Blog do jornal CineSemana

“A produção do Oscar é uma bosta” entrevista com Rubens Ewald Filho

  • Publicado quarta-feira, 27.02.2008 por Gustavo Faraon
  • Cinema

Recém de chegado de Los Angeles, de onde transmitiu a cerimônia do Oscar, o crítico de cinema Rubens Ewald Filho contou ao CineSemana em primeira mão o que achou desta 80ª edição do evento. Sobre os selecionados, os vencedores, a festa de entrega das estatuetas e o próprio tapete vermelho, muita bronca e alguns elogios. Confira:

Como foi o nível dos filmes e profissionais selecionados em relação aos anos anteriores?

Eu acho que cada vez mais está virando um prêmio de arte, de filmes independentes, e a prova disso é este ano ter sido a menor audiência de todos os tempos. Não teve blockbuster, portanto o público não viu os filmes. Só o público de arte viu. É uma opção que o Oscar tomou, e quem sou eu pra reclamar? Na verdade, eu gostaria que houvesse uma mescla. O fato de Ultimato Bourne ganhar três prêmios, por exemplo, eu acho legal, pois foi o melhor blockbuster do ano. Mas aí a Academia não convidou o Matt Damon! Essa foi a pior festa que eu vi. Essa história de indicado apresentar prêmio empobrece tudo. Empobrece até o tapete vermelho. Teria pelos menos uns dez convidados a mais, de gente famosa, se não fosse assim. Por exemplo, o próprio Matt Damon não podia ter ficado fora. Ele foi um dos astros do ano. Mesmo a Keira Knightley tinha que estar lá, ela fez dois filmes importantes em 2007. Eu acho que eles foram incompetentes. Hoje tem escândalo porque a Woopi Goldberg chorou por ficar de fora da montagem dos apresentadores, o que é uma cagada. Sinal de incompetência da produção. A produção do Oscar é uma bosta. Está na hora de mexer nisso. Está muito ruim. E o que foram aqueles números musicais então? Nem show da Disney que já é ruim é tão ruim. Aquilo é uma bosta e acabou com a música, porque as músicas do filme são bonitinhas.

Alguém ficou de fora que merecia ter entrado na seleção ou recebeu menos indicações do que deveria?

O grande prejudicado é O Escafandro e a Borboleta, que talvez seja o melhor filme do ano. Pelo menos tem o mesmo nível do Sangue Negro. E pra mim o filme dos irmãos Coen é bom, mas não é excepcional.

No geral, as premiações foram justas?

Achei boa a premiação. Só premiar a Marion Cotillard já é um feito. E acho que é conseqüência da greve. Ou seja, as pessoas tiveram tempo de ver o filme. As pessoas não estavam trabalhando e o filme já estava em DVD, então tiveram fácil acesso. Isso ajudou o filme. A Marion é beneficiária disso. E na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, elas acabaram dividindo os votos: eram três candidatas fortes, houve uam divisão entre as três e entrou uma quarta. A verdade é essa. E não é injusto, porque a Tilda Swinton é boa atriz, sempre foi ótima.

Sangue Negro não ficou um pouco abaixo do que merecia?

Acho que sim. Acho Sangue Negro melhor que Onde os Fracos Não Têm Vez. Eu não gostava do Thomas Anderson, mas acho que ele provou que é um grande diretor.

Qual foi o grande momento da noite?

Foi uma gracinha que os dois artistas do filme Once ganharam o prêmio de Melhor Canção Original. A música era bonita e o filme era legal. A menina agradecendo foi a melhor coisa da noite. Pelo menos o Jon Stewart teve jogo de cintura. A vitória da Marion também foi bonita.

E o que achou da atuação do apresentador Jon Stewart? Todo mundo sempre critica os apresentadores.

Ele não é uma estrela. E isso é ruim pro show, pra audiência. Por que eu vou ver um cara que eu não sei quem é? A idéia do Oscar é ter uma estrela apresentando estrelas. E ele enfraquece o prêmio.

Os quatro prêmio de atuação foram para estrangeiros, coisa que não acontecia há mais de quatro décadas. Isso pode ser interpretado como um sinal de maior abertura em Hollywood para profissionais que vêm de fora?

O fato de ter um ator espanhol ganhando num filme americano já é um sinal, porque não tem precedente. Não tem ator espanhol fazendo carreira nos Estados Unidos. E o Javier é um milagre que tenha conseguido. É que ele é bom ator mesmo, mas teve uma sorte. Mas acho que sim, é um sinal de abertura.

Como foi o nível dos candidatos a Melhor Filme Estrangeiro?

