“A falta de memória do brasileiro é que nos mantém em cartaz”: entrevista com Nico Nicolaiewsky
- Publicado sexta-feira, 18.01.2008 por Gustavo Faraon
- Teatro

Juntos desde 1984, a dupla Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky segue arrasando pelos palcos do mundo. Kraunus Sang, com seu violino delirante, e o maestro Plestkaya, com seu acordeom de efeitos fantásticos – como são mais conhecidos os dois maiores artistas da Sbornia –, já se apresentaram nos mais importantes teatros do Brasil e países como Argentina, Equador, Colômbia, Espanha e Portugal, sendo visto por mais de um milhão de pessoas. Depois de 23 anos em cartaz com o espetáculo Tangos e Tragédias, a dupla está lançando seu primeiro DVD, fruto de um show ao ar livre para 20 mil pessoas realizado na Praça da Matriz, em Porto Alegre. Enquanto se preparava para estrear a 21ª temporada consecutiva no Theatro São Pedro, na capital gaúcha, Nicolaiewsky, em alguns momentos encarnando o maestro Pletskaya, deu a seguinte entrevista ao CineSemana:
Tangos e Tragédias é uma mistura de interpretação e música. Qual a origem de vocês, a música ou o teatro?
Nossa origem é a música. Tanto eu quanto o Hique começamos trabalhando como músicos. Eu tocava numa banda chamada Saracura e ele tinha uma dupla, que se chamava Hique e Sabrito.
Como vocês foram levados para o lado da interpretação?
Foi assim: quando agente pensou no Tangos e Tragédia, era uma espetáculo para ser feito em um bar. A gente estava tocando algumas músicas com um acordeom e um violino, e a idéia era fazer esse show num bar. E aí, como musicalmente não tinha uma massa sonora, não tinha uma banda, a gente imaginou que seria interessante ter algumas coisas cênicas para compensar essa falta da massa sonora. Daí surgiram as idéias teatrais.
As músicas que fazem parte do espetáculo foram escritas e compostas de uma vez só, especialmente para ele, ou a peça é uma junção de composições feitas no passado?
O que foi escrito especialmente para o Tangos e Tragédias foi o Copérnico, a Aquarela da Sbornia, A Verdadeira Maionese e The Eleven’s Train, a versão em inglês para Trem das Onze, de Adoniran Barbosa. As outras são canções do Vicente Celestino, como O Ébrio, que foi escrita em 1950, depois tem o Tango da Mãe, que é uma música do Cláudio Levitan, escrita pelos anos 70, quando a gente já tocava no Saracura. E tem também canções do Alvarenga & Ranchinho, a das caveiras (O Romance de uma Caveira) e O Drama de Angélica, que são canções de 1940. A base da peça são mesmo releituras.
Há 23 anos vocês viajam o Brasil com esse show. Qual o lugar que vocês tocaram que mais se parece com a Sbornia?
Eu acho que é Porto Alegre. Mas isso falando da fase boa da Sbornia, né? Porque a gente teve na Sbornia uma fase de muito sucesso, e depois o pessoal foi perdendo o interesse pela nossa música e pelo folclore sborniano que a gente fazia. Foi quando a gente veio pra cá em busca de melhores condições de trabalho. Mas comparando com a fase boa da Sbornia, é Porto Alegre, onde o povo urra feliz e participa integralmente.
Com todos esses anos em cartaz, ficou comum que as pessoas vão ao teatro para ver o espetáculo pela segunda, até pela terceira vez. As piadas e as músicas nunca perdem a graça ou elas são difíceis de entender?
Eu acho é que as pessoas têm uma memória muito fraca. Eu acho que a falta de memória do povo brasileiro – e as pessoas falam muito nisso, na falta de memória do povo brasileiro – é que nos mantém em cartaz.
Vocês estão lançando um DVD do espetáculo Tangos e Tragédias que é apresentado em um palco montado ao ar livre para um público numeroso. Ele é uma versão mais musical e menos teatral do espetáculo?
