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Entrevista: Daniel Galera,
um escritor multitarefa

Daniel Galera - foto de Raul KrebsEx-editor, tradutor e escritor, Daniel Galera já passou por quase todas as áreas que a carreira literária possibilita. Começou escrevendo no fanzine CardosOnline, em 1998, distribuído por e-mail. Em 2001, criou, com mais dois amigos, a editora Livros do Mal, responsável pela publicação de seus dois primeiros livros, a coletânea de contos Dentes Guardados (2001) e a novela Até o Dia em que o Cão Morreu (2003), adaptada para o cinema por Beto Brant no ano passado. Com Mãos de Cavalo, publicado pela Companhia das Letras em 2006 e considerado um dos melhores romances daquele ano, Galera foi alçado pela crítica de promessa à condição de “autor maduro”, adjetivo que rejeita até hoje.

Na época do lançamento do Mãos de Cavalo, saíram muitas críticas dizendo, quase em uníssono, que finalmente você havia se tornado um escritor maduro. O que seria um escritor maduro?

Eu me lembro que usaram muito esse termo pra definir o livro. E até é um negócio que me incomodou, e eu tirei sarro disso. Eu tinha um blog naquela época, e falei que preferia mil vezes ser chamado de escritor adolescente do que de escritor maduro. Porque eu não sei o que diabos quer dizer escritor maduro. É alguém que se conformou? Alguém que cumpriu certos requisitos do que seria a boa literatura? Eu acho besteira. Esse papo de maturidade eu prefiro evitar. Acho que eu estou longe de ser um escritor cujo estilo esteja engessado ou cujos objetivos tenham sido conquistados. Então, maturidade não é um termo que me agrada.

Será que isso serviu ao menos pra te livrar da pecha de escritor jovem?

Não livrou. Eu sou um escritor jovem que escreveu um livro maduro. Não mudou nada.

Você ficou um pouco marcado como um dos primeiros escritores que começaram publicando na internet. Hoje não mantém nem mesmo um blog. Cansou?

Na verdade, quem me chama de escritor de internet, se fosse realmente conferir o assunto do qual está falando, vai ver que, fora aquela época do CardosOnline, em que eu publicava realmente todos os meus textos por e-mail, entre 1998 e 2001, eu nunca mais publiquei nada de ficção na internet. Nunca foi um objetivo meu me manter publicando na internet. Foi uma coisa que eu fiz no início porque havia uns veículos legais que eram lidos por pessoas que me interessavam e eu não tinha livro ainda. Então, usar a internet pra divulgar a minha expressão era uma coisa meio óbvia pra se fazer. Mas quando eu comecei a publicar livros eu nunca mais publiquei ficção na internet. Me tacham de escritor de internet por pura preguiça. Dos “escritores de internet” que existem, eu sou o que menos publicou coisa na web de todos os tempos. É um rotulozinho que não me incomoda, mas também não tem tanta relação com a realidade. Mas depois disso [CardosOnline], eu tive vários blogs, onde eu não publicava nada de ficção. Só falava um pouco da minha vida e o usava pra me comunicar com meu amigos, indicar coisas na internet que eu gostava, essas coisas pras quais o blog serve mesmo. Enfim, tive três blogs diferentes como quase todos os seres vivos na face da Terra hoje em dia. Então, uma hora eu cansei. A coisa do “publica na internet” é um pouco equivocada no meu caso. Mas é isso, eu cansei, eu enchi o saco do meu blog ano passado, deletei e não tive vontade de fazer outro ainda. O bom do blog é que ele é uma coisa descompromissada, na maioria dos casos. Se tu encher o saco, tu destrói ele. Se quer outro, tu faz em vinte minutos e pronto.

A Livros do Mal em 2001, assim como a internet em meados de 1998, serviu como uma iniciativa para vocês se publicarem?

Com a Livros do Mal, o que motivou mais foi a vontade de fazer livros por conta própria. Não foi, no caso, “a única maneira que vamos conseguir publicar os nossos livros será independente, então vamos fazer uma editora”. Nem eu nem o [Daniel] Pellizari, quando a gente criou a editora, tínhamos sequer tentado publicar livros de qualquer outra maneira. Não tínhamos mandado original pra lugar nenhum. Vai saber se a gente ia ter conseguido um editor ou não. A gente nunca vai saber. A gente resolveu fazer a editora porque tinha vontade de editar livros por conta própria, nossos e de outros autores também. Foi mais a vontade de mexer com isso do que encarar como a única alternativa para publicação que teríamos, no caso.

