Entrevista: Jorge Furtado, entre a televisão e o cinema
- Publicado sexta-feira, 04.04.2008 por Julia Dantas
- Cinema, Entrevista, Televisão

Nosso entrevistado da semana tem 27 anos de carreira em televisão, 24 anos no cinema, um currículo tão extenso quanto elogiado e muita opinião para dar. A assinatura de Furtado está em filmes como Saneamento Básico – O Filme, Meu Tio Matou um Cara e o clássico Ilha das Flores, além de séries televisivas como Os Normais, Cidade dos Homens e Antônia. Aqui você confere a íntegra da entrevista com os trechos que ficaram de fora da edição impressa.
Você prefere escrever ou atuar na direção?
Na verdade, eu prefiro os dois. Eu prefiro alternar os dois porque são trabalhos muito diferentes. Até pouco tempo eu preferia só escrever. De alguns filmes pra cá, quando eu comecei a fazer os longas, eu comecei a me interessar e me divertir mais com a direção, no trabalho com os atores. O que também é bem extenuante e por isso eu gosto de revezá-lo com o trabalho de escrever. Eu fico até seis meses ou quase um ano escrevendo. E aí fico a fim de dirigir e vou fazer um filme. O escritor fica sentado sozinho, no conforto, em silêncio, e o diretor é o oposto disso. Pode ficar na chuva de pé falando com 500 pessoas o dia inteiro. Mas nunca me passou pela cabeça dirigir um roteiro que não fosse meu.
Como é que você foi parar na TV?
A primeira coisa que eu fiz foi TV, em 1981, na TV Educativa em Porto Alegre. Foi lá que eu comecei, trabalhando como assistente de produção. A gente fazia um programa, um grupo de alunos da Ufrgs. Já existia um movimento de cinema em Porto Alegre, os super-oitistas, o Gerbase, o Giba (Assis Brasil), Ana (Azevedo), Werner (Schünemann), uma turma fazendo super-8. Mas eu comecei na televisão, e mal conhecia essas pessoas. Dentro da televisão a gente fez um grupo para fazer um curta. Meu primeiro filme é de 84, O Temporal, dirigido com o José Pedro Goulart.
Qual é a diferença de escrever para o cinema e para televisão? Há uma liberdade para criar maior no cinema, ou nem tanto?
Olha, liberdade é uma palavra bastante relativa. Pensa no autor: se considerar que eu estou escrevendo uma coisa, que eu tenho uma produção maior, mais grana para fazer o trabalho, teoricamente eu tenho maior liberdade criativa na hora de escrever. Eu posso querer fazer uma cena com 300 pessoas numa festa e acontece uma briga, e isso aí é caro de fazer. Sabendo que estou na televisão, então, teoricamente poderia dizer que eu tenho maior liberdade criativa. Mas por outro lado, no cinema tu tem um compromisso com menos gente. Porque a televisão é para 30 milhões de pessoas e o cinema é para um público muito mais reduzido. Isso te dá uma liberdade para um outro lado. Na televisão, por exemplo, tu não pode fazer piadas referentes a filmes, a livros ou a outras coisas assim, pois a imensa maioria do público não tem acesso a essas coisas. Tu tem mais liberdade para criar no cinema em alguns aspectos.
Como é escrever para outra pessoa dirigir?
É bem mais normal. Faço seguido assim, escrevo e geralmente em parceria com os outros diretores. Porque é muito difícil tu dirigir um negócio que tu não participou do texto. Todos os diretores que eu trabalhei como roteirista, o Guel (Arraes), a Monique Gardenberg, o (Carlos) Gerbase, eles fazem juntos o texto.
Seus filmes foram, aos poucos, perdendo alguns traços regionais. Foi uma escolha consciente para não ficar marcado como um diretor gaúcho?
Não. Eu acho que cada projeto é uma coisa, eu procuro fazer cada filme bem diferente do outro, e acho que eles são diferentes. O Houve uma Vez Dois Verões era um filme de baixo orçamento feito em digital com jovens de 16 anos. Não existem grandes atores de 16 anos em lugar nenhum, então tentei pegar pessoas novas, que estavam começando a carreira e eu acho que têm talento. No caso do Homem que Copiava, os personagens têm 30 anos, aí tu pode escolher, como no Meu Tio Matou um Cara. Mas cada um tem uma cara diferente. O Homem…, que se passa em Porto Alegre, precisa se passar ali, porque a ponte do Guaíba é quase um personagem do filme.
Seu filme mais elogiado pela crítica até hoje é Ilha das Flores. Você também o considera o seu melhor trabalho?