Não é menos teatral, é apenas diferente. O fato é que começa o show na praça e, de repente, pára a música e eu começo o texto d’O Ébrio. E fica um silêncio mortal. Aquelas 20 mil pessoa em silêncio, prestando atenção, todo mundo me olhando. O que acontece é que, na verdade, como as pessoas se concentraram totalmente, a coisa toda funcionou de uma maneira bem melhor do que o esperado. Como as pessoas estariam de pé e tal, seria normal de imaginar que houvesse uma falta de concentração. Elas não estariam como em um teatro, onde ficam sentadas, a luz bem apagadinha e as pessoas não se enxergam tanto. Mas o fato é que na praça as pessoas estavam muito concentradas no que acontecia no palco, e foi um espetáculo muito feliz porque tanto eu quanto o Hique estávamos muito inspirados naquele dia. Tudo deu certo. Então, tem bastante teatro ali, sim. Mas são “gags” cênicas que se desenvolveram de uma maneira um pouco diferente do que se desenvolve dentro do teatro, por causa do número de pessoas.
Não ficaram com medo que o ambiente diferente e um público muitas vezes maior que o normal pudessem, de alguma maneira, atrapalhar?
Na verdade, o show do DVD tem um roteiro diferente do show do teatro. Como a gente começou em bar, há 23 anos, apresentando um espetáculo de meia-hora pra 70 pessoas, ao longo desses anos já nos apresentamos de diversas maneiras. Tanto em festa, pra ir lá e tocar três músicas, quanto eventos de 45 minutos, ou até ao ar-livre, que a gente já fez várias vezes, pra cinco, dez mil pessoas, como na Festa da Uva e no Fórum Social Mundial. Então a gente sempre trabalha o roteiro em função do local. O espetáculo se dilata e se contrai. Ele é muito adaptável. Isso também deve ser um dos motivos da existência dele ao longo desses anos todos. A adaptabilidade é certamente uma questão fundamental pra existência da vida.
Normalmente, até os artistas mais certinhos têm exigências bem estranhas para o camarim. O que exigem das produções os excêntricos Kraunus Sang e maestro Pletskaia?
Kraunus e Pletskaia são de uma excentricidade total. Eles exigem água com gás e toalhas brancas. Só isso. Mas tem que ser água com gás com muita bolinha.
Vocês seguem viajando pelo Brasil com o Tangos e Tragédias durante o ano ou a peça virou mais uma espécie de especial de verão para o Sul?
Muito gente imagina que a gente trabalha aqui em janeiro e o resto do ano a gente fica coçando o saco em casa. Com o Tangos e Tragédias a gente viaja o ano inteiro, tanto pro interior do Rio Grande do Sul quanto pelo resto do Brasil, além de feiras, eventos, congressos e tal. Também fazemos temporadas anualmente em teatros de Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília. A gente só não se apresenta mais porque a gente resolveu abrir espaço para poder fazer outros projetos.
Além dos projetos que você e o Hique desenvolvem separadamente, enquanto dupla não cogitam aposentar o Tangos e Tragédias e estrear um espetáculo novo?
Aposentar o Tangos… certamente não. Fazer um outro espetáculo juntos, sim. Porque, se a gente fizer, vai ser uma outra coisa que não vai estar competindo com o Tangos… . É como um filme, e depois vem outro filme. E esse novo não tem nada a ver com acabar com o anterior. O Tangos… é uma obra bem acabada e que não tem porque acabar.
Algum plano mais concreto de fazer esse espetáculo juntos?
O que tem de concreto é que esse ano a gente vai fazer juntos músicas pro longa-metragem de animação que o Otto Guerra (de Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n'Roll, 2006) está produzindo em cima da história da Sbornia, que se chama Fuga em Ré Menor.
Seria esse o grande acontecimento para vocês em 2008?
Na verdade, acho que o filme deve ser lançado, na melhor das hipóteses, em 2009. Outra coisa, ainda ligada em cinema, que foi muito legal, foi uma participação no filme do Tabajara Ruas, que estréia neste ano, chamado As Cartas do Domador. Eu fiz uma interpretação muito divertida de um soldado cantor, totalmente maluco, e ficou muito bom.
Você e o Hique têm uma produção artística muito ampla, trabalham com música, teatro, cinema. Essa versatilidade é uma característica dos artistas da Sbornia?
Acho que sim, a versatilidade é uma característica da Sbornia.