Mas a iniciativa influenciou muita gente. Hoje há inúmeras editoras semelhantes a Livros do Mal, normalmente mantidas por um ou alguns poucos escritores ainda inéditos em busca de espaço. Essa é a melhor saída para o escritor iniciante ser publicado hoje?

Eu não acho que existe uma melhor maneira. Acho que a publicação independente é uma alternativa muito mais sólida hoje em dia do que ela era antes. Os meios de publicação de livros independentes e também a atenção que o público dá a esses livros hoje é maior do que sempre foi. É uma opção boa. Acho que as editoras grandes estão super atentas a tudo isso. Então, qualquer uma delas é interessante pra quem está começando, se o objetivo é um dia ter um contrato com uma editora maior. Elas publicam autores novos. Pouco, mas publicam, e dificilmente publicam o primeiro livro de alguém. Isso é muito raro. Elas querem ter algum tipo de amostra do trabalho do cara pra poder fazer uma avaliação mais sólida. Em geral, elas vão atrás de pessoas que estão publicando por editoras independentes ou editoras pequenas, eventualmente até na internet. Acho que o escritor iniciante tem que fazer sua própria iniciativa, seja onde for, pra dar esse primeiro passo que permite depois uma ponte com editoras grandes, se for do interesse dele. E criar uma editora independente é apenas uma das maneiras de fazer isso.

Em que momento da tua vida tu começou a te enveredar pelo caminho da escrita? E por culpa de quais autores?

Não foi por culpa de autor nenhum. Quando eu comecei a escrever, com 16 ou 17 anos, eu já havia lido centenas de livros. A literatura era uma coisa que me estimulava como um todo. Não existiu o cara que eu li e disse “nossa, olha o jeito que esse cara escreve, quero fazer igual”. Não existe essa figura pra mim. Comecei escrever como experiência, simplesmente me ocorreu que eu poderia fazer isso. Talvez um autor que eu possa citar como referência dos primeiros contos que eu escrevi é o Edgar Allan Poe. Eu não comecei a escrever por causa dele, seria um erro dizer isso. Mas os primeiros contos que eu escrevi, na época do colégio ainda, eu tentei escrever parecido com alguns contos do Edgar Allan Poe.

O que você está lendo no momento e recomenda?

Estou lendo a nova edição do Moby Dick [de Herman Melville], que acabou de sair. É a terceira vez que eu leio o livro, já. E saiu uma edição bem boa, super luxuosa, pela Cosac Naify. Livro de capa-dura, enorme, tem um material bem legal que eles acrescentaram, com glossário e desenhos do navio, que é bem interessante. É um livro que me marcou muito. É um dos melhores romances que eu já li na vida.

Esse teu gosto por livros em edições diferentes, bem acabadas, tem algo a ver com o fato de você ter sido editor?

Acho que o fato de eu ter editado alguns livros especializou meu interesse por edições bem feitas. Mas edições bonitas de livros é um negócio que me interessava desde que eu comecei a ler. Sempre achei que o objeto livro era parte integrante da experiência de leitura. Não é essencial, mas é uma parte que conta. Não tanto pela questão estética, que é legal quando tu está olhando o livro na prateleira. Mas tu ler um livro bem feito, bem diagramado, bem construído muda a tua experiência de leitura. É diferente tu ler Moby Dick num polígrafo ou numa edição da Cosac Naify.

Até o Dia em que o Cão Morreu, seu segundo livro, foi adaptado para o cinema pelo Beto Brant. O quanto você se envolveu nas filmagens e no roteiro de Cão Sem Dono?

