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Entrevista: João Guilherme Estrella deixa os tempos de Johnny para trás

joaoestrellaNo CineSemana que começa a circular hoje (e pode ser baixado em pdf aqui no blog), a matéria de capa é a entrevista exclusiva com João Guilherme Estrella, o protagonista real da história contada em Meu Nome não é Johnny. Ele esteve essa semana em Porto Alegre para lançar seu primeiro disco, Meu Nome é João Estrella e aproveitou para conversar com a gente. Segundo o próprio, o filme pintou um retrato fiel. Carismático, inteligente e engraçado, há apenas uma marcante caraterística que não está no filme e logo chama a atenção ao conhecê-lo ao vivo: a serenidade. Mas isso talvez se deva ao fato de que quem conhece João Estrella hoje está diante da versão amadurecida do garoto irrefreável que passou dois anos internado em um manicômio.

Ao falar de música, ele se enche de orgulho. Ao falar de si mesmo, é completamente ciente da imagem que criou ao expor sua vida e o papel que assumiu ao contá-la em livro, filme e palestras. Quando retoma o passado, não há remorso ou vergonha na voz tranqüila. Na questão das drogas, longe de apontar culpados e antes de esquentar o debate, João Estrella humaniza o problema. A sua trajetória é a prova de que o submundo das drogas não é tão “sub” quanto se costuma pintar. Aqui você confere a íntegra da entrevista com trechos inéditos.

O seu nome está em livro, filme e disco. Qual o lado bom e o ruim de ser quase uma grife?
Tem sido bom porque você fica criativo, canaliza a energia para coisas positivas, aparecem novas propostas de trabalho, estimula muito para as palestras e debates que eu gosto de fazer com todo tipo de pessoas. Já fiz debates com presos, com menores infratores, juízes, desembargadores, alunos de colégios particulares, públicos, faculdades, empresas. Você se sente bastante útil, colaborando com a experiência para alertar principalmente a molecada mais nova que às vezes faz coisas sem saber até onde aquilo pode chegar.

O filme ajuda na promoção do disco?
Já ajudou a negociar contrato com ã EMI porque tem uma música no filme. Fiz muito contato na internet com pessoal que leu o livro, viu o filme, são pessoas que hoje estão ouvindo as músicas e gostando. Acho que tudo faz parte da minha história, uma coisa puxa a outra. Quando saiu o livro, os produtores de cinema ficaram interessados, quando o filme saiu trouxe o livro de volta com uma vendagem enorme, são mais de 60 mil vendidos em pouquíssimo tempo. São trabalhos diferentes, apesar de o disco ser como um fechamento para toda a história.

O que atrai os jovens para o mundo do tráfico?
Acho que tem dois tipos de abordagem nesse assunto. Em todas as classes, média, alta e baixa, tem o atrativo da grana e do poder. Mas tem alguns temas diferentes. Nas comunidades de baixa renda, os jovens não têm muita opção. Poucos conseguem uma obra para trabalhar e vão continuar na miséria e sendo escravos. Então eles vão para o tráfico pela falta de oportunidades. E o jovem de classe média e alta começa muito pela aventura, em busca de liberdade, sem noção do que aquilo significa, como foi o meu caso. Não me sentia um criminoso porque não estava assaltando ou roubando banco. Não usar armas desassocia as drogas da idéia de ser crime. E é estranho porque tudo é muito controverso. Tem drogas permitidas e outras não. Tem gente sendo presa porque não é deputado, senador ou juiz. Então as pessoas que deveriam dar exemplo, não dão. Ganham uma puta grana roubando e saem da prisão em três ou quatro dias. É uma carência de exemplos absurda.

Quando você estava traficando, tinha noção da grandiosidade do esquema que tinha armado?
Chegou uma hora que essa ficha caiu. Mas na verdade, quando a Polícia Federal me pegou que eu tive uma certa noção da importância que já tinha a história porque eram muitos agentes com mandatos para três apartamentos, uma situação muito grave. Quando eu comecei a negociar na Europa eu ainda brincava muito com aquilo, mas já tinha uma noção que era mais arriscado, que estava grande. Mas em relação à Europa o que eu fazia era praticamente nada comparando com os negócios que outros países fazem. Em uma viagem, um traficante chega a ganhar 150 milhões de dólares, são quadrilhas enormes, eu era um só.

