Fumo e cinema - por Moacyr Scliar
Na edição de 4 de abril, uma das matérias principais tratou do cigarro como é mostrado no cinema. Por isso, convidamos o escritor e médico da saúde pública Moacy Scliar para escrever um artigo sobre o tema.
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Fumo e Cinema
por Moacyr Scliar
Em 1951 dois pesquisadores, Richard Doll e Austin Bradford Hill, começaram a estudar, em médicos britânicos, a associação entre fumo e doenças, particularmente câncer de pulmão. Os resultados iniciais indicaram que os fumantes tinham uma mortalidade por câncer pulmonar dez vezes maior que a dos não-fumantes. Desde aquela época, estudo após estudo vem demonstrando a ligação do fumo com numerosos problemas de saúde. Caso você não esteja convencido disso, o que eu duvido, aqui vão algumas recentes informações. Em relação aos não-fumantes, no caso de doença cardíaca fatal o risco é duas vezes maior; duas vezes maior também o risco de acidente vascular cerebral e de úlcera péptica. O câncer da boca, da garganta, do esôfago, do pâncreas, do rim, da bexiga, do colo uterino. é muito mais freqüentes em fumantes, como o são doenças respiratórias, a osteoporose (falta de cálcio nos ossos), certas doenças da retina. Os fumantes têm até mais rugas. Fumar encurta a vida em 5 a 8 anos. E não é a si só que o fumante prejudica. Os bebês de mães fumantes nascem com peso menor, estão mais sujeitos a infecções do pulmão e do ouvido, e apresentam maior risco de retardo mental. As pessoas que estão num ambiente com fumaça de cigarro são prejudicadas, transformando-se em fumantes passivos. Isto tudo sem falar no incêndio, na sujeira, na despesa…
Parar de fumar diminui quase todos estes riscos. Apesar disto, muitas pessoas continuam fumando - ou começam a fumar. E a pergunta é: por quê? Resposta: porque são induzidas a isto. Fumar não é uma coisa natural, nunca foi. As pessoas que começam a fumar passam mal, ficam tontas, nauseadas. Mas, e os índios, alguém perguntará. Eles fumavam, em grandes cachimbos, as folhas de tabaco, mas apenas esporadicamente: um ritual religioso que não chegava a se constituir num problema de saúde.
Aí veio a industrialização. A indústria criou o cigarro, que é mais prático e apresenta uma enorme concentração de nicotina (e de outras substâncias nocivas). Tudo isto com o apoio de maciças campanhas publicitárias que “ensinaram” o público a fumar. O objetivo, como todos sabem, era tornar o fumo glamuroso. O que foi feito de várias maneiras, inclusive através do cinema.
Vamos tomar um exemplo menos conhecido, o do charuto. Charuto, nos Estados Unidos, era uma coisa mal-vista. Por uma razão simples: gangsters muito conhecidos fumavam charuto e eram freqüentemente fotografados assim. O que fez a indústria? Em primeiro lugar, “convenceu” os jornais e revistas a não publicarem mais tais fotos, mas sim as de gente charmosa - atores, esportistas - fumando charutos. O auge da campanha foi alcançado quando Ingrid Bergman, então uma atriz famosa, apareceu num filme dizendo que adorava fumantes de charuto.
Em 2007 o Instituto de Medicina da Academia de Ciências dos Estados Unidos fez um estudo concluindo que:
• Nos filmes, são glamurizados os personagens que fumam, especialmente os jovens;
• O uso de fumo nos filmes estimula jovens a fumar. Jovens não-fumantes que vêem seus astros favoritos fumando têm dezesseis vezes mais chances de começar a fumar do que outros jovens;
• O fumo no cinema é responsável pela iniciação ao cigarro de 52% dos adolescentes.
Quando a propaganda do tabaco foi abolida na tevê, as companhias de cigarro americanas voltaram-se para o cinema. E há nisto uma ironia: quando traillers de filmes são mostrados na tevê, atores e atrizes aparecem fumando, o que é uma burla da lei.
Um filme antigo esse, que mostra os interesses da indústria do tabaco. Tão antigo como os faroestes. E neste filme, o bandido sempre vence.