Pouco. Dei uns palpites no roteiro, quando eles me pediam. Na verdade, o que eu fiz foi o que eles me pediram. Tentei me manter afastado o máximo possível. Mas, de vez em quando, eles queriam saber o que eu achava de uma parte do roteiro, por exemplo. Uma coisa que eu fiz bem no início foi passear por Porto Alegre junto com os diretores e com o roteirista pra gente ver lugares da cidade onde o filme poderia se passar, lugar nos quais de fato eu me inspirei pra fazer cenas do livro. Eles queriam ver tudo isso com os próprios olhos pra ajudar a imaginar o filme. A gente fez leituras do livro em voz alta, discutindo os personagens. Mas na hora de roteiro e filmagem, minha participação foi quase nenhuma.

Nem assistiu às filmagens?

Fui assistir às filmagens de duas cenas, só pra não dizer que eu não vi nada. Eu não tava muito curioso pra ver, não.

Como foi pra você, do ponto de vista autoral, ver uma obra sua sendo relida por outro autor em outra mídia?

Incomoda um pouco, porque eu tenho muito apego à minha própria versão da história. Por mais que eu confiasse no diretor que tava mexendo nisso, no roteirista, mesmo que eles mudassem isso de uma maneira legal, parecia que estava atingindo alguma coisa, dá uma espécie de ciúme. É uma sensação de estarem mexendo numa coisa que era pra ser tua e de mais de ninguém, quando tu já havia trabalhado tanto pra dar uma forma final. Mas é um sentimento um pouco irracional, que eu combatia com a idéia mais racional de que a adaptação é isso aí mesmo, e tem vários aspectos legais.

Inclusive o de tornar o livro mais conhecido, o que é ótimo pro escritor.

Mas não era nisso que eu pensava, na divulgação do livro. Não sei…

Você faz muitas traduções. Só no ano passado, foram publicadas três. Pode-se dizer que essa é a sua atividade principal hoje?

Isso era verdade até o meio do ano passado, quando eu parei de traduzir. Eu adoro traduzir, mas estava me consumindo muita energia que eu precisava pra escrever e me dedicar a alguns outros projetos. Então, resolvi dar um tempo. Faz mais de um ano que eu não traduzo nada, mas pretendo voltar um dia, porque é um dos trabalhos que eu mais gosto de fazer. É bem gratificante pra mim, mas a tradução é muito exigente em termos de tempo. Durante cinco anos foi minha principal atividade.

Entre as suas traduções estão livros de Irvine Welsh, Jonathan Safran Foer, Hunter Thompson. Você só traduz aquilo que necessariamente gosta e se identifica de alguma maneira ou as propostas para tradução partem apenas das editoras?

Acontecem as duas coisas. Vários livros que eu traduzi fui eu que propus. O livro do [Jonathan] Safran Foer eu tinha lido e fui procurar se alguém tinha os direitos. A Rocco tinha, me ofereci pra traduzir e levei. Em outros casos, me ofereceram. Mas eu tive sorte até hoje porque o que me ofereceram em geral eram coisas de que eu gostava. Não meus autores favoritos, mas ao menos coisas que achava interessante de traduzir.

E você teria problema em traduzir algo que tu considera ruim?

Se eu precisasse da grana e tivesse só aquilo pra fazer, eu ia fazer. Eu consegui nesse tempo todo trabalhar praticamente só com livros que eu gostava. Mas se eu tivesse só um livro que eu não gosto à disposição e eu estivesse precisando fazer isso pra trabalhar, eu iria fazer. É um trabalho como qualquer outro. Quando tu tem oportunidade de trabalhar com o que tu gosta, melhor.

Você trabalhou na coordenação do livro e literatura na Secretaria de Cultura de Porto Alegre, em 2005, onde ficou apenas quatro meses. Por que aceitou e por que saiu tão rápido?

Eu aceitei porque parecia uma boa idéia. Era o tipo de trabalho que eu não imaginava no dia-a-dia, mas que a idéia de exercer eu acha estimulante. Foi um convite totalmente inesperado, uma coisa que eu jamais esperava fazer. Tu recebe um convite desses e tem que dizer sim ou não. Eu fiquei em dúvida por uns dias, e pensei que seria até covardia não tentar. Enfim, acabei aceitando e achei que seria possível eu fazer várias coisas legais. Mas a experiência prática mostrou que eu não era muito talhado pra cumprir um cargo público, mesmo um cargo relacionado à literatura, o assunto que me interessa na vida. Além disso, eu já estava escrevendo o Mãos de Cavalo naquela época, e quando aceitei o cargo eu tive a ilusão de que seria completamente possível conciliar um cargo de coordenador com a escrita do meu livro nas horas vagas. O que se provou ser um equívoco completo, porque eu não consegui escrever uma linha a mais, não tinha tempo pra nada. Então, a minha decisão foi, antes que eu assentasse nesse cargo e criasse um vínculo que fosse mais prejudicial de romper depois, eu decidi sair logo. Conversei com o secretário, que era o Sergius [Gonzaga], e a gente se acertou numa boa. E eu já estava também com planos de vir pra São Paulo nessa época. Então, abortei a missão coordenação do livro e parti pra outras coisas que na hora pareceram mais importantes pra mim.