Se você não tivesse sido pego, onde acha que estaria hoje?
Eu ia começar a trabalhar, ia dirigir uma casa de shows com um amigo. Em relação ao tráfico, eu fui preso na que seria a minha última viagem e depois tentaria ganhar dinheiro com outra coisa. Isso ia fazer com que eu diminuísse também o consumo, porque com dez quilos em casa, você multiplica muito o uso. Eu já tinha vontade de parar, não sei como eu ia conseguir, mas não acho que eu fosse morrer de overdose ou ficar maluco, acho que eu ia sair fora.

O que tinha te levado à decisão de mudar de vida?
As pessoas dizem que é uma vida fácil, mas é um inferno, chega uma hora que você não vai ao cinema, está sempre naquela função o tempo todo e correndo riscos. Eu, volta e meia, ficava um tempinho sem usar, queria mudar mesmo. Eu estava cansado daquela vida só de bares, festas e drogas. Chega uma hora que enjoa.

A sua representação no cinema foi fiel?
Ficou, está muito boa. Eu gostei

Você ajudou o Selton Mello?
O momento mais importante que a gente teve em relação ao filme foi a cena do julgamento. Eu estive lá conversando, e ele gravou de primeira em um take só, depois a gente ficou umas duas horas batendo um papo sobre como tinha sido. Foi um momento bem mágico das gravações, porque é difícil gravar uma cena daquelas de primeira. Teve um lance emocional ali muito mágico, como no dia do julgamento. A gente não fez um laboratório de ficar dias se encontrando.

Mas você estava presente?
Eu estive. De 40 locações eu devo ter ido em umas dez ou 12. Mas não fiquei de chato perturbando, não. Quando me procuravam, eu estava disposto a colaborar.

Comparando a corrupção policial de hoje com a que você encontrou anos atrás, o que mudou, está melhor ou pior?
Acho que continua no mesmo ritmo. Acho que não se mudou muito nem na qualidade do efeito e na qualidade dos salários. Provavelmente o efetivo deve ter aumentado, ao invés de aumentar a qualidade do que se tinha. Os salários são realmente muito baixos, o que faz com que a corrupção se alastre. Assim como tem que se dar oportunidade aos jovens da favela, acredito que a grande maioria que está no crime se pudesse ter uma profissão, teria trilhado outro caminho. E assim é com os policiais corruptos. Se eles tivesse condições de trabalho e fossem bem remunerados, toda sociedade vai andando junto e melhorando. Você vê países em que as pessoas não usam nem armas. Condições que eu acho que um dia a gente vai chegar. Espero.

Você é um otimista, pelo jeito.
É, o país está crescendo. A corrupção não se extingue, nem as drogas. Mas pode se chegar a níveis que não comprometam o crescimento da sociedade toda. Os caras adoram dinheiro, mas com esse petróleo e tanto dinheiro circulando, talvez nego deixe um pouco para quem precisa.

Você é a favor da legalização das drogas?
Eu sou. Sou a favor da liberdade de expressão, de consumo, com responsabilidade em relação a sua própria pessoa. Se você atinge terceiros, já é um problema. Se você vai em um bar, toma uma porrada de chope, volta pra casa de carro e mata duas pessoa no meio da rua vocês está atingindo outros. Para você ter a liberdade do consumo e da oferta de todos esses produtos que estão sendo oferecidos ilegalmente, a legislação tem que ser bem aplicada. Se você quer cheirar cocaína, ninguém vai te impedir, seja legal ou não. O uso do próprio corpo é um direito. O seu organismo é uma propriedade privada, mas não se pode cometer nada contra terceiros. Como na Holanda, você tem a liberação do consumo, mas o tráfico é ilegal e combatido porque prejudica outros, é diferente de comprar o que você quiser em um bar. Eu bato muito na tecla do álcool, porque muitos adultos olham para um cara que cheira pó como um grande marginal, quando na verdade é a mesma coisa. Os índices de destruição do álcool são avassaladores. Nas causas de homicídios, acidentes de automóvel, brigas em famílias, o álcool está em primeiro lugar e a cocaína em sexto.

Você é retratado no filme de uma maneira muito carismática e bem humorada. Em algum momento, você teve medo que isso pudesse tornar o mundo do tráfico atraente?
O mundo do tráfico eu não diria, mas o mundo das drogas já é atraente, não precisa de mim. A gente só quis contar a história, e a história foi daquele jeito. Porque eu ia tirar o humor, se ele aconteceu? Acho que o humor foi fundamental para a minha sobrevivência dentro da prisão. E mesmo se você está livre, mas nunca se diverte, só trabalha, fica triste e solitário, e aí? Você não aproveita nada. Você não precisa estar preso para…

Para estar preso?
Isso! Boa. Se divertir te dá energia para suportar outras coisas.

