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Livro é livro, filme é filme

  • Publicado quinta-feira, 17.01.2008 por Fernando Leite
  • Artigos

por Luiz Antonio de Assis Brasil*

Um livro é um livro, um filme é um filme. Com desculpas pela cruel tautologia, as conexões entre filme e livro correm por conta de um processo mental exclusivo do espectador e do leitor, jamais do autor da obra literária. Este não deve cair na tentação de avaliar o filme realizado sobre seu próprio livro porque não possui a necessária distância que permite a crítica.

Em meu caso, sigo à risca esse preceito. Não gosto de ler previamente os roteiros. Quando sou solicitado a isso, faço-o por pura educação, mas nunca acho nada de errado no texto, nem algo de genial. Não tenho condições técnicas de julgar roteiros. A minha (pouca) competência é para escrever romances.

Também não assisto às filmagens. Meu amigo Henrique de Freitas Lima, que fez Concerto Campestre, insistiu que fosse a Pelotas para acompanhá-lo num dia de filmagens. Mas era verão, e o calor, insuportável. Informei a ele que não iria por esse motivo, mesmo com a promessa de uma van com ar-condicionado, água mineral e rodomoça. Ele, penso, jamais acreditou na minha desculpa, mas era verdadeira.

Ademais, gosto da surpresa da estréia. Os mecanismos práticos do set (rolos de fios, câmeras, microfones cabeludos, holofotes, megafones etc.) tiram toda a fantasia que possamos ter acerca do cinema.

Essa minha atitude pode parecer algo antipática, talvez excêntrica, mas se trata de pura incompetência e, concordo, certo comodismo.

O autor deve ficar o mais distante possível do roteiro e da coisa prática. Aliás, quando das filmagens de O Velho e o Mar, dirigido por John Sturges e estrelado por Spencer Tracey, Hemingway interferiu tanto que o filme é um dos piores da história do cinema.

Posso, naturalmente, colocar-me na condição de espectador dos filmes que não me digam respeito e, assim, posso fazer algumas comparações entre livro e filme, mas faço-o apenas como um dispensável exercício intelectual. Dizer que o filme O Nome da Rosa, de Jean-Jacques Annaud, é uma obra-prima, não quer dizer que seja melhor do que o livro do Umberto Eco. São coisas diferentíssimas.

Caso queiramos cair na armadilha da comparação (o que não recomendo), o livro sempre será melhor, pois na leitura entram outros elementos (a imaginação, por exemplo) que estão em menor grau ou são inexistentes no filme. Por outro lado, há uma estesia completa do cinema, o que no livro não se encontra.

Assim, fiquemos com a tautologia inicial: um livro é um livro, um filme é um filme. Isso nos permitirá desfrutar de bons filmes e bons livros, sem preocupações de outra ordem que não sejam o prazer e a estética.

* Autor de três romances adaptados para o cinema.

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