Não é minha tarefa avaliar isso. Meu dever é fazer. Eu reconheço que é um filme pelo qual eu fique mais conhecido e que tem uma repercussão até hoje, porque ele tem ao mesmo tempo uma experimentação de linguagem e um tema muito forte. E eu continuo vendo o filme em mostras e acho que ele continua muito bom e, infelizmente, atual.
Você pensa em voltar a fazer documentários?
Não acho que o Ilha seja exatamente um documentário, mas eu gosto do gênero e já dirigi outros, como Essa Não é a Sua Vida e, mais ou menos recentemente, um chamado Oscar Boz. Eu gosto e sempre penso nisso e na possibilidade de misturar as duas coisas.
Depois do Ilha, você adotou abordagens mais leves, se afastando das questões sociais. Por quê?
Todo filme reflete a sociedade na qual é produzido. Mesmo que tu não queria, qualquer filme é político. Tende-se a achar que as comédias são menos engajadas socialmente, mas eu considero isso um erro. Voltaire dizia que a ópera As Bodas de Fígaro, uma comédia, era uma revolução francesa já em marcha, porque se era possível alguém debochar daquela maneira da nobreza significava que ela já estava decadente. Não acho que o filme tenha que ser sério para ser socialmente engajado.
Desde o começo de 2003, o público brasileiro começou a cair…
Mais ou menos. Na verdade, de 1993 a 2003, o público subiu sem parar. Dez anos depois, esse número chegou quase em 23%. Foi o ano do Carandiru, do Lisbela e o Prisioneiro. Em 2004 caiu, mas desde então se manteve. Eu acho que falta filme com público médio. Alguns filmes tiveram muita bilheteria e a maioria fica com bilheteria baixa.
Essa retomada de público é uma resposta a um crescimento de qualidade?
Sem dúvidas. A safra de 2007 é das melhores que eu já vi. Eu não lembro de um ano com tanto filme brasileiro bom. Talvez o ano de 1979, que tem Terra em Transe, Todas as Mulheres do Mundo. Podia até fazer esse levantamento.
Você já comentou que muitas vezes o cinema brasileiro acaba não tendo gênero e sendo um gênero.
Isso é um equivoco de classificação, os filmes brasileiros não constituem um gênero. O que acontece é que a gente classifica as coisas para poder mais facilmente encontrá-las. Por isso se colocam livros em ordem alfabética ou separa por poesia e ficção. As pessoas procuram os filmes assim, ainda que eles sejam totalmente diferentes. Ainda no Cinema Novo, podia-se dizer que aqueles filmes se pareciam muito, mas hoje os filmes brasileiros são muito diferentes uns dos outros. A pessoa que diz que não gosta de filme brasileiro ou não conhece ou tem um preconceito absurdo porque não é possível não gostar de nenhum.
Para o cinema brasileiro competir com filmes de Hollywood é uma questão de produção?
É uma questão de produção, mas de divulgação também. Os filmes precisam encontrar o seu público, porque eu canso de ver pessoas que vêem filme brasileiro com muito atraso. Vêem agora o Bicho de 7 Cabeças e acham ótimo. Os filmes ficam muito aquém do potencial de público deles. Tem a ver com a qualidade, a quantidade, são muitos fatores.
Alguns festivais exigem ineditismo, e acabam sendo exibidos filmes meio fora do contexto das pessoas que estão lá. Isso atrapalha na formação do público, que deveria ser um dos papéis dos festivais?
Eu acho que sim. Nesse sentido, os festivais perderam um pouco. Porque o sentido de um festival é promover os filmes. Fazer com que eles cheguem a um público que normalmente não o veria, e em cidades onde normalmente não chegariam. Os festivais perderam isso porque nem sempre é bom tu colocar teu filme em um festival. Se põe muito antes do lançamento, pode queimá-lo porque tira o impacto. Os filmes que acabam em festivais são os que se sabe que não vão ter público. Se criou até uma categoria de “filmes de festival”. Mas eu acho que fazer filme para festival é transformar o cinema em artes plásticas.


Escrito sexta-feira, 19.09.2008
Amei a entrevista. De muito bom gosto. Porque Jorge Furtado é Jorge Furtado…Não temos muito o que dizer. Gostaria só de pedir uma coisa: vcs podem me mandar um e-mail para contatos com o Jorge Furtado? Por favor. Tô fazendo uma pesquisa
para um trabalho de teoria da Comunicação.
Vc iriam me ajudar muito. Mandem-me por e-mail, se possível.
mylla_guimaraes@hotmail.com
Obrigada!!!!
Milene Guimarães