O que você fez para não enlouquecer no manicômio?
Quando entrou um violão, eu consegui me divertir e consegui compor. Eu tocava para os loucos e eles dançavam nas galerias. Eram festas bem fellinianas, bem doidas. Tivemos momentos engraçados. Tem que colocar a cabeça para funcionar e achar maneiras de rir, tirar algum proveito. Não só no humor, mas também no amadurecimento. Passar a se observar mais, coisa que até então não fazia, ficava só exteriorizando.

Ser mandado para um manicômio e não para a prisão foi importante na sua recuperação?
Não vejo muita diferença porque são celas do mesmo jeito. No manicômio tem psicoses gravíssimas de gente que precisa tomar toneladas de remédio para não ter crises e assassinar a cela inteira. Não tem muita diferença, prisão é prisão.

A sua família apoiou você nesse período e depois?
Me apoiou bastante. Agora colhem frutos. Minha mão vai ser avó pela primeira vez em setembro. Vou ter um menino, Antônio.

E quando ele crescer, como vai ser o diálogo na adolescência sobre drogas?

Não estou querendo planejar, não, mas pelo menos esse assunto eu vou poder introduzir com mais facilidade. Ser pai é um universo gigantesco, não apenas. Mas pelo menos nesse assunto eu sou bacharel. Acho que o mais importante é o timing. Qual o melhor momento para o assunto “x”, em que ele vai ser aproveitado pelo seu filho e por você.

Como está sendo entrar no mundo da música, que é visto como um meio muito relacionado às drogas?
O artista sempre foi tido como o vagabundo, o consumidor de drogas, mas na verdade isso está em qualquer lugar. O filme mesmo mostra gente vendendo drogas no Fórum do Rio de Janeiro. Acho que o artista se expõe mais, então fica quase um clichê. Mas as pessoas que eu conheço nesse meio estão todas mudando de rumo e curtindo uma onda mais legal, mais lúcida. Para mim é mole, não me incomoda mais, já enjoei.

As composições do álbum vêm desde que época?
Desde 96, quando eu estava preso no manicômio. Tem duas canções feitas lá. Até o último dia da gravação, que eu acabei fazendo uma música no estúdio nos 45 do segundo tempo.

Além do lançamento do seu primeiro CD, tem planos para shows na região sul?
Hoje não, mas vamos programar. Hoje a gente está lançando o disco e o livro com a capa nova, que é o pôster do filme. Mas o foco é no CD, o filho mais recente.

Você escreve e compõe as músicas?
São dez músicas. Uma é releitura dos Secos e Molhados, um arranjo que eu fiz para o Patrão Nosso de Cada Dia e tem mais nove músicas, eu sou autor das nove, sendo que tem uma parceria com o meu irmão, Ande Estrella e outra com o Rodrigo Santos, do Barão Vermelho. Eu gosto de escrever as letras, é gostoso.

O que te inspira?
Olha, cada momento da sua vida te leva para algum lugar. É engraçado. Essa música que está na novela, Madrugada, eu toquei uma base que eu vinha fazendo enquanto a gente escolhia a última música para colocar no disco. Eu fiquei brincando com aquela base já pensando em outro disco, e o produtor me disse “mas isso é legal”, aí trabalhamos nela e tive que fazer a letra de noite. Não lembro o que me inspirou, foi como uma avalanche, veio rápida.

Foi a própria madrugada?
É, fiz de madrugada mesmo. Mas eu acho que quanto mais você está vivendo coisas, se emocionando, triste ou alegre, agitando a tua vida, fazendo ela andar, isso inspira bastante. Nessa fase de lançamento do livro, do filme e da gravação do disco eu escrevi muita coisa. Vou até lançar um livro de poesias. Vai ser meu com poesias de convidados. Poesias de uma página, não mais que isso.

Sai esse ano?
É o que eu pretendo, mas agora os convidados precisam começar a enviar as suas e estou falando com algumas editoras.

Um comentário em ‘Entrevista: João Guilherme Estrella deixa os tempos de Johnny para trás’

  1. Tommy Beresford:

    Parabéns pelo site, que estou neste momento inserindo no Blogroll do meu recém-lançado blog

    Cinema é Magia
    http://cinemagia.wordpress.com/

    Um abraço, bom fim de semana e sucesso.

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