock mas eu consegui de uma maneira muito rápida e eficiente, modéstia a parte, gravar meu terceiro disco ano passado no estúdio Tambor do Rafael Ramos. Ele já teve uma primeira mixagem mas ainda está sem lançamento definido. Provavelmente vai sair pela gravadora Monstro Discos de Goiânia, mas não tem uma previsão de lançamento.
Porque um selo de Goiânia?
Por razões diversas. É uma gravadora que recentemente lançou o Júpiter Maçã e a Pata de Elefante, isso mostra o quanto eles estão atentos e interessados em lançar artistas de outros estados. E é uma gravadora que tem a ver com o trabalho, com essa linguagem que a gente desenvolve, é uma questão de identidade pessoal e musical. Aqui é meio santo de casa, a gente tá no dia-a-dia há uns 20 e poucos anos atuando, mas é como se por vezes nossa imagem ficasse mais nítida perante o público. Eu tive uma experiência de lançar o segundo solo por uma gravadora de São Paulo, com distribuição da Trama. Sempre é interessante lançar por outros estados porque abre portas e a divulgação não fica tão focada. É diferente como os veículos de comunicação vêem o material de outro estado. Por pior que pareça, é a verdade: o RS por mais que seja um pólo, tem um nível de respeitabilidade fonográfica muito pequeno.
Como foi transportar o rock para dentro de um universo acadêmico?^
Esse assunto é muito amplo, a Academia vem mudando há muito tempo e mais do que nunca quando é uma instituição privada. Os jesuítas, no caso, da Unisinos, sempre foram super abertos e antenados às mudanças do mundo. Nosso curso vem dessa visão de estar aberto às necessidade do mercado e da minha experiência, que como o Alemão falou esses dias, aprendi tomando paulada na cabeça. Todo processo de ser músico compor, criar arranjar, gravar editar, se relacionar com imprensa, gravadora, festivais, a gente aprendeu na estrada de um jeito em que muitas vezes fez bobagem. Esse curso não tem a intenção apenas de transformar alguém em roqueiro, é formar alguém melhor preparado pro mercado da música.