A categoria de filme estrangeiro continua a ser a grande ferida. Dos candidatos, eu não gostei de nenhum, não tem nada excepcional. Eu acho que os melhores ficaram de fora da primeira listagem. Teve Persépolis, também o filme do Tornatore. Os filmes mais interessantes ficaram fora. Mongol, por exemplo, é uma piada. É uma fita de ação, não tem por que estar ali. O que ganhou é razoável, mas é mais uma variante de filme de campo de concentração.

Por causa desse baixo nível, tem muita gente dizendo que se Tropa de Elite fosse o candidato brasileiro teria mais chances de levar o Oscar.

Tropa de Elite seria queimado em praça pública. Cuspido. Como foi em Berlim. O caminho do Tropa de Elite é esse: polêmica. Os críticos odiaram o filme. E é a mesma Academia que recusou Cidade de Deus e Carandiru. São as mesmas pessoas. Esse aí nem entrava. Não pode misturar Berlim, que tinha o Costa-Gavras como presidente, um cara que adorou o Tropa porque é o tipo de filme dele, que segue as lições dele, um cinema político de ação. É o que ele fazia. Mas é muita limitação das pessoas não entenderem a diferença. Não tem nada a ver. Eu gosto muito do Tropa de Elite, mas ele tem um outro caminho, que é a polêmica. Mas a Academia vai mudar a regra novamente pra filme estrangeiro. Já tinham reformulado do ano passado pra cá, depois do que aconteceu com Cidade de Deus. Agora a grita foi ainda maior. Então vão ter que encontrar outra maneira. Mas eles não tão afim. O negócio deles é filme americano, não estrangeiro. Eles querem é vender o produto deles, não dos outros.

Os irmãos Coen levaram os prêmios de Melhor Filme, Direção e Roteiro Adaptado. Eles estão com essa bola toda ou está havendo um certo hype em Hollywood em cima da figura deles?

Tem sido assim. Nos últimos anos tem sido a mesma coisa. O Scorsese, Polanski foi isso. Tão ganhando o prêmio pela carreira. Em 20 anos tiveram o Fargo lá e só. Nos últimos cinco anos eles também têm feito filme ruim. Esse é o melhor produzido recentemente. Mas não é uma obra-prima, né?

Teu voto de Melhor Filme iria pra quem?

O Escafandro e a Borboleta. É um filme belíssimo e tem uma direção super criativa.

Quem sai fortalecido e quem sai por baixo desse Oscar?

Bom, acho que a indicação da menina de Desejo e Reparação não quer dizer nada. Não adianta dar prêmio pra criança. A gente já viu que não leva a nada. O Eddie Murphy virou objeto de ridículo desde o ano passado, ao fazer a única coisa que ninguém nunca fez, que foi sair da festa quando perdeu. Isso não tem precedente. Não vai ganhar nunca mais. Cuspiu no prato. E esse ano o Norbit foi ridicularizado até pelo apresentador. Ele está virando persona non grata. A Diablo Cody eu acho que virou estrela. Já estava virando. Mas não dá pra saber se vai fazer carreira ou não. Juno, pra mim, é superestimado. Também recebi e-mails reclamando que eu chamei a Ellen Page de homenzinho na transmissão, que isso não é politicamente correto. Mas quem conhece a vida sabe que ela não é atriz, ela está fazendo ela mesma. Está se repetindo. Quem viu o outro filme dela sabe que ela já fez isso em Menina Má.com. Fez bem, inclusive, mas já fez. Não dá pra dizer que ela é grande revelação.

3 comentários em ‘“A produção do Oscar é uma bosta” entrevista com Rubens Ewald Filho’

  1. giu carpes:

    bicha loca, esse ewald! hehe!

  2. Marcelo:

    Concordo com tudo que o Rubens Ewald disse, ele realmente entende de cinema. O melhor crítico de cinema brasileiro! E Juno é uma merda mesmo.

  3. Henrique:

    Concordo com algumas coisas… Sangue Negro é muito melhor que Onde os Fracos, teve uma direção mais elaborada, e por mais que Day-Lewis não precise de uma boa direção pra conseguir resultados impressionantes, P.T Anderson mostrou a que veio. Juno é de fato superestimado, um roteiro inteligente, mas não deixa de ser uma comédia adolescente sobre a vida “adulta”. Ellen Page não é espetacular, e ao meu ver não merecia estar na mesma categoria de Marion Cottilard, é covardia. Nunca simpatizei muito com Rubens Ewald, mas ele disse coisas muito verdadeiras, como a falta do convite pra Keyra e pro Damon, que fizeram filmes bem importantes em 2007.

Deixe o seu comentário

  • Banrisul
  • Unificado

(CC) Alguns Direitos Reservados | Desenvolvido por Top Up - Agência Web | Powered by WordPress