Tarefas administrativas nunca mais?

Não, nunca mais.

Ano passado você foi mandado pra Buenos Aires pelo projeto Amores Expressos, com a missão de escrever um romance sobre amor que se passasse naquela cidade. Isso de alguma maneira chegou a ser um complicador no processo criativo? Nas suas narrativas longas, Porto Alegre, na prática, era um personagem importante.

Não complicou, até ajudou. Quando eu escrevi tudo o que eu escrevi se passando em Porto Alegre, eu não estava pensando “onde vou situar isso: Porto Alegre”. Era uma coisa meio natural, eu estava aí, era a cidade que me interessava, a cidade que eu conhecia. Eu começava a escrever e a história já estava lá, desde o início. Então, foi a primeira vez que eu tive que pensar mais conscientemente como eu ia descrever o cenário do meu livro. Isso não foi difícil, foi estimulante, na verdade. Foi uma mudança que eu estava precisando, depois de publicar três livros, todos situados em Porto Alegre. E foi fácil, acabou não tendo complicação nenhuma. Foi mais um estímulo, mesmo. Foi a hora certa de explorar um cenário novo.

E viver em um lugar diferente especialmente pra conceber o livro, não acabou virando uma pressão criativa?

No meu caso não fez tanta diferença. Não dificultou e nem facilitou muito o trabalho de criação. Eu fui pra Buenos Aires com uma idéia previamente pensada pro livro. Quando eu estava lá, eu só fui desenvolvendo. Mas eu não achei que a coisa de estar em outra cidade fez uma diferença radical em termos de ter idéias novas pra história. Acho que eu tive idéias que não teria em outro lugar, mas também não foi aquela chuva de idéias por estar num cenário diferente.

Enquanto você estava lá, escreveu um texto sobre futebol, sobre o desconhecido time do Almagro, publicado na internet. Consideraria escrever um livro sobre futebol?

Eu não escreveria, porque eu não entendo tanto de futebol a ponto de ter segurança pra criar uma história que gire em torno do mundo de futebol. Eu sou um torcedor, às vezes até meio inflamado, do Grêmio, mas eu não sou um conhecedor de como o futebol funciona e de como é a vida de um jogador ou qualquer coisa desse tipo. Seria um tema que eu não teria segurança pra encarar. Com o futebol, eu prefiro ficar na posição de torcedor. Mas acho que é um tema que poderia render romances excelentes. É um tema que parece fazer falta, um pouco.

Talvez haja até algum preconceito sobre o futebol não ser muito “literário”.

É uma besteira. Não tem nada que não seja literário. Pode falar de ópera num livro, mas não pode falar de vídeo-game, por exemplo. Besteira.

Você acabou de voltar de uma viagem aos Estados Unidos. Vai sair uma primeira edição em inglês?

Não. Quem me dera. Eu fui pra Nova York pra trabalhar um pouco, mas resolvi estender a viagem pra visitar família e tentar conhecer alguns autores e editores que eu admiro. Mas não tinha nada a ver com edição minha no exterior. Bem que eu queria, mas é muito difícil conseguir publicar nos Estados Unidos.

Mas você já foi publicado na Itália e na Argentina.

É. E vai sair em Portugal e na França também.

Você tem algum tipo de retorno do público desses países?

Do público, menos. Na Argentina, eu li umas três ou quatro matérias de jornal que saíram. Pesquisando na internet, eu achei uns três comentários em blogs falando dos livros. Fora isso, é difícil ter uma percepção do que o público achou sem estar lá, se é que teve algum tipo de repercussão